ORNITORRINCO

A MONOGAMIA DOS GANSOS

Meu amor, a gente precisa conversar. Não quero terminar, nada assim tão sério. Eu queria conversar sobre o ganso do vizinho.

Outro dia eu estava andando perto do laguinho ali do vizinho e o idiota do ganso dele me atacou. Não, ele não estava protegendo a prole, a gansa dele morreu já tem um tempo e os filhos foram doados. Acho que ele não tem mais o que fazer e ataca todo mundo, não foi pessoal. Mesmo com aquela outra gansa linda que vive no lago com ele, o ganso é fiel pra vida, não se acasala de novo mesmo que o parceiro(a) esteja morto. Mas, meu amor, pensa bem: você não acha que talvez essa monogamia cega do ganso seja um pouco extrema?

A monogamia é quase sempre estúpida porque é seguida cegamente, estilo ganso. Estar exclusivamente com uma pessoa não deveria ser melhor ou pior do que optar estar com várias. É só uma escolha, e naturalmente, toda escolha traz consigo uma consequência. Então vejo que o que ocorre com uma caralhada de homens que traem a mulher na moita, é parecido com seguir a monogamia cegamente: mentir.

Vejo muita gente que já adota cegamente a monogamia como comportamento “naturalmente correto”, uma bela de uma mentira. Não há nada de natural na monogamia, se você olhar pra natureza esse tiro sai pela culatra legal.

Apenas 9% das espécies de mamíferos é socialmente monógama. Neste grupo dos mamíferos (que não inclui os gansos, ok?) um estudo de Cambridge diz que a monogamia surge quando as fêmeas se espalham por uma área muito ampla, logo, se o macho a abandona sua fêmea grávida em busca de outra, ele corre o risco de falhar e ainda deixar a sua atual vulnerável a outros machos.

Outro estudo da University College de Londres, associa a monogamia ao risco de infanticídio consequente do abandono do macho a sua prole, já que se outro macho chegar no pedaço, matando os filhos do coleguinha, ele antecipa o cio da fêmea e fica com ela.

Das duas formas, não tem muito a ver com o que a gente vive hoje, afinal não conheço muitos amigos que mataram filhos de outros machos, nem temos que andar 2000 km pra encontrar uma mulher solteira afim de acasalar.

Tantas pessoas simplesmante adotam a monogamia pros seus relacionamentos simplesmente porque já está pré-determinado como moralmente correto. Não vejo nada de incoerente em quem segue fielmente as interpretações dos dogmas dos livros sagrados optar pela monogamia, a questão é a contradição cega de 90% das pessoas que não seguem bosta nenhuma e querem dizer que a monogamia é o “correto”. “É monogamia porque tem que ser, porque sempre foi assim com meus pais, meus avós e bisavós”, mesmo que seu pai tivesse uma família paralela à sua, mesmo que seu avô fosse o maior comedor de prostitutas da Vila Mimosa, mesmo que talvez na sua relação atual e no estágio que ela se encontra o melhor a se adotar não seja a monogamia se os dois quiserem optar por seguir uma história juntos.

Não estou propondo que a poligamia seja a escolha perfeita. Tampouco um relacionamento aberto. Vivi um por pouco tempo e não foi legal pra mim, não me adequei. E o ponto é exatamente esse, adequação. O que se adequa para você e seu parceiro naquele momento e contexto de vida? Apenas uma escolha que não deveria sofrer julgamentos de valor e que deveria ser consciente, inteligente, calculada e aberta à discussão. Discussão essa que requer maturidade, sobriedade e clareza de pensamentos.

Pôr a monogamia em discussão é tabu demais ainda. Todas as vezes que tentei cogitar uma conversa sobre o assunto com minhas ex-namoradas a situação terminou mal. Deveria ter começado a conversa falando dos gansos, usar o início desse texto teria sido mais suave. As reações foram: desligarem na minha cara chorando; tentativas de provocação e invenção de falsos desejos pra tentar me agredir; términos e ameaças fake de suicídio. Afinal quem ama com A maiúsculo não pode nem pensar, nem conversar sobre a possibilidade de renegociar seu relacionamento e dar vazão aos seus desejos por outras pessoas. Melhor ser fatalista e terminar, ou mentir, ou usemos um eufemismo que me dizem que é mais adequado: omitir.

Nossas relações poderiam ser negociações entre dois seres distintos que optam por estarem juntos de uma forma única que se adequa aos dois, mas parece que são fórmulas pré-estabelecidas pra comandar gansos uniformes e programados. E então uma consequência é que vejo 99% dos homens traindo as mulheres e mentindo de forma desnecessariamente necessária. Vejo tantas relações falidas e hipócritas, mulheres que são na verdade meninas que querem ser as escolhidas do papai e não tem inteligência emocional pra nem ao menos conversar sobre o assunto, e homens que são adolescentes, aventureiros do proibido, com desejo desenfreado por fecundar o maior número de óvulos possível, às vezes numa demonstração boba do poder de macho fodedor, às vezes na falta de controle racional da cabeça de cima sobre a de baixo.

A monogamia social é um termo que se refere a seres que formam casais e criam seus filhotes, mas ainda tem “casos” extraconjugais. Portanto um marido que trai a esposa, ou uma esposa que trai o marido, com outra relação romântica e volta pro lar em tempo de colocar as crianças na cama seriam ambos considerados socialmente monógamos.

A parceria comprometida entre um homem e uma mulher evoluídos é para o bem-estar da prole de acordo com alguns sociólogos. Pensando por esse prisma uma coisa que é ótima pro bem-estar das crianças é ter pais que se dão nitidamente muito bem, que se entendem e estão satisfeitos em optar por aquele tipo de relação. 
Jane Lancaster, uma antropóloga americana da Universidade do Novo México, fala uma coisa nesse sentido interessante. Ela diz que as espécies humanas evoluíram para formar compromissos entre homens e mulheres com o propósito de cuidar das crianças, isso já é um laço. Só que esse laço pode se enquadrar em todo o tipo de padrões de casamento: poligamia, pais e mães solteiros, monogamia ou qualquer outro tipo, mesmo que seja a separação.

A alternativa mais saudável que um casal deveria tomar, poderia ser discutir a forma como vão lidar com possíveis desejos extra-conjugais, o que pode muito bem ser optar por não continuar em uma relação monogâmica. Seja lá o que decidirem, não faz sentido essa decisão ser unilateral e pré-estabelecida, afinal cada relação é singular, ou pelo menos deveria ser.

Também não estou sugerindo que o homem por sua herança genética cultural tenha mais “direito” de ser polígamo, mas como sou homem, e observador, fica evidente pra mim que sim, a maioria dos homens tem esse desejo forte, não sabe como lidar, pensa que realizá-lo é a única opção e é naturalmente conduzido a mentir. E essa mentira já se naturalizou de tal maneira automática e burra como se naturalizou a monogamia.

O ponto é que a naturalização de qualquer tipo de relação, como “certa” nunca tem algo de natural. Bem como achar que pular a cerca é algo bom ou inevitável, é tão natural quanto.

Animais, como nossos lindinhos gansos, muito provavelmente, não podem escolher agir contra o que quer que venha instintivamente. O ser humano pode. E esse é o ponto, você escolhe por você e sua capacidade de raciocínio? Ou já escolheram como deveria ser sua relação por você e você nem tinha se tocado?

Então, por isso que eu repito: A gente precisa conversar sobre os gansos.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 27/05/2014 por em Franco Fanti.
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