ORNITORRINCO

BRASIL X CROÁCIA NO ITAQUERÃO – A PEDRA ADORMECIDA ACORDOU

E finalmente, depois de tanta confusão, a Copa do Mundo de 2014 foi inaugurada. Começou com uma cerimônia de abertura digna dos olhares exóticos de uma belga tentando captar o exotismo desse imenso país ao sul do planeta. Ali ficamos mesmo travestidos de cosplay de brasileiros. Pelo menos a trilha sonora foi muito bem escolhida. Claudinha Leite, garota propaganda da Sony, que é patrocinadora da Copa, surgiu de dentro de uma flor tosca cantando Aquarela do Brasil. A música ficou mais pra versão em inglês feita pelo Ray Gilbert do que praquele swing do Ary Barroso. Mas encaixou bem no clima surrealista do “Brazil”, filme de Terry Gillian que conta sobre um futuro cômico e tenebroso, imerso numa kafkiana e incompreensível sociedade de controle. É bastante similar com o que vivemos hoje no país da FIFA, digo, no Brasil. With still a milion things to say a festa continuou e aquelas outras pessoas que eu não conheço entraram cantando o “tell the world we are one”, tema oficial da Copa. Somo todos um o quê? Todos um bando de idiotas, pra mim foi esse o retrato que o mundo ficou de nós depois da cerimônia de abertura.

Mas vamos para o que interessa que é bola rolando. Ah! Antes disso o hino cantado a capela, até o fim – já que a FIFA corta todos os hinos depois de sei lá quantos segundos – foi mesmo arrepiante. Sessenta mil pessoas juntas cantando a mesma música, poderia ter sido “Atirei o pau no gato”, que eu me arrepiaria. Mas era o hino nacional, essa estranha letra toda arrevesada, tropeçada em inversões sintáticas, mas que está no inconsciente de todos nós, para o bem e para o mau. Realmente não é muito diferente de “Atirei o pau no gato”.

E aí a bola finalmente rolou. O nervosismo da estréia dominava Brasileiros e Croatas, no campo, na arquibancada, na TV, nos sofás. Para acalmar os nervos e mostrar que futebol é (ou era pra ser) só um jogo, surge um gol espírita. Não um gol espírita qualquer, mas um gol digno de um Sobrenatural de Almeida muito politizado, como bem apontou meu camarada Pedro Rocha. Essa Copa de 2014 começar com um gol contra do Brasil é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar.* Os olhos arregalados do Marcelo, desacreditando a situação, parecia uma venda que caia mostrando pro mundo que fazer negócios com a FIFA é um tremendo gol contra pra qualquer país. Isso ficou evidente fora de campo também, com manifestações se espalhando por todas as regiões, sendo brutalmente reprimidas pela polícia. Essa nossa polícia sádica, que continua achando que vai conseguir convencer todo mundo a gostar da Copa enfiando porrada.

No campo não é tão fácil bater e o Neymar, encarnando o melhor espírito Libertadores da América, largou o braço no pescoço de um Croata, numa jogada conhecida como pescoção, acabou levando o cartão amarelo. Mas não foi só isso. O nosso filé de borboleta marcou um belo gol batendo (na bola) no cantinho do goleiro, sem chance. Jogo empatado até o lance capital da partida: a encenação de Frederico. Sem pegar ninguém na maior parte da partida, Fred levantou as duas pernas do chão ao mesmo tempo, como quem tenta levitar, e se esborrachou sozinho dentro da área. O juiz japonês, num preciso gesto de samurai, apontou a marca da cal.

Uma pausa para registros de memória. Esse juiz de hoje foi o mesmo daquele fatídico Brasil 1×2 Holanda que nos eliminou na Copa passada. Naquele jogo ele deixou de marcar um pênalti claro em cima do Kaka e acho que isso pode ter influenciado. É a famosa lei da compensação. Mas talvez esse tenha sido mais um dos gestos políticos dessa partida. O juiz quis agradar os chefes e deixar o jogo com cara de FIFA, ou seja, com alguma coisa escandalosamente roubada na frente de todos sem que a gente possa fazer muita coisa pra impedir. É triste mesmo. Ou nem tanto se pensarmos que não foi isso. Que o pênalti foi marcado ao estilo Cabelada, aquele juiz que num acanhado campo dos anos 80 marcou um pênalti inexistente contra o Flamengo, alguém do Alambrado gritou: “Porra Cabelada, não foi nada!” Cabelada vira-se para a arquibancada e vocifera: “Hoje eu tô demais!!!”. Ele só queria fazer parte da festa, e convenhamos que marcar um pênalti deve ser o maior barato.

Mas o futebol tem, ainda, algo de imponderável em si. Pênalti não é gol e o Neymar podia ter perdido. De fato quase perdeu, batendo mal, a meia altura, mas contando com a mão de alface do goleiro grandão Croata que deixou a bola entrar. Talvez ele tenha feito isso de propósito, para parecer que ia agarrar e não ficar na cara que tudo está comprado e traçado pro Brasil ser campeão. Fiquem com essa versão os que acreditam na teoria da conspiração. Não os culpo.

O jogo seguiu aberto, lá e cá, a Croácia poderia ter até empatado. O Felipão fez duas boas mexidas pra ganhar de volta o meio campo que o Brasil estava perdendo. Para desespero do pessoal da camisa “toalha de piquenique”, apareceu Oscar, o mão santa, o cestinha da partida, mil pontos na frente dos demais. Endiabrado ele arrancou do meio campo, aproveitando uma roubada de bola do Ramires, que acabara de entrar, e deu de biquinho, no cantinho. O goleirão Croata pulou meio atrasado, mas foi um chute de pelada, daqueles que só quem jogou em campo de terra batida sabe dar, é imprevisível. Belo gol, mas sacaneou o meu bolão, eu tava quase cravando o 2×1.

Ainda tem muita Copa pela frente. Essa foi só a primeira festa. O Itaqueirão, o estádio de mais de 1 bilhão que precisa de estruturas temporárias de arquibancada, voltou a ser a pedra (ita) adormecida (quera). Apagam-se as luzes e pelas ruas o pessoal vai bebendo, batucando, se divertindo como pode nesse clima entre festivo e desconfiado no qual nos encontramos. Ainda falta um mês até o dia 13 de julho no Maracanã onde ou confirmaremos as teorias conspiratórias sobre mais uma Copa comprada ou veremos outro time comemorando o título. Se não for o Brasil eu gostaria que fosse uma seleção africana. Acho que o primeiro título da África no país que tem a maior população negra fora de lá ia ser por demais forte simbolicamente e demorou para abalar.

* Paródia feita pelo Mariano Marovatto com a música Base de Guatánamo, do Caetano Veloso.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 13/06/2014 por em Domingos Guimaraens.
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