ORNITORRINCO

POR QUE LER OS CLÁSSICOS?

Clássicos são aqueles livros fundamentais, que todo mundo tem que ler, como se diz, e que sempre aparecem nas listas de algum escritor ou revista especializada. Os clássicos também surgem nas coleções comemorativas dos jornais, normalmente saindo aos domingos, e compõem vastas prateleiras em bibliotecas pelo mundo, resistindo nas conversas de bares perdidos nos cantos de alguma cidade. Também aparecem nas livrarias, em seções exclusivas, lado a lado, mesmo tendo sido escritos em épocas diferentes – enfileirados, como o pelotão de frente de um exército invencível.

Por que os clássicos são clássicos? Por que esses mesmos livros sempre aparecem quando surge a necessidade de eleger os melhores dos melhores, os essenciais dos essenciais, a fina flor da literatura mundial? Pode-se dizer que essas obras atravessaram o tempo, transcenderam a contemporaneidade em que foram escritos para uma sintonia diferente, que não contêm apenas uma história, mas algo mais, uma sumo estranho de potência, que quando lidos, são sempre atuais, revelando segredos, ou mesmo, mudando a linguagem, mostrando algo novo, revolucionando as maneiras de escrever.

Outro fator que contribui para o enriquecimento das listas dos clássicos são os personagens. Creio ser a forma mais lúdica de incorporação de um texto no corpo do leitor. Sentir-se como tal, ser o que foi lido, tal um ídolo, um herói. Imagino a impressão que o Meursault dá a quem o conhece pela primeira vez. Andar calado fumando um cigarro, naquela introspecção impassível, como um observador privilegiado da vida. Ser como Madame Bovary, Julien de Sorel diante da hipocrisia da sociedade, ou como o príncipe Hamlet, face às questões existenciais. Viver como Raskolnikov dentro de um sobretudo, desbravar os mares como um Capitão Ahab, um Ulisses, um Santiago. Exercer com propriedade o devir Horácio Oliveira pelas ruas da cidade – mesmo que não em Paris – ser um como Don Quixote, Aureliano Buendia, Estragon, Capitu, e perder-se dentro dos ângulos do própria casa, da própria cabeça, como Gregor Samsa, e morrer, insatisfeito com a ignorância humana como John, O Selvagem.

Tratar os personagens como figurinos, usá-los, deixá-los de lado, esquecê-los, sentir saudades e voltar a seus braços como quem revive um grande amor – talvez essa seja a melhor parte: entrar dentro do livro e pegar a poesia com as mãos.

Há livros notáveis que se tornaram praticamente unânimes. Há autores notáveis que se tornaram praticamente unânimes. Há livros e autores notáveis que se tornaram praticamente unânimes. O grande desafio é encontrá-los. Tentativa e erro.

O fato é que eleger o que é essencial é sempre discutível. Não ter lido um clássico, muitas vezes dá ao sujeito a impressão de que ele está fora de algum clube conspiratório, subjetivo, alheio às inúmeras referências feitas à determinada obra, ficando assim, literalmente, no banco dos ignorantes. Sabemos que não é bem assim. Porém, é preciso sim ler os clássicos, como, quando e quantos forem precisos, pois o poeta, escritor, o artista, são interseções ambulantes entre o diálogo com a tradição e a eterna busca pelo novo, e o leitor, sempre o leitor, o destino derradeiro de todo esse movimento.

Pedro Lago é poeta.
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Publicado em 05/06/2014 por em Pedro Lago.
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