ORNITORRINCO

MÚSICA NA CABEÇA

Se eu te falar: “Não pensa em nada”, você consegue? Ou sempre vem um pensamento recorrente ou uma dívida atual? Ou ainda: você pensa em música do nada? Alguma específica?

Tive uma fase onde não podia haver silêncio ou paz no meu coração, que eu já logo entoava: “Touch me now…I close my eyes….and dream away“, do Roxette. Os amigos enlouqueciam, eu não conseguia parar. Tenho uma amiga que diz que o silêncio é aterrorizante pois “Lua de Cristal” inteira vem na cabeça dela. Pasmem!
Oliver Sacks é um neurologista e escritor que conheci através de um livro chamado “Enxaqueca”. Adquiri pois sofro desde os 5 anos uma espécie de pontada na cabeça, já fiz ressonância, tomografia, estou bem. Não há ouriço no meu cérebro, mas volta e meia (vira&mexe) sinto do nada como se alguém enfiasse uma faca na minha cabeça. Dura uns dois segundos, eu urro de dor e depois não há sequelas, nem memória dessa dor, é como se eu nem tivesse sentido. Já tive isso dirigindo, cantando, fazendo nada, em lugar frio, em lugar quente, não tem estatística ou coincidência. Lendo “Enxaqueca” percebi que não era a única no mundo, óbvio. Não era possível. Mas não tem cura, posso me dopar com algum tarja-preta mas eu me recuso, sempre me recusei. Os relatos do neurologista eram intrigantes e logo depois li “Alucinações Musicais”, e aí foi mais porradinha. Histórias como a do médico norte-americano que após ser atingido por um raio cisma em aprender a tocar piano. Ele não entende porquê, mas começa a fazer aulas e é bom nisso. Vira pianista. Tudo por conta de uma pancada elétrica na cabeça. Que mistério. Que coisa mais fundo do mar, o cérebro. Eu fico bolada.
Mas o que mais me chamou atenção foi a parte das músicas que não saem da cabeça. Pessoas que se matam porque não conseguem parar de pensar numa música. Casos de seres que não tiram certa canção da mente há mais de dois anos. Tá bom pra você? Dois anos com Roxette ou Lua de Cristal na cachola? 
Só se decora uma música, de tanto que você a ouve. E qual o momento que você desiste dela?
Abandona de levinho, não é que você a odeie, mas já deu, já foi, já gastou, já serviu. Geralmente ouvimos música quando queremos nos conectar ou desconectar. A música como perturbação também pode ser uma opção. Têm dias que eu opto ouvir Maria Callas, sabendo do meu desconforto, sabendo que vai doer, mas opto. Mas quando a força é involuntária é de enlouquecer mesmo. Posso estar tomando um banho e de repente, como se eu sofresse algum retardo, falo em voz alta: “Joelhinho, cabeça, joelhinho, cabeça, joelhinho, cabeça, joelhinho”, que é algum axé de alguma banda que nem quero procurar no Google agora tamanho medo de passar a noite falando isso. 
Arthur e eu tivemos uma fase “Meia lua inteira”, do Caetano. Tudo era motivo para falarmos “o verdadeiro rá rá rá”. Parece fofo e divertido e piada interna de amigos, mas teve uma hora que beirou o descontrole. O pior é que só consigo parar com uma mania musical substituindo-a por outra. Não chego a ouvir vozes na madrugada, nem sou martelada por músicas em sonho (isso seria um pesadelo, a não ser que alguma Yesterday baixasse inteira pra mim ineditamente tal qual foi com Paul).
Música tem um poder de movimento muito forte. Te transporta para o útero ou para o núcleo da Terra. E aí esbarramos em gostos e isso lasca tudo mais ainda. Lembro de um passeio de barco que fiz, tudo que eu queria ouvir era o mar, mas o grupo que tinha alugado o barco comigo queria ouvir alguma música que não me emocionava, tal qual o mar (nem vou dizer uma música ruim, porque esse terreno é tão além desse termo, que nem dá). Simplesmente aquela música não me emocionava dentro de uma gruta. Se eu sugerisse Sigur Rós, capaz até d’eu conseguir alguns aliados para o meu time, e capaz de outros me olharem como se eu fosse uma freak. Nesse dia eu fui ferida. A música soava e era como um canivetinho raspando minha pele lentamente, só que várias vezes até chegar nas minhas veias. Capaz d’eu dar um dedo do pé pelo silêncio naquele passeio. Foi dolorido mesmo.
Com meus irmãos também havia uma batalha de sons, e não sei como, mas meus pais fizeram 3 seres muito diferentes um do outro, de modo que na juventude, essa época insana de trocentas descobertas (ainda mais pra quem viu o Napster nascer), cada um ligava o seu som. Confesso que descobri e gostei de Cypress Hill e umas lado B do Zezé Di Camargo e Luciano por conta deles, mas rolavam tardes para irritar de propósito que eu jurava que teria uma convulsão se meu irmão colocasse de novo Racionais MCs. Eu não conseguia sublimar, como um canal de TV chato que seu pai te obriga a ver, afinal ele comprou a TV. Com música não consigo ter esse poder. Cutuca muito forte em mim. Quando eu colocava Janis Joplin nas alturas, minha mãe me perguntava se a cantora estava passando bem, e juro que não entendia como ela não conseguia entender toda dor e genialidade da Janis. E quando eu ia lavar a louça e me pegava dizendo em voz alta: “Aqui estou mais um dia”, eu grunhia de ódio do meu irmão. Tinha sido infectada sonoramente.
Acho que melhorei, mas na verdade não. Porque ouço no táxi uma música estranha e já salto do carro cantarolando. A kombi passa com um reggae nas alturas e até hoje, universo, até hoje me olho no espelho e lembro da melodia reggae daquela kombi “eu quero viver numa horta…”. Ainda tenho muito que aprender com esse caos sonoro. Não absorver tanto. Não prestar tanta atenção, não me afetar tanto. Quando tento pensar em nada, acabo pensando em música, sempre. Mas cineastas devem pensar em frases de cinema, bancários em estatísticas, cozinheiros em receitas, arquitetos em plantas. Será? Ou deliro? Me falta yoga pra pensar em nada quando realmente quero pensar em nada. E me sobra música. 
Se eu te falar “Não pensa em nada”, você consegue?

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 05/06/2014 por em Letícia Novaes.
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