ORNITORRINCO

UM ATÉ LOGO AO PAI DO MDMA SASHA SHULGIN

Nas próximas horas ou dias o mundo vai se despedir de Alexander Shulgin, ou Sasha para os íntimos. O nome pode não ser muito famoso, mas muita gente mundo a fora é feliz por causa dele. Sasha é um super químico e se o mundo não fosse tão careta ele poderia ter ganhado o Nobel quando sintetizou o MDMA. Americano de Berkleey, California, ele é o inventor do MDMA, do ecstasy e de um montão de outras substâncias alucinógenas. Conheci o homem através de uma excelente reportagem do Bruno Torturra em 2009, comprei sua autobiografia que ganhou lugar de destaque na minha estante junto das “Confissões de um comedor de ópio”, de Thomas De Quincey, dos “Paraísos artificiais”, de Charles Baudelaire, e das “Portas da percepção”, de Aldous Huxley. “Pihkal (Phennethylamines I Have Know and Loved) A chemical love story” é um livraço sem tradução no Brasil ainda. O brilhantismo começa pelo nome que remete a uma sonoridade de antiga cidade Maia guatemalteca, onde poderíamos entrar em contato com o além através do Peyot, mas na verdade é uma sigla, uma senha para entrar no seu laboratório químico de mil maravilhas.

A cara de cientista maluco não é só pose, sua paixão pelos estados de consciência alterada o levou a fazer loucuras que hoje fazem muito por todos nós. Sua autobiografia começa com sua primeira e reveladora experiência com as drogas, durante o último ano da Segunda Guerra Mundial, quando serviu na marinha americana. Sasha nunca se envolveu em uma batalha, pois teve uma estranha e dolorosa infecção óssea no polegar da mão esquerda que o fez ser submetido a um intenso tratamento com morfina até ser levado para a Inglaterra onde acabou sendo tratado, por todos da pequena cidade de Watertown, como um herói de guerra. Com o fim dos conflitos retoma seus estudos e tem um encontro mágico com a mescalina. Depois de suas experiências com a morfina, o Mescal faz Shulgin entender que “todo nosso universo está contido em nossa mente e espírito. Podemos escolher não ter acesso a isso, podemos até negar sua existência, mas isso está lá dentro de nós, e há certas substâncias químicas que catalisam nosso acesso a tudo isso”.

Sasha em seu laboratório e comprimidos de MDMA.

Nos anos 50 Sasha foi trabalhar na Dole Chemical Company e rapidamente desenvolveu e sintetizou um lucrativo inseticida de sucesso no mercado. Foi assim autorizado a montar um laboratório para pesquisar o que quisesse. Essa é a dor e a delícia de ser Americano. Obviamente montou um espaço para pesquisar drogas psicodélicas. Num laboratório que mais parecia um aquário testava substâncias psicoativas em lindos peixinhos Beta. Os bichinhos ficavam doidões e nadavam pra trás, de cabeça pra baixo, numa pesquisa que não ia a lugar nenhum até a entrada de um simpático e conservador químico chamado Burt. Numa tarde despretensiosa de trabalho, Burt pesou uma quantidade de um material branco que julgava ser uma espécie de alga ressecada para alimentar os peixes. “Um pouco amargo”, disse ele a Sasha ao entregar os miligramas pesados. Burt tinha acabado de dar uma lambida numa colher com restos de puro LSD concentrado. “This should damned well be a fascinating day” disse Shulgin ao amigo virgem no uso de drogas. Durante o resto do dia os dois caminharam juntos pelo complexo da empresa com a risada de Burt ecoando por todos os cantos. Para ele os funcionários de jaleco eram todos Oompa Loompas e os enormes canos dos containers de químicos eram tubos que levavam um forte aroma de chocolate para toda a fantástica fábrica. Uma tarde e algumas gramas de LSD num ser humano renderam mais do que meses de pesquisa em peixes de aquário. Ali o cientista havia descoberto o caminho para saber tudo o que precisava sobre drogas psicodélicas, a experiência em seres humanos.

Como contratar gente para ser cobaia não era uma opção muito ética, Sasha, no maior estilo Bruce Banner (o Hulk), resolveu testar as drogas em si mesmo. Durante quase 50 anos ele e sua mulher, Ann Shulgin, comandaram um grupo multidisciplinar de provadores de drogas. Sasha era sempre a primeira cobaia e, depois de aumentar gradativamente a quantidade até níveis seguros, chamava os amigos para a sessão coletiva. Psiquiatras, músicos, psicanalistas, químicos, artistas, muita gente fez parte dessas sessões que seguiam regras preestabelecidas e eram registradas em áudio e em texto. Uma das regras era a de levantar a mão para falar de algo que alguém achasse que realmente estava acontecendo fora de seu universo interior. Se alguém sentisse cheiro de queimado, por exemplo, levantar a mão era a senha para que toda a galera, já muito doidona, fosse ver se algo não estava realmente pegando fogo.

A pesquisa do casal Shulgin seguiu por muitos e muitos anos sem nenhum tipo de dano a saúde de nenhum dos que participaram do processo. Sasha é categórico ao afirmar que as drogas psicodélicas não viciam. Sua pesquisa obteve incríveis resultados, mais de 230 componentes psicoativos foram sintetizados, além de ser fundamental para vários medicamentos que hoje são utilizados para tratamento de depressão e desordem depressiva pós-traumática. Mas saindo do campo da eficiência dos resultados o que é mais apaixonante na sua vida é a busca pelo autoconhecimento através de estados alterados de consciência. Por isso ele é um defensor da legalização de todas as drogas, da educação farmacológica, para que saibamos como utilizar e tirar dessas substâncias o que de melhor elas podem nos proporcionar. Uma pesquisa ligada ao conhecimento científico e ao prazer, uma combinação que vi em pouquíssimos cientistas.

Como conhecedor da história das drogas Sasha ainda conta em seu livro como a proibição das substâncias químicas está invariavelmente ligada a questões políticas ou religiosas. O peyot e o mezcal foram proibidos nos EUA por serem considerados a causa de assassinatos e crimes violentos praticados pelos índios que, segundo alguns pastores, quando sob influência dessas substâncias, não conseguiam ser beneficiados pela palavra de Deus. Nos anos 1930 outra substância foi proibida ao ser relacionada aos imigrantes mexicanos que eram preguiçosos e sujos por usarem a perigosa Marijuana. Para completar todo histórico de intolerância com os negros nos EUA foi solapado por histórias violentas envolvendo o uso de heroína e maconha por músicos negros. A autobiografia lisérgica ainda sofre ameaças de censura nos EUA por ser considerado um compêndio para a produção de substâncias ilegais. De fato, ao fim do livro, você encontra todas as instruções para sintetizar centenas de drogas, mas é preciso bem mais do que um kit Meu Pequeno Químico para fazer isso.

A história de amor química de Alexander Shulgin e Ann Shulgin é uma história de pesquisa, prazer e luta política. O mundo vai sentir falta de um cientista maluco como ele, que vai se despedindo de nós, por conta de um câncer no fígado, quase aos 89 anos de idade, com todo o cuidado e o carinho de familiares e amigos, numa passagem sem dor com a ajuda de muitas das substâncias que ele mesmo criou. Que as portas da percepção se abram com amor para você, Mr. Shulgin.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 02/06/2014 por em Domingos Guimaraens.
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