ORNITORRINCO

CINCO PASSADOS EM MUITAS PASSADAS

Eram meados do segundo semestre de 2009 quando eu comecei a treinar seriamente para correr minha primeira meia-maratona. Por seriamente, leia-se seriamente mesmo. Alimentação disciplinadamente balanceada, fortalecimento muscular e corridas diárias. Nessa época, eu estava bem próximo de uns amigos modelos e esses caras, por ganharem a vida com suas próprias imagens, colocam alimentação e atividades físicas à frente de tudo, o que fui reconhecendo aos poucos como uma forma bonita e respeitosa de se relacionar com a natureza, afinal de contas a atividade física amadora pode e deve ser encarada como um mantra. Colocar o corpo em relação de troca com o espaço natural é também uma forma de oração.

Era verão e era a hora do almoço. Acredito que algum número ímpar entre 12:00 e 14:00. Eu e um amigo saímos da Praia da Macumba, no bairro do Recreio no Rio de Janeiro, e seguimos de moto em direção a um supermercado que ficava a poucos quilômetros dali, numa região que não se sabe bem se ainda é Barra ou se já é Recreio. Compramos um peixe desses bons de fazer na churrasqueira e outras coisas para o almoço, entre elas uma garrafa dois litros de Fanta laranja. Quando voltávamos para casa, já na Estrada do Pontal, um motorista irresponsável nos fechou e a pequena Biz acertou em cheio a lateral da clandestina van. Eu estava na garupa e, por motivos físicos que não farei o esforço de explicar agora, todo o meu peso foi multiplicado por algum número cheio de vírgulas e projetado sobre o corpo desse amigo, o que acabou acarretando, para ele, em seis costelas quebradas, e, para mim, em leves escoriações, além de uma pancada forte em um dos joelhos. Da garrafa de Fanta rolando sobre o asfalto quente em diante, o joelho lesionado no acidente respondeu negativamente à todas as minhas tentativas de correr longas distâncias por quatro longos anos. Com o passar do tempo, a decepção – sempre ela! – moveu meu foco até o momento em que desisti da prática da corrida, o running.

Era dia 16 de abril de 2007, eu tinha dezoito anos, onze meses e três semanas. Saí de Botucatu, no estado de São Paulo, carregando uma mochila grande nas costas e um colchão inflável debaixo do braço, com o intuito de morar na cidade maravilhosa. Na rodoviária Novo Rio cheguei pela manhã, sem saber onde passaria a noite, mas com algum dinheiro na conta para ir a algum hotel caso se fizesse necessário. Em poucas horas, antes mesmo do horário de almoço, consegui alugar uma kitnet em Jacarepaguá pela qual me eram cobrados duzentos e cinquenta reais por mês. Do dia 16 de abril de 2007 ao dia de hoje, precisei muitas vezes reafirmar a minha escolha, essa de viver aqui, longe da família, dos amigos, das memórias de infância, do céu estrelado da cidade dos bons ares. Dos R$ 250,00 na Taquara 2007 aos R$ 3.400,00 em Botafogo 2014, precisei diariamente reafirmar essa escolha.

Era o início do ano corrente quando decidi voltar a correr e, principalmente, voltar a treinar seriamente para uma prova de longa distância. Não me lembro exatamente como isso aconteceu mas posso dizer que o medo do joelho esquerdo doer nos primeiros minutos já não me atormentava mais. Voltar a correr foi a forma que encontrei de friccionar o meu corpo com a cidade. Esse corpo que como artista não paga as próprias contas e que como qualquer outra coisa não é feliz. Esse corpo que voltou de Santiago do Chile indisposto e indigesto com as terríveis e surrealmente caras esquinas cariocas. Rasgar a cidade com meu próprio corpo voltou a ser um projeto sério.

Era hoje e a Amanda, minha namorada, estava rascunhando umas ideias sobre uma performance que ela quer fazer a partir de um assalto que ela sofreu no final do ano passado e sobre o qual ela precisou depôr há poucos dias. Manhã chuvosa, levemente gelada. Começamos a falar sobre as possibilidades de alcance e efetividade da ação e, como todo bom assunto relacionado à arte e à experiência urbana, isso me prendeu por algum tempo no sofá de casa, adiando em algumas horas o meu “treinão de domingo”. No final do papo, chegamos ao conceito de “desterrorização de um espaço e/ou uma memória”, definição que encontramos para a experiência de transformar concretamente uma memória espacial terrível em outra imagem, melhor. Então, coloquei meu fone nos ouvidos e saí para correr, feliz com a performance da Amanda, mas desconfiado de mim, da cidade e do tempo. Afinal de contas, era domingo, era a preguiça, era a chuva, e o Rio 40º não combina muito com esse quadro. Difíceis como sempre, os primeiros quilômetros ficaram para trás e, aos poucos, sem sol, sem paisagem, sem a identidade da cidade maravilhosa a brilhar nas pupilas, o equipamento corporal engrenou, as dores nas solas dos pés passaram e, quatro meses depois de ter retomado os treinamentos ou quatro anos e meio depois do acidente, completei, lágrimas nos olhos, 23KM de uma enorme cicatriz – metade na minha pele, a outra metade na pele da cidade.

Alonso Zerbinato é ator, estudante de direção teatral e atleta amador.

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Publicado em 28/05/2014 por em Alonso Zerbinato.
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