ORNITORRINCO

A IRONIA FRACASSOU, NÓS FRACASSAMOS

Tenho pensado muito em como a ironia é amplamente usada e raramente compreendida. Um caso recente expõe nossa confusão diante da ironia. A escritora Veronica Stigger encarnou Gustavo Flaubert e escreveu um conto à moda do Dicionário de Ideias Feitas, do autor francês. O texto, publicado na revista Água de Palavra, é composto de frases geralmente usadas pela imprensa para estereotipar o escritor contemporâneo. Frases como essas:

“Age em bando. A maioria é gaúcho. Só lê e elogia os amigos. É vidrado numa tradução. Se possível, para o inglês, mas servem línguas exóticas, como o sérvio ou o romeno. Puxa o saco de editores e críticos. Escreve com desleixo e sobre o próprio umbigo. Bebe e se droga para escrever. Não tem política, nem estética. Não se importa com a investigação da alma humana e das sombras do inconsciente. Faz pose de marginal, mas usa camiseta Adidas e tênis Nike. É nojento e narcisista. Está convicto de que escrever é uma tarefa mais nobre do que realizar um transplante cardíaco.”

Alguns escritores vestiram a carapuça. Tomaram como ofensa. Retrucaram. A isso, Veronica respondeu: foi uma ironia. Eduardo Sterzi, outro escritor, saiu em defesa de Veronica e creditou a incompreensão ao “esvaziamento do sentido da ironia”. A intenção do conto é, desta forma, zombar de quem o aplaude como sendo um grito contra o status quo literário.

Antes deste texto, um outro ressuscitou o debate sobre a ironia. Antonio Prata, um escritor meio intelectual, meio de esquerda, publicou na Folha de S.Paulo uma crônica em que deixava claro: havia se tornado um direitista.

“Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário. E quem há de negar que é preciso reagir? Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie.”

Manifestações de apoio a suas ideias não faltaram. Prata foi elogiadíssimo pela direita — a mesma direita da qual zombou no decorrer do texto. Para dar cabo à confusão, Prata teve de se explicar (o que é inconcebível para a ironia). No Painel do Leitor, da Folha de S.Paulo, escreveu:

“Aos leitores que não entenderam minha crônica ‘Guinada à direita’: sim, eu estava sendo irônico. A intenção, ao criar tal persona retrógrada, racista, machista e homofóbica, era apontar tais preconceitos em nossa sociedade. Parece que funcionou, pois a maioria dos e-mails equivocados que recebi me parabenizava pela ‘coragem’ de ‘assumir’ essas deprimentes opiniões.”

De maneira simplista, e valendo-me do pensamento de Søren Kierkegaard, que discorreu brilhantemente sobre o assunto, a ironia é dizer sério o que se pensa rindo. É um mal-entendido por natureza. Apresenta-se no momento em que a palavra opõe-se à ideia. É uma ferramenta potente e, como tal, deve ser usada com parcimônia.

O problema é que esta parcimônia não existe atualmente. A ironia, de fato, tem esvaziado a si mesma e, em segundo plano, os discursos de uma forma geral. Imagino algumas teorias para isso.

Uma delas é esta certa preguiça na argumentação em oposição à necessidade de parecer elevado intelectualmente. Em miúdos, é querer passar uma mensagem, mas evitar uma demonstração de ignorância. Outra teoria é a incapacidade recente de olhar ao redor e ver contexto, o que torna a mensagem isolada, sem margem para elementos complementares que possam levar a outras leituras possíveis. A terceira tem a ver com segregação: o uso ostensivo da ironia busca incutir uma espécie de elevação intelectual — alguns entendem a ironia, outros não, e assim os primeiros são mais espertos que os segundos.

Há algo em comum a todas as teorias: a ironia é, hoje, um escudo contra a crítica. Tal ideia foi abordada por Christy Wampole, em ensaio publicado na Serrote tempos atrás. Segundo a autora, quem utiliza a ironia “já reconhece, preventivamente, o próprio fracasso em produzir algo com sentido. Nenhum ataque pode ser feito contra ela, pois ela própria já se mostrou vencida”.

A ironia será salva quando deixar de ser tal escudo. Para isso, precisamos aprender a não ter medo de críticas. E aceitar melhor as falhas, tanto nossas quanto dos outros.

Rodolfo Viana é jornalista e criador da Revista Benedito. 
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Publicado em 04/06/2014 por em Rodolfo Viana.
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