ORNITORRINCO

VAI TER COPA, PARECE

Não entendo nada de futebol. Começo logo assim para me livrar do compromisso de escrever com inteligência sobre o assunto. Sou baiano e frequentemente sou indagado com a máxima “Tu é Bahia ou Vitória, mermão?”, pois quando estou de mau humor respondo curto e grosso que não gosto de futebol, mas quando estou de bom humor digo que sou Bahia, embora não saiba nada do histórico do time, nem quem é seu técnico nem o melhor jogador, nem qual a sua posição no campeonato, nem quando foi o último ou será o próximo jogo, apenas respondo Bahia porque é considerado o time popular das multidões, e eu torço pela vitória do povo.

Na escola eu era obrigado a jogar futebol nas aulas de Educação Física. Muitas vezes matava essa aula com meu amigo Moisés (que renegava o futebol mais do que eu) e andávamos pelo pátio conversando sobre livros e filmes e História. Isso pode soar cult (ou hipster) hoje, como se eu estivesse fazendo gênero, só que na época não participar das disputas futebolísticas era uma vergonha social, um ponto negativo no jogo das conquistas femininas. Quando não matava aula e ia jogar eu era sempre o último a ser escolhido na hora da divisão dos times, ficava ali sobrando na quadra esperando cair em um dos grupos (mais um ponto negativo). Minha posição era sempre a de zagueiro (ponto negativo, ao total: -3), que sabemos que é uma função importantíssima na vitória do jogo, mas na adolescência o bacana mesmo era partir pro campo adversário pra marcar gol. Claro, eu era um péssimo zagueiro, qualquer atacante com o mínimo de destreza conseguia me ultrapassar.

Entretanto, quando eu estava inspirado, decidia em um rompante sair da solidão a que os zagueiros está destinada e lá ia eu avançando com o time para a área de ataque, tentando me posicionar para receber a bola e marcar minha participação no placar do jogo.

Foram três. Três gols que eu fiz em toda a minha vida de jogador de futebol na escola. Três gols que comemorei como se cada um fosse os 1.000 gols de Pelé – então pelas minhas contas foram 3.000 gols. Meu time comemorava surpreso o momento inesperado com que por reflexo eu metia a perna na bola que estava indo pra fora, sendo assim rebatida pra dentro do Gol, deixando o goleiro sem reação. O time adversário costumava rir do raro acontecimento, de tão extraordinário que era, bem possível que eles mesmos tenham sentido vontade de comemorar.

Todo mundo sabe – e o Mundo todo sabe – que dentro de poucos dias terá início a Copa do Mundo no Brasil. O que nunca foi um motivo de expectativa pra mim – sério, estava me lixando pra isso – graças ao espírito das manifestações no país, acredito que essa vai ser a Copa mais impressionante de todas. Única, para dizer em uma palavra. Meu coração palpita, meu espírito patriota fica alerta, minha atenção se afia, minha fé e torcida anseiam: o Brasil vai ganhar. E não digo nos campos verdes dos estádios caríssimos que podem desabar ao primeiro Gol, estou me referindo à minha expectativa de que as manifestações ganhem mais corpo, força, fortaleza, contundência, que faça parte das transmissões internacionais esportivas e políticas. Estou presente desde as primeiras passeatas de junho de 2013 contra o aumento das passagens de ônibus e que depois fez coro e refrão reclamando da má administração política das obras da Copa, e depois contra a violência da polícia, a impunidade da justiça, a péssima qualidade da educação, o salário dos professores, as condições da saúde pública, a inércia de anos e anos de ineficiência do governo.

Foi importante e foi confuso. Vivemos um momento paradoxal que também foi preenchido por pessoas que saiam às ruas sem saber por que protestavam. Muitos manifestantes agiam como os alvos de seus ataques, reivindicando mudanças sem perceberem que estavam sendo parte da engrenagem. Mas tudo isso colaborou para que a população resgatasse a noção de seus direitos e deveres. A Copa do Mundo da FIFA serve como holofote, transforma nossa revolta nacional em momento histórico onde todas as lentes estarão voltadas para os acontecimentos diários do país e onde qualquer ação terá grandes repercussões.

A questão não é mais se vai ou não vai ter Copa. Pra mim ela já está acontecendo desde junho. Ou como meu amigo, o poeta Pedro Rocha, prevê: a Copa vai começar, mas não vai terminar.

Desculpa atrapalhar a festa dos que vibram na sala de TV a cada propaganda incentivando os espectadores à torcida, essa mesma televisão que tentou afastar os espectadores das ruas, mas há outra Copa a se ganhar. Necessário entender que há prioridades, que educação, saúde e moradia são primordiais e que reivindicar esses direitos não é um crime. É uma lógica simples: se as necessidades básicas não estiverem supridas, a diversão não pode ser plenamente sentida. Queremos ver o time entrar em campo, mas quem paga os preços altíssimos para assistir os jogos no estádio? Foram 25,6 bilhões de reais gastos em obras para o torneio, entre obras de estádios e infra-estrutura, deste valor, 83,6% saíram dos cofres públicos. Quanto foi para a saúde, educação, moradia? Queremos ver o capitão levantando a taça, mas também queremos transporte público, ciclovias, segurança. Seria ótimo se a seleção brasileira fosse campeã, mas seria melhor ainda se pudéssemos pagar a conta de luz, o aluguel do apartamento, a conta no restaurante, o plano de saúde. Como entrar em campo com toda essa agonia?

A participação política, os debates, formam cidadãos conscientes capazes de ações transformadoras da realidade. É um gol que vale por mil. Era isso que eu e Moisés conversávamos durante as aulas de Educação Física. Ok, não exatamente isso, porque seria impossível de se prever, mas olhando agora para o passado parece que nos preparávamos para este momento. Atravessei aqueles modorrentos anos 90 e início dos 2000 desolado por sentir a falta do engajamento político no Brasil. Nada como estar vivo e lúcido e acordado nesses tempos de agora. Atenção, os próximos lances serão imperdíveis.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Publicado em 04/06/2014 por em Gabriel Pardal.
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