ORNITORRINCO

QUEM PAGA R$990 PARA XINGAR A PRESIDENTA DO PAÍS?

A elite branca de São Paulo, capaz de pagar os preços abusivos do mundial da FIFA, junto das celebridades e dos realmente ricos – que jamais pagam pra estar em lugar nenhum – xingou a presidenta Dilma no jogo de abertura da Copa do Mundo. Para além da dedução óbvia a que se pode chegar diante do fato – qual a surpresa sobre o posicionamento político, social, estético, humano dessa turma? –, vale frisar que essa é a mesma elite que jamais vaiou Paulo Maluf, entre tantos outros, e que, do alto de sua influência, nunca pressionou ninguém para que o julgamento a respeito do mensalão tucano ou o escândalo do metrô de São Paulo fossem sequer tratados com seriedade.

No mais, pouca coisa é tão vazia quanto mandar alguém tomar no cu como protesto. Além da origem obviamente homofóbica do xingamento – que já passou da hora de deixar de ser utilizado como forma de ofensa –, xingar alguém é simplesmente não ter ou não saber o que dizer, e apelar para o ódio mero – como uma criança faz quando não tem argumentos, e quer porque quer alguma coisa.

Havia mais negros no campo, vestindo a camisa amarela, do que era possível ver na arquibancada – o que esvazia em muito o futebol como uma das principais expressões populares brasileiras. Porque sim, parte da riqueza e da força desse esporte é misturar, promover o encontro, na arquibancada e em campo, das mais diversas origens, cores, classes sociais, nacionalidades e crenças politicas. Ou ao menos era, pois, pelo visto, o esforço dos responsáveis pelo futebol brasileiro e mundial em elitizar os estádios vai conseguindo apartar o futebol do povo. Pois a mistura não é, ou era, também uma das grandes forças do próprio Brasil, para além do repúdio que provoca em certos setores sociais? Esses são os mesmos engravatados que ainda hão de conseguir nos tornar somente meros exportadores de talentos, ao invés de protagonistas do espetáculo que nossos próprios artistas oferecem em campos fora daqui, espalhados pelo mundo.

As arquibancadas jamais primaram pela inteligência ou coerência na hora de atacar os adversários com palavras. Xingamentos homofóbicos são seguidos de convites para que a torcida adversária sente no pau da torcida que grita. Nunca entendi. É claro que, no calor do momento e da multidão, é difícil esperar sabedoria de qualquer aglomeração, e parte da coisa é a diversão da implicância e nada mais, como crianças de fato – agora no bom sentido, desde que sem as barbáries habituais. Porém, dois casos que contrariam a máxima supracitada são memoráveis: um, de quando a torcida do Flamengo reverteu a então tentativa de ofensa adversária em gritar “Silêncio na favela” quando marcavam um gol contra o Rubro-negro, ao entoar “festa na favela” para celebrar; e outro, da torcida do West Ham, da Inglaterra, que, diante de uma elástica goleada imposta pelo Manchester City ao seu time, cantou: “Nós perdemos toda semana. Vocês não são tão especiais. Nós perdemos toda semana”. Coisa de gênio, honrando a tradição do melhor humor inglês.

A verdade é que existem várias Copas do Mundo em andamento: uma é a Copa da FIFA, que impõe regras inacreditáveis, rasga nossa constituição – e de qualquer país em que aporte para realizar seu torneio, diga-se de passagem – promove a homogeneização dos estádios – pela TV, não há charme nenhum nas tais arenas; o jogo poderia estar acontecendo em qualquer lugar do mundo – a elitização, gentrificação e despolitização de um cenário que se encontra em absoluta ebulição, tentando transformar tudo em uma ficção sem graça, pasteurizada e delirante; outra é o Mundial de Futebol, disputado no campo, que ainda mantém, não se sabe até quando, sinais da aura de outrora, de um esporte que nos move e que é especial, e que ainda oferta prazer e emoção para o torcedor e o jogador. Por último, há a Copa fora dos estádios, dentro desse caldeirão fervente das manifestações e da polícia, que começou mal, muito mal. Espancar manifestantes por simplesmente estarem se manifestando, esse sim ainda tem de ser o assunto. É evidente que cada uma dessas Copas atravessa a outra. Cabe ao futuro fazer com que o Mundial de Futebol paute a instituição que for realiza-lo, e não o contrário – e que a FIFA jamais paute coisa alguma novamente nesse país e, preferencialmente, em país nenhum.

Sobre a qualidade da festa de abertura da Copa – que foi, de fato, bastante fraca – falem com a FIFA e com a tal organização belga e italiana, responsáveis pela cerimônia – e, em nome da coerência mínima, não reclamem sobre os custos do evento se consideraram a festa “pobre”. Vale o porém de que nenhuma abertura ou encerramento de qualquer desses megaeventos esportivos costuma ser muito melhor. Mas seria bonito que a festa tivesse uma mínima cara de Brasil, mesmo que fosse óbvia: um desfile de escola de samba, sobre a história das Copas ou do futebol brasileiro mesmo, encerrado com um show do Jorge Ben, do Gil, até mesmo da Ivete, ou qualquer outro artista que fizesse o estádio cantar. E sobre o xingamento à presidenta, bem, enquanto ele não vier também dos funcionários dos estádios, do povo que não pôde comprar ingressos, de TODOS que amam esse esporte e ainda dão sentido à bagunça que é o futebol brasileiro, não vale nem o começo do debate. Não é política, nem é novidade – e não fará nenhuma diferença.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 13/06/2014 por em Vitor Paiva.
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