ORNITORRINCO

DIÁRIOS DE TAIWAN – CALIGRAFIA DOS TIJOLOS AMARELOS

De volta depois de quase duas semanas no extremo oriente tenho que concordar com a Dorothy: não há lugar como nosso lar. Por mais que conhecer Taiwan tenha sido uma experiência impactante e apaixonante, não há nada como sair do Galeão e sentir o perfume do manguezal da Ilha do Governador no caminho de casa.

O Oriente é o exotismo por excelência, mas de tanto esperarmos o diferente acabamos encontrando traços muito familiares no que parece tão distante. Somos todos humanos, demasiadamente humanos. Depois de quase duas semanas em Taiwan a piada de que o pessoal do olhinho puxado é tudo igual perde a graça, passamos a reconhecer a diferença dos rostos e cada um ganha a sua individualidade. Isso me lembrou um assalto a banco nos EUA nos anos 60. O assaltante não usava máscara, apenas cobriu todos os dentes com uma brilhante tinta prata, reluzente, e sorria sem parar. Sem câmeras na época a polícia se valia apenas do retrato falado do sujeito, mas ninguém se lembrava de nenhum detalhe a não ser os dentes prateados brilhantes. O olhar é uma linguagem, estamos alfabetizados a certo tipo de rosto, de expressão, no nosso dia-a-dia. Os olhos puxados são a exceção para o pessoal do Ocidente e leva um tempo para aprendermos a distinguir as diferenças.

Funciona assim com os ideogramas também. Depois de uma dezena de dias por lá já era possível reconhecer alguns desenhos e tentar formar uma frase que, invariavelmente, terminava numa colagem distante de qualquer sentido. Esse analfabetismo, pra alguém formado em Letras, é bastante angustiante e ao mesmo tempo fascinante. Quando o alfabeto fonético dá lugar ao ideograma temos que traduzir sons em imagens e imagens em sons numa operação de leitura que muda a sua concepção de mundo. A etimologia das palavras não está mais atrelada a seu radical latino ou grego e sim a seu desenho original. O sol e a lua foram pra mim exemplos simples de uma potente poética dessa escrita tão imagética.

Lua e Sol – Etimologia

Em suas primeiras aparições escritas (ou desenhadas) a lua e o sol surgem em formatos bem intuitivos, de fácil reconhecimento para qualquer um que já tenha visto esses dois astros. Com o avanço de descobertas astronômicas os desenhos ganham novos detalhes. A descoberta das montanhas lunares faz seu ideograma ganhar dois riscos centrais, já a descoberta das manchas solares faz aparecer um ponto no centro do sol. Com o passar do tempo, os chineses, por algum motivo, passaram a ver o sol nascer quadrado e o que era bem intuitivo e orgânico acaba tomando uma forma mais sistematizada dentro da caligrafia. Com a lua acontece o mesmo, mas seu ideograma mantêm uma certa curva original. A leitura poética dos ideogramas é um prato cheio pra qualquer poeta que flerta com a visualidade e um eclipse solar (日食) passa a ser o sol seguido do ideograma “comer”, assim como o lunar também é a lua sendo devorada (月食). Bem diferente do verbo ἐκλείπω (ekleípō), grego, que significa “deixar para trás”.

Além dessa poesia toda há muitos outros mistérios no oriente. Um deles é a certeza com a qual deixei Taiwan de que eles estão sempre escondendo alguma coisa da gente. Não é por maldade, talvez para manter esse certo ar enigmático da sabedoria oriental. Mas no fundo tudo me parece uma enorme falta de paciência. E não os culpo por isso. As colonizações inglesas, o domínio cultural americano, trouxeram para o oriente uma pá de gente que não tem a menor vontade de se relacionar com aqueles símbolos difíceis, querem mais é impor a sua língua. Fazer com que o outro fale a sua língua é um processo colonizador imperialista, mas não conhecer a língua do outro é deixar um espaço enorme para que se cavem muitas trincheiras de resistência. E é por isso que eles nunca contam tudo.

Letreiros em Taiwan

As traduções para o inglês que aparecem em placas de trânsito, no metrô, nas ruas, nos pontos de ônibus, são visivelmente menores do que seu original em Mandarim. Muito pela dificuldade de transpor uma língua tão visual, que trabalha num princípio de montagem cinematográfica, para uma língua que preza mais pela eficiência e sistemática. Mas há ali algo que eles só querem contar para quem realmente se dispor a se aventurar por aqueles códigos. Algo que poderia ser interpretado como uma certa arrogância, mas que depois de um tempo me pareceu um convite ao convívio das diferenças. É assim com os nomes. Todos os taiwaneses se apresentam com um nome ocidental. É preciso intimidade para chegar a seus nomes de batismo. A primeira desculpa que eles te dão é a dificuldade da pronúncia, mas ora, não é lá uma desculpa muito boa. Meu nome é Domingos e eu tinha vontade de adotar um nome chinês, pois o mais perto de Domingos que eles chegavam era Duo-min-guo, que me parece bem distante do meu nome original. Um nome que acabava soando poderoso porque continha em si a sonoridade do Ming, a mesma da poderosa dinastia chinesa. Nada disso tem a mínima relação com o meu nome, mas tudo certo, se é até aí que você pode chegar não tem problema, eu ando a outra parte do caminho e a gente se encontra em algum lugar comum.

É justamente esse caminhar duplo em direção ao outro que torna possível o encontro. Em Taiwan, todo mundo que encontrei estava disposto a dar esses passos, por mais que fizessem questão de te esconder alguma coisa nesse meio do caminho, isso te faz sentir em casa no mais distante dos planetas. Mesmo lá, naquela terra onde se sonha com ovelhas elétricas numa eterna cena de Blade Runner, com seu clima húmido, chuvoso, nublado, cheio de letreiros iluminados que você deseja um dia compreender.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 26/05/2014 por em Domingos Guimaraens.
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