ORNITORRINCO

A NOVA TECNOLOGIA NO FUTEBOL – UM MUNDO SEM POLÊMICA

A Copa do Mundo (que já não teve no Brasil) introduziu uma novidade tecnológica nos campos de futebol: a goal control tecnology. Sete câmeras de alta resolução são apontadas para cada um dos gols e um sinal é enviado para o relógio do juiz dizendo se a bola entrou ou não. Os entusiastas do futebol pós-moderno e das decisões infalíveis estavam eufóricos. A FIFA fazia propaganda de sua tecnologia mesmo nos gols nos quais a bola estufava as redes. Mas eis que no jogo França x Honduras, um chute do francês Benzema bate na trave, caminha pela linha do gol, bate no goleiro Noel Valladares, que meio atabalhoado quase bota a bola pra dentro e a segura depois. O próprio atacante ficou na dúvida até o juiz receber, numa fração de segundos, o sinal eletrônico e validar o gol. Uma nova era se inicia hoje, ria o comentarista de arbitragem.

Os entusiastas de um mundo dominado pelas máquinas, comemoraram esse gol mais do que qualquer outro já feito na história. Pela primeira vez um olho eletrônico, oficialmente implantado no jogo, muda o resultado de uma partida. Pronto, não tem mais discussão, foi gol. Mas foi mesmo?

Vendo e revendo o lance não consigo me convencer de que a bola entrou totalmente. O goleiro hondurenho, que se chama Noel, para dar mais simbologia ao nascimento dessa nova era, afirma categoricamente que a bola não entrou. Mas ele é um jogador/torcedor apaixonado, os sete olhos de alta definição são frios. No entanto, o que os sete olhos fazem é construir um modelo 3D do gol e mostrar um desenho com a bola lá dentro. Da alta tecnologia do século XXI cruzamos a bola ao mais básico da pintura renascentista, as perspectivas. Quem garante que o computador, ao pintar aquele quadro com a bola dentro do gol, não possa desloca-la uns centímetros pra lá ou pra cá?

O goleiro da seleção de Honduras, Noel Valladares, pegando a bola. Foi gol?

Em nome de uma justiça infalível, é criada uma tecnologia, mas a alma humana, mais avançada que a mais avançada das tecnologias, consegue driblá-la e reconstruir uma polêmica em alta definição mesmo com todo o aparato digital que custa milhões. Ou seja, a discussão não acabou, mas agora há algo mágico, superior, considerado infalível, que rege as decisões. decisões. É como no banco, quando o caixa te diz “é o sistema, eu não posso fazer nada.” Mas será que é necessário existir algo maior do que as relações humanas para nos reger? O pioneiro sujeito que falou sobre isso com imagens foi Dziga Vertov em o seu belíssimo “O homem com a câmera”, vale ver o documentário e sentir as primeiras relações entre a visão orgânica e a eletrônica.

Fiquei aqui pensando sobre as consequências disso fora das quatro linhas, no nosso dia-a-dia. Já somos cercados por câmeras que tomam decisões por nós o tempo inteiro. Quem nunca tomou uma multa fotográfica por avançar um sinal na madrugada? O Rio de Janeiro é uma cidade perigosa, não quero parar nesse sinal, não tem ninguém aqui, vou-me embora. Mas a câmera infalível larga o flash na sua cara e manda a conta pra sua casa. Talvez acreditemos, hoje, mais na foto do que no desenho e a multa pareça mais real do que a bola entrando no gol por causa disso. Mas será? Eu mesmo só acredito que as fotos de satélite da Terra estão corretas porque lembram muito os mapas traçados por quem navegou e caminhou pelo planeta desenhando suas curvas.

Fato é que já somos há muito controlados eletronicamente, o jogo desse domingo apenas mostrou isso ao vivo, pra quase um bilhão de pessoas ao mesmo tempo. Noel Valladares, o goleiro hondurenho, virou motivo de chacota. Mas eu estou com ele, pra mim não foi gol. E o pior é que não sobrou muita gente pra discutir com a gente, porque a tecnologia tem tal poder persuasivo que parece exterminar qualquer tipo de dúvida. Agora imaginem um mundo sem dúvidas, sem questionamentos, sem diálogo ou discussão. Todo controlado pelo olho eletrônico. Assim devem ser o padrão dos sonhos dos executivos da FIFA. Sujeitos insensíveis, frios como os exterminadores enviados do futuro pela Skynet para nos eliminar. Mas não, esses não são os meus sonhos e espero que um coro dos que preferem a dúvida às certezas digitais continue nas ruas, sendo filmados e fotografados para mostrarem ao mundo que há mais potência no debate do que nas imposições.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 16/06/2014 por em Domingos Guimaraens.
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