ORNITORRINCO

ÁRVORE GENEALÓGICA DA COPA DO MUNDO DE 1994

CAULE

Coisa de cidade pequena. Nasci em Vassouras, cidade no interior do estado do Rio de Janeiro. O mais divertido da Copa era quando o Brasil ganhava um jogo e a cidade inteira ia para as ruas (naquela época, as ruas de Vassouras não eram feitas de asfalto, mas de paralelepípedos, que anos depois eu fui descobrir terem sido colocados por escravos). Tão fato quanto a escravidão eram também as carreatas. Minha mãe me levava em todas essas catarses coletivas e motorizadas. Ela ia dirigindo o carro e eu e alguns amigos íamos dentro, com a cabeça para fora das janelas, com as mãos segurando bandeira, pompom, fitas coloridas, qualquer coisa verde e/ou amarela que pudesse dar sentido a tanto apito, buzina e grito. Era um desespero. E eu, descobria ali uma felicidade que só hoje me soa estranha.

Domingo, 17 de julho de 1994. Eu tinha seis anos de idade. Foi um ano muito marcante em minha vida. O primeiro ano em que, conscientemente (ou nem tanto), brinquei uma Copa do Mundo. Foi um ano muito bacana. Fiquei diabético em janeiro. Virei tio em junho. Mas, especialmente, foi o ano em que vi o meu irmão mais velho chorar duas vezes: no domingo 17 de julho, final da Copa, após a vitória do Brasil; e num domingo anterior, 1º de maio, quando o Ayrton Senna morreu. Desde a morte do Senna, aquela música de abertura/encerramento do programa Globo Esporte se cravou em mim de uma forma inevitavelmente trágica: bastava ouvir o pá pá pá pá pá papá para que meu corpo entendesse que era hora de chorar. (Chore você também). Só que eu não chorei com a morte do Senna. Eu só fui chorar no domingo final da Copa. E nem foi porque o Brasil ganhou da Itália. Foi por outro motivo.

FLOR

Hoje, olhando para o que passou, a imagem se revela ainda mais atormentadora: éramos quatro crianças trancafiadas numa câmara de gás (estávamos fedidos, suados, exalando alegria e mútuo desespero, peidando no escuro e vendo vislumbres dos dentes de leite querendo cair ante a tanta incompreensão). Só que era muita Alice para uma toca tão pequena. Como tanta alegria pôde, bruscamente, se revelar em tanto desespero? Nós, crianças, gritávamos sem ser ouvidas, enquanto as ruas, a cidade, o mundo inteiro, tudo gritava e sorria a vitória do Brasil na Copa do Mundo FIFA de 1994 sediada pela primeira vez nos Estados Unidos da América.

Mas isso já faz muito tempo. Vieram outras Copas depois e, pouco a pouco, eu fui perdendo o gosto pela coisa. Era como se a cada jogo da Copa, frente ao televisor, para além dos gritos dos torcedores, eu pudesse também ouvir todos os porta-malas do mundo nos quais alguém pudesse estar trancafiado e pedindo ajuda. Não. Com o tempo, comecei a reparar que a cada grito de alegria, um pedaço daquele som poderia ser de um grito desesperado. A cada fogo de artifício, uma fagulha daquela luz, muito provavelmente, era de alguém tentando reencontrar a liberdade que pudessem ter lhe tirado. A cada rojão estourado, dentro daquele estouro morava também um tiro e, com ele, a vida de alguma pessoa.

FOLHA

No último jogo da Copa de 1994, como era de se esperar, a carreata ia ser a maior de todas. Eu acho até que o preço da gasolina deve ter subido especialmente naquele domingo. Estávamos na minha casa, meu sobrinho com menos de um mês de vida chorava no quarto, tamanho o barulho dos familiares frente ao televisor (que havia sido movido especialmente para frente de uma imensa mesa de madeira repleta de bebida e comida). Enfim, Brasil ganhou a Copa (e eu pulando dentro e fora de casa, nem bem pela vitória e sim, unicamente, porque haveria carreata)! Lembro-me de uma única urgência: anda, mãe, vamos! Espera, Diogo! Vamos! Espera, meu filho! Ah, por favor, mãe, vamos! Então vai entrando no porta-malas com seus amigos!

