ORNITORRINCO

RICHARD SERRA – A ARTE COMO MARRA

Esta semana saí à tarde para caminhar pela Glória. Comecei o passeio na Praça Paris, aquele jardim cercado no início do Aterro do Flamengo. A praça recebe a mostra de esculturas supostamente monumentais, uma série de objetos grandes de vários artistas distribuídas homogeneamente pelo jardim como uma coletiva de artistas que poderia acontecer no interior de qualquer instituição. Mesmos as esculturas mais interessantes como a pedra com asas de Pedro Paulo Domingues ou o barco encalhado de Mercedes Lachmann ficam despotencializados pela sequência de objetos.

Segui andando rápido em direção ao Teatro Manchete onde eu iria assistir a uma palestra do artista Richard Serra. Parei junto ao chafariz da Praça do Russel paralisado por uma imagem. Não falo da escultura de São Sebastião crivado, muito menos da cabeça de Getúlio Vargas. O que me fez parar sem fôlego de êxtase estético foi uma garça pousada no espelho d’água com um rato morto no bico. Um rato cinza pendurado pela para dianteira pendia mole ao sabor dos suaves movimentos da garça.

Na porta do teatro nova aparição, um senhor de cabelo e pele muito branca, vestido todo de preto atravessa a rua com a leveza da garça e o peso de rato morto no olhar. Era Richard Serra. Não falei com ele nem ele olhou para mim. Ainda era cedo e tive de esperar por uma hora para entrar no teatro monumental da antiga TV Manchete junto com uma pequena multidão, entre personalidades da arte e estudantes, que lotou todas as cadeiras. O jornal anunciara um dos maiores artistas do século XX. O apresentador do evento foi mais modesto e chamou ao palco um dos artistas mais destacados de sua geração nos Estados Unidos.

Se seguiu uma conversa entre Serra e o critico de arquitetura Michael Kimmelman que tentava levantar questões ligadas a arquitetura, urbanismo, interação urbana. Serra falava o que queria. Contou da juventude junto a outros artistas em Nova York nos idos dos 60 quando ainda não sabia o que queria, mas já sabia o que não queria. Não queria pedestal, nem representação. Nem moldes, nem argila, nem qualquer outra coisa que lembrasse uma escultura convencional. De tanto não querer, um dia como que por casualidade visita uma fundição perto de sua casa e começa a usar chumbo derretido que joga contra a quina entre a parede e o piso para tirar a forma do lugar. Para ele era uma arte baseada no processo ou na atitude. No jogar do metal. Logo Serra vai se especializar em um pequeno repertório de atitudes que repetiu por toda vida. Com placas e curvas de aço com dezenas de metros e centenas de toneladas colocadas sobre o espaço público. Nos anos 70 e 80 essa atitude soava mesmo agressiva. Num misto de orgulho e revolta conta que uma de suas obras, o Tilted Arc, foi destruída pelo estado depois de ter sido financiada pelo próprio governo americano. Na verdade a placa de aço foi partida em 3 partes e está guardada em um depósito pelo governo que tentou instalá-la em outro lugar. A marra e a o argumento de Serra é que era um site specific, então o único lugar que pode estar é o lugar específico para o qual foi projetada. Fora de lá a peca está inevitavelmente destruída. A peça, um enorme muro em arco que dividia uma praça em NY, foi alvo de um processo por parte de um juiz da corte que ficava do outro lado da praça e acabou sendo removida depois de ficar 8 anos exposta.

Desenhos de Richard Serra

Em sua defesa Serra diz que 80% da arte na rua por todo o mundo com ou sem pedestal é de qualidade duvidosa. O que depois do breve passeio entre a Praça Paris e o cabeção de Getúlio, sou forçado a concordar. E mostrou outras imagens. Como de uma obra em uma praça na Suíça que seria temporária. A prefeitura fez uma votação entre os frequentadores. E desta vez Serra ganhou e a peça está lá até hoje. Ou de uma bela praça em Barcelona desenhada por ele que além de dois enormes muros planejou também uma torre de iluminação, uma área de árvores e bancos para os idosos e uma quadra de futebol para os jovens. Este trabalho é amado pelas centenas de pessoas que a frequentam. Porém Serra diz “Perdi dois anos neste projeto. Ficaram todos muito contentes. Mas como escultura não me satisfaz totalmente.” Algo da atitude se perdeu. Para ele arte por definição tem de ser inútil. Tem de desafiar quem se encontra com ela. Ele frisa que não tem nada contra quem faz arte para agradar. Mas ele não quer agradar ninguém. Se gostam ou não não é problema dele.

Essa marra que ele tem aos poucos foi sendo absorvida e faz dele um artista popular que tem obras encomendadas por prefeituras para revitalizar uma área urbana por exemplo. Obras que são usadas pelos planos urbanísticos para valorizar a paisagem. Uso que contraria totalmente a vontade de Serra que fez questão de dizer que recusou colocar uma peça no fim de Copacabana porque seria apenas uma obra de cartão postal, não entraria em embate.

Senhor de 75 anos, diz não se importar com a população que convive com as obras. Se se importa se elas são pixadas? “Eu entendo a revolta do pixador, a vontade de colocar sua marca em um lugar onde passou, então não me agride. O que faço é colocar um verniz que permita que a peça seja limpa depois”. Ele acha curioso que os mais jovens gostem de suas obras. Se entre as pessoas da sua geração a maioria não recebe bem quando coloca uma de suas obras atrapalhando o caminho, os mais novos foram se acostumando e incorporam suas pecas na paisagem afetiva da cidade. E amam o velhinho. Mesmo com toda marra.

Para terminar perguntei o que ele acha da Copa. Pensando na relação da cidade, nas transformações da paisagem, etc. Serra respondeu apenas “estou feliz que não estarei por aqui”.

Serra não é certamente um artista do sutil, mas do peso. Pode ser chamado de bruto, como os desenhos que mostra este mês no Instituto Moreira Salles. Ele até gostaria desta alcunha de duro, mas tem esta sensibilidade para o espaço e não faz concessões. Tirar as paredes falsas do IMS permitindo que a casa de vidro volte a existir já é em si um lindo trabalho de arte.

Para mim Serra é essa marra, essa atitude. Como a da garça carregando o rato pelo bico. Ela vai contra o clichê da garça branca e pura, mas não deixará nunca de ser uma garça apreciada pela beleza. E o rato? Bem, Serra é integro com sua vontade de desafiar. Se for preciso, fará como o carcará. Pega, mata e come.

serviço:
Richard Serra: desenhos na casa da Gávea
de 30 de maio a 28 de setembro
Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500
De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca – Classificação livre

Mostra Rio de Esculturas Monumentais. A visitação é diária, das 6h às 22h. A Praça Paris fica Avenida Augusto Severo, 272, Glória. Entrada Gratuita.

Juca Amélio é curador e crítico de arte.
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Publicado em 02/06/2014 por em Juca Amélio.
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