ORNITORRINCO

MANIFESTO PRÓ-VAGABUNDO

Que coisa é essa que faz os amigos sumirem? Que faz o tempo se tornar escasso e nos lembrar de que ele é finito como tudo na vida? É o dinheiro? O carro, o apartamento, as contas pra pagar e os filhos pra sustentar? É assim que nos ensinaram desde que éramos criancinhas brincando de esconde-esconde? Você cresce, estuda, passa no vestibular, se forma na faculdade e vai pra onde mesmo? Ah, o mercado de trabalho, o maldito mercado de trabalho que nos corrói, sacando o que há de mais belo e de mais sincero na vida. Falo da nossa individualidade, nossa liberdade para ser o que quisermos ser, sem compromissos ou roteiros pré-definidos.

Lá vem ele com aquele papo hiponga de sempre.

Definitivamente o tempo livre, o ócio, assusta. Não ter nada pra fazer, não ter prazos ou metas pra cumprir não é pra qualquer vagabundo. Tem que ter aptidão pra coisa, um certo dom dudeísta, pois como diz um velho ditado, mente vazia é oficina do diabo e é fácil se deixar levar por vícios, pelas drogas, pela prostituição ou, pior que tudo isso, pela TV. Ficar sem nada pra fazer e ligar a TV talvez seja o maior pecado que alguém possa cometer. É ali que o diabo opera, com seus reality shows, seus programas de auditório, seus telejornais, suas novelas e seus jogos de futebol.

Eu? Eu tento ficar longe dela, tento ocupar meu tempo com outros passatempos, como tocar piano porcamente, ou assistir alguma série decente na Netflix. E para não me afundar na passividade, procuro produzir, pintar, escrever, fotografar, filmar, enfim, o meio não importa, a arte é pra mim a única coisa que se salva nessa vida, a única coisa que pode ser autêntica, mesmo que na maior parte das vezes não seja.

Profissões, empregos de carteira? São ilusões, e como diria Emile Hirsch, são apenas invenções do século 20. Já estamos no século 21 e o povo continua acreditando nisso.

Ok, entendo que ter um emprego nas costas e mais do que isso, um salário fixo e condizente com o padrão de vida que você queira ter é fundamental, mas você não precisa transformar esse emprego na sua vida. Há coisas muito mais importantes do que seguir instruções de algum chefe qualquer, ou cumprir metas e prazos. Pensar, refletir e filosofar é o que nos difere da maioria dos outros animais, no entanto, poucos o fazem. E não fazendo, tornam-se cada vez mais parecidos com as formigas, seres que passam a maior parte do tempo trabalhando sem questionar absolutamente nada.

E é isso que vejo acontecendo com a maioria dos meus amigos na faixa dos trinta. O trabalho se tornou a própria vida, simplesmente porque não sobra mais tempo para não fazerem mais nada. Ou, pelo menos, para saírem com os amigos, tomarem uma cerveja, falarem besteiras e olharem para Lua ou Marte que nesses dias, andou se aproximando da gente.

Se existe um Big Brother, os Illuminati ou seja lá quem, com certeza é isso que eles querem da gente. Não pensem, escolham uma profissão, estudem e depois trabalhem, trabalhem, trabalhem. Com todo esse trabalho vocês conseguirão comprar aquela TV de 60 polegadas, aquele celular da moda e, dependendo do esforço, talvez até um iate vocês terão um dia. Quando envelhecerem, parte desse dinheiro será gasto com cuidados médicos, necessários quando se passa metade do dia sentado na frente do computador em algum escritório no centro da cidade.

Talvez quando vocês tiverem 70 ou 80 anos, ao olharem o sorriso do seu neto, brincando de esconde-esconde, vocês perceberão que a vida, no sentido poético e verdadeiro, existe nesses momentos. O escritório, a sala de reunião, o consultório, a sala de recepção, o estúdio de gravação, tudo é pretexto pra que vocês continuem sendo… Formigas!

E como eu gostaria que essas linhas pretas expelidas em uma página de internet representassem alguma mudança real na vida dessas formigas, mas talvez essas linhas não passem de mais um lamento enferrujado, provocado pelo vagabundo da esquina que insiste em não gostar de trabalhar. Quanta teimosia!

Igor Moura é escritor, artista plástico e cineasta.

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Publicado em 11/06/2014 por em Igor Moura.
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