ORNITORRINCO

BOM E MAU HUMOR NA GREVE DE SP

Um ponto de vista é a opinião de alguém sobre determinado “objeto”. Um filme já velho que fez pouco sucesso, mas que adorei, pois trata de um argumento que sempre tentei usar na minha vida, é o “Melinda Melinda”, do Woody Allen. Quem assistiu sabe que toda história pode ser uma tragédia ou uma comédia, depende de como ela é vista.

Eu prefiro optar pela comédia.

Posso encarar a greve dos metroviários como algo maravilhoso e vou explicar o porquê. Minha saga começa antes: estava no Rio de Janeiro no domingo e meu ônibus para São Paulo era 23:30. O ônibus de 23:45 já estava saindo e nada do 23:30. Os passageiros começaram a se revoltar. Tem gente que gosta de reclamar e esbravejar. Parece que precisa disso. Os passageiros de 23:30 eram assim. Um chutou uma lixeira e gritou palavrões, outro ficou indignado e falou em processar, outros atacaram o motorista de outro ônibus da mesma empresa. Resolver a situação, tentar buscar uma solução concreta, eles não queriam, queriam reclamar desde como o Rio é uma desorganização terrível, como o serviço é uma bosta, como a rodoviária é precária e desorganizada, até como é um absurdo aquilo acontecer em plena Copa e que por isso Brasil não vai pra frente e esse blablabla derrotista já tradicional. Tem algum sentido o que eles diziam? Sim. Resolveria nossa situação ou melhoraria o serviço da empresa e a rodoviária? Não.

Não sou contra reclamar e exigir seus direitos, o problema que vejo é que os reclamões incorrigíveis reclamam e ficam mau humorados quase que por vício, uma necessidade de reclamar, e não buscam soluções concretas para quem lhes incomoda. Os reclamões do ônibus das 23:30 só queriam reclamar e fazer um ping pong daquela energia de raiva e indignação, se possível, transmitindo a raiva pra alguém, no caso, o supervisor da empresa de ônibus. O supervisor por sua vez absorveu a raiva, a falta de educação e ódio, ficou puto e decidiu não ajudar em nada ninguém ali, ironizando e lavando as mãos pro ônibus das 23:30 que simplesmente não chegou. O que as pessoas falham em entender é o quanto ficar ranzinza é infrutífero e infantil. O supervisor, que também é um ser humano e estava trabalhando domingo quase meia noite, dificilmente iria reagir bem às pessoas agressivas reclamando e choramingando sobre quão bosta é o serviço da empresa e o quão bosta ele era por não saber o que tinha acontecido com o ônibus das 23:30 e o porquê do atraso. Acho uma perda enorme de energia a reclamação viciada, penso que sempre é possível olhar para um acontecimento fora do seu controle por um viés positivo e tentar achar uma solução pra situação.

Fiquei tranquilo e bem humorado, o que não tem remédio, remediado está. Tentei acalmar os nervos dos passageiros que iriam comigo no ônibus, não adiantou. Todos iriam perder alguma coisa ao ficar no Rio, e gritavam isso. Se eu perdesse o ônibus eu ia perder meu trabalho no dia seguinte, mas ia ficar mais uma noite no Rio, que eu poderia ver como algo bom.

Sendo assim, fui tentar resolver a situação com educação e bom humor. Brinquei com uma atendente, perguntei se ela poderia nos ajudar porque a gente tava morrendo de saudade de voltar pro concreto, pro trânsito que estava mais maravilhoso em São Paulo com a greve, ela riu. Resultado: ela me colocou junto de outras 3 pessoas menos ranzinzas, num ônibus leito, que é o dobro do preço e o triplo do conforto do que a gente iria. Meu ônibus saiu 23:53 e da janela deitado vi o grupo de reclamões esbravejando com outro funcionário da empresa.

E eis que chego na concrete jungle de São Paulo. Segunda-feira 6h da manhã. Greve dos metroviários continua. Terminal rodoviário Tietê congestionado, caótico. A fila do táxi era de quase 2 horas ou mais de espera, a última vez que vi uma fila desse tamanho foi quando o Flamengo foi campeão brasileiro em 2009. Eu poderia ficar puto e reclamar da greve, da falta de opção de sair dali, da desorganização e do despreparo, do roubo dos governantes… Poderia ser esse o meu ponto de vista. Mantive o bom humor e fui achar uma solução. Sugeri ao organizador da fila que reunisse pessoas com o mesmo destino ou direção. Resultado: a fila começou a andar bem mais rápido, estranhos se conheceram e começaram a ficar menos ranzinzas na fila. Encontrei na boca da fila um amigo de escola de Petrópolis, que já estava 1h50m esperando, e ia na mesma direção que eu. E assim, aquela fila que poderia ser vista como algo tenebroso causado por uma greve cretina, desapareceu. Não esperei nem 10 minutos pra pegar o táxi.

Pois que, dentro do táxi, voltando pra casa peguei o trânsito infernal pela frente, que chegou a centenas de quilômetros (depois li que foi o pior em 20 anos). Um detalhe que esqueci propositalmente de agregar: no meu passeio até o organizador no início da fila quilométrica, vi uma mulher linda com cara e porte de modelo, que era de fato modelo e estava onde? Ali, com o meu amigo, porque ela teve a mesma idéia que eu e ia na mesma direção que nós dois. E de repente àquelas horas de trânsito que poderiam ser vistas como infernais viraram horas de oportunidade de conversa agradável com um amigo de longa data e uma modelo que além de gata, era doce, simples e simpática, uma pérola do Paraná. Tudo por culpa dessa greve “maravilhosamente escrota”.

Não sei se optar por um ponto de vista com bom humor e ser otimista faz tudo parecer dar certo mesmo quando dá errado, ou se o fato de tudo dar certo é consequência deste ponto de vista positivo. Fato é que viver assim é bem mais fácil. E eu prefiro viver de forma mais leve.

Estando eu leve, não foi problema carregar a mala pesada da modelo quando descemos do táxi. A corrida até ali deu R$57, mas nem eu, nem a pérola brilhante do Paraná, tivemos que pagar um centavo porque a empresa do meu amigo reembolsa ele. Fomos pegar o metrô na estação Clínicas, que estava aberta(?!). Me informei pra saber se estava funcionando sentido Vila Madalena, o atendente disse que sim. Ele deu a informação errada, entro passo o cartão e vejo que está fechado no sentido Vila Madalena. Gasto uma passagem a toa. Poderia me irritar e ir reclamar da falta de atenção e idiotice dele, ao invés, me despeço da pérola, recebo o contato dela de bom grado e sorridente, agradeço ao atendente burro e retifico a informação errada que ele me deu. O trânsito está completamente parado na chegada da Paulista. Filas caóticas de ônibus.

Culpa dessa greve. Impraticável. Decido ir a pé pra casa. Mas o dia está lindo, o clima está agradável, uma caminhada de 30 minutos não é tão longa, vai ser bom pra pensar um texto sobre essa jornada que começou ontem às 23:30. No meio do caminho, a pé, na ponte do Sumaré, acho uma nota de R$50 no chão.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 11/06/2014 por em Franco Fanti.
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