FRUTO

O tal choro que eu chorei, sem música do Globo Esporte para me embalar, o tal choro só chegou quando desfilávamos pela avenida principal da cidade, chamada Broadway (que hoje olhando é basicamente uma rua pequena e simples com um nome importado). Era muita histeria. Muita! Tanta e tamanha que, de súbito, ao passar por um quebra-molas, aconteceu o seguinte: eu e meus três amigos, enfiados no porta-malas, com braços e mãos acenando ao povo, como políticos eleitos em plebiscito, nós quatro fomos rendidos pelas leis da física que só mais tarde estudaríamos: o carro elevou-se ao passar bruscamente pelo quebra-molas e, obviamente, ao descer, a tampa do porta-malas veio em mesma intensidade e nos trancou feito bagagem. E ali ficamos. Só de lembrar, já começo a suar. Quatro crianças feito carne abatida, trancadas no porta-malas, ouvindo a histeria do mundo e sendo, obviamente, não ouvidas. Nós gritávamos, batíamos no banco para ver se a minha mãe nos percebia ali, nos batíamos entre si, presos, porém, coitada, minha mãe motorista só fazia buzinar. E assim ficamos um bom tempo: os corpos aceitando e aprendendo que quanto menos gritássemos melhor seria, que quanto menos tentativas de fuga mais um pouco prolongaríamos a nossa miúda vida. Até que no meio do caminho de volta a minha casa, minha mãe percebeu – talvez pelo retrovisor – que a tampa do porta-malas estava fechada. Parou o carro bruscamente e nos tirou do calabouço.

RAIZ
Sem traumas. Voltei a minha casa faz pouco tempo. Estava sem voltar à casa de minha infância há mais de 10 anos. Saí com 12 e voltei nesse ano, aos 26. E eis que para a minha surpresa, algo havia sumido do quintal lá de casa: a mangueira (mais velha que eu), na copa da qual eu construí, durante toda a minha infância, inúmeras casas. A mangueira não aguentou, disse o meu pai. Ficou velha, secou por dentro, já nem dava fruto, foi preciso sacrificá-la. Eu disse algo como: que pena, pai. E percebi que não tinha mais copa onde eu pudesse morar. Não tinha mais copa de árvore onde eu pudesse convidar meus sobrinhos a brincar tal como brinquei um dia. Meu pai entrou e eu fiquei no quintal, chorando a morte da árvore. Foi quando meus olhos perceberam o gramado marcado pela ausência da mangueira. Uma área morta, descolorida, cansada, por ter suportado por tanto tempo um projeto tão imenso quanto é uma árvore. Me lembrei das aulas de ciência no colégio, de ter aprendido como uma árvore vira uma árvore, de todas as partes que fazem da árvore uma árvore: raiz, caule, folha, flor e fruto. Eu me lembrei da seiva bruta e também da elaborada. Me lembrei da semente, sempre menor e esquecida, mas sem dúvida, a maior responsável por fazer nascer uma coisa tão linda (como era a minha mangueira lá de casa).

SEMENTE
Silêncio pré-sepulcral. Minha mãe, na tentativa de conter minha felicidade em desmedida, ordenou que eu entrasse no porta-malas do carro. Era um Escort Hobby 94 azul brilhante (horrendo). Ela me deu a chave para a felicidade. Abri o porta-malas, me enfiei lá dentro e fui fiscalizando a entrada de mais um, dois, três amigos. Éramos quatro crianças magras e com sorriso escorrendo dos olhos e nos afogando em ansiedade incontornável. O carro, ainda parado na garagem, trepidava sobre o chão, tamanha a nossa alegria. Apitávamos! Gritávamos! Anda logo, mãe! Todos presos ao instante em que poucos segundos começaria: percorrer as ruas da cidade de carro, no porta-malas escancarado, apitando e comemorando, gritando e rindo a vitória do nosso país, que no anterior – 1993 – havia sido reconhecido como uma república presidencialista: uma democracia (coisa que só anos depois fui estudar e até hoje não entendo).

Vai demandar tempo até esse solo voltar a ser fértil, disse o meu pai. E não adianta plantar nada agora porque a semente provavelmente vai morrer. A gente vai ter que ficar com essa mancha no terreno de casa e, um dia, quem sabe, a gente consegue plantar uma árvore e começar tudo de novo.

Diogo Liberano é diretor, dramaturgo e integrante da companhia carioca Teatro Inominável.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 16/06/2014 por em Diogo Liberano.
%d blogueiros gostam disto: