ORNITORRINCO

LAMENTO DE UM JOVEM COLONIZADO

Fui criado numa dieta de cultura americana. Não é a primeira vez que falo isso aqui. Já havia discutido o assunto quando escrevi sobre o Oscar. E cá estou falando dos americanos novamente. O que só reforça o laço de colonização cultural que me prende ao país em que resido hoje, ainda que em regime temporário.

Até onde me lembro, sempre gostei dos quadrinhos de super-heróis americanos. O desenho e os bonecos dos Comandos em Ação eram um hit lá em casa. Assim como as idas à locadora aos sábados pra alugar fitas, predominantemente de ação, muita tosqueira incluída. Posteriormente, me interessei por ficção científica também.

Minha dieta política enquanto crescia era a cristã-classe-média-não-proprietária, com informações recebidas basicamente da Rede Globo e da revista Veja. Quando fui virando homenzinho, comecei a adquirir consciência política, muito por influência de meu irmão mais velho. Divago para retornar ao tema.

O fato é que nos últimos tempos tenho sentido um embrulho progressivo-progressista no meu estômago colonizado. Obras que antes me fascinavam agora me provocam um sentimento estranho. Lembro-me de assistir o último 007, direção de Sam Mendes, um baita diretor, e me peguei com desprezo pelo filme lá pela metade da sessão. Como poderia torcer por um espião britânico misógino a serviço de um governo imperialista, colonialista e assassino? Exagero, mas o fato é que, talvez como eu, um monte de jovens no Brasil – e possivelmente de outros países colonizados – tenham crescido com o ponto de vista cultural que coloca americanos (e britânicos, e europeus, mas especialmente americanos) como os heróis. Quando não são traficantes de droga latinos, os vilões se revezam entre russos, chineses, árabes ou criminosos do leste europeu. Quase sempre vem do oriente.

Dia desses estava assistindo O Gângster, de Ridley Scott, que considero um bom filme americano. Em um momento, o policial interpretado por Russell Crowe lidera um grupo armado até os dentes e invade um conjunto habitacional para prender a quadrilha comandada pelo personagem Denzel Washington. Tudo dentro da legalidade, mas nas leis que ignoram ou passam por cima dos direitos dos moradores do local, em sua maioria negros e pobres. Já ouviu essa história em algum lugar? Como ignorar a semelhança com a postura da polícia nas favelas do Rio de Janeiro? E ainda: como apoiar ou torcer por um agente da guerra às drogas dos Estados Unidos, uma política que especialmente nos últimos 60 anos combate violência com mais violência, gerando o aumento de usuários de drogas legais e milhares de mortos, em sua maioria gente morena e pobre? Não se trata de defender os traficantes, mas de entender que esta guerra poderia muito bem não estar acontecendo. Comparando porcamente, continuar a torcer pelo agente antidrogas seria como torcer pelo soldado americano na Guerra do Vietnã.

Na seara dos quadrinhos, existem personagens que se assumem e se apresentam como mais complexos do que joguetes na luta do bem contra o mal. Justiceiro e Demolidor são alguns desses. Todos são, consequentemente, cercados de muita violência – outra característica marcante da cultura popular americana. Nesse contexto, Batman surge como um personagem psicologicamente perturbado, principalmente na visão de Frank Miller e (mais timidamente) no segundo filme da trilogia cinematográfica de Christopher Nolan. Sua obsessão e seus métodos no combate ao crime são questionáveis e, se olhados de perto, podem ser ditos como quase fascistas. Talvez a violência do policial mocinho e o vigilantismo na ficção percam seu poder de entretenimento depois que se toma conhecimento da existência de gente como Raquel Sheherazade e sua turma – de colegas e seguidores.

Do ponto de vista de um país colonizado, como é possível manter admiração por um personagem como o Super-Homem, que veste as cores dos EUA e luta por paz, justiça e pelo american way of life? Como se essas três coisas fossem compatíveis. E como a colonização cultural abrange muito mais do que quadrinhos e cinema, minha questão vai além. Adoro bandas americanas (e inglesas!), mas o quanto dessas músicas eu conheceria se não fosse a colonização? E talvez o mais grave: quanta arte brasileira eu negligenciei para gastar meu tempo com arte americana ou européia?

Vivendo aqui nos Estados Unidos, o perigo da assimilação se faz muito mais visível. Americanos, em sua grande maioria, parecem conhecer unicamente a cultura deles. E só. Como se o mundo se bastasse por aqui. Para se ter uma ideia, em 1989, menos de 3% dos americanos possuíam passaporte. Em 2012 estimava-se que este índice estava em 33%, numa sociedade muito mais miscigenada do que há vinte anos. A título de comparação, segundo um canal de notícias do Canadá, 70% dos canadenses tem passaporte.

Por incrível que pareça, o ponto aqui não é o antiamericanismo. Não quero cair na armadilha de que os americanos são vilões. Vejo no mundo zonas cinzentas e não lados bom e negro da força. Mas acho que vale o esforço de olhar para as suas raízes culturais, referências, e entender o quanto disso influencia o modo como você vê o mundo. Para entender o papel deles no tabuleiro. E o seu.

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.
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Publicado em 16/06/2014 por em Lucas Gutierrez.
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