ORNITORRINCO

A CULTURA DO OTÁRIO

Dia desses da vida questionei os palavrões: eles perderam o sentido de xingar. Ouvir um “filha da puta”, um “vai à merda” já foi algo forte, feria o alvo. Talvez falando de um jeito inesperado e adicionando alguma criatividade, tipo “Vai tomar no cú pra lá”, ainda dê pra atingir alguém. O fato é que nos acostumamos a ouvir eles seja por desconhecidos, no trabalho ou com amigos. Os meios de comunicação foram até lentos para absorver isso mas hoje a linguagem anda solta no mainstream. Do Porta dos Fundos às novelas da Globo, do Danilo Gentili à Eliana e principalmente a internet. Insensibilizô.

Do outro lado da rua, andando em direção oposta, vem a cultura do otário. Parece que nada ofende e machuca alguém de forma mais intensa do que ser otário, seja por indicação/maioria de votos/autopercepção. É a verdadeira angústia, nowadays. Engoliu todo o espaço dos palavrões e está aguardando o papa indicar que é pecado mortal. E é compreensível porque tem muitos conceitos que fortalecem. Do nacional “malandro” e “esperto” até os humanistas (?) “O vencedor/perdedor” e o próprio “ego”, passando pelo “bullying” e seguindo ao infinito.

Esqueceu o troco no restaurante?
-Otário.
Tava olhando pro outro lado no ponto e passou um ônibus?
-Otário.
O fulano chegou na mina que você tava de olho mas demorou porque tava inseguro?
-Otário.
Pagou mais no iphone?
-Classic otário.
Emprestou dinheiro e não te devolveram?
-Tsc, otário.
Falou merda na entrevista de emprego?
-Muuuito otário.
Não sabe o que é twerk?
-Otarinho, vai.
Ouviu um desaforo e não respondeu?
-PORRA, que otário! QUAL FOI?

Erros mínimos, mas a parada às vezes vai tomando proporções enormes, tipo:

Gaguejou (vale para qualquer assunto)?
-Otário.
Não falou o que eu estava pensando (que eu queria que você falasse)?
-Otário.
Não sabe qual persona vai encarnar agora que eu botei pressão?
-Otário.
Não tem carro?
-Otário.
Gordo?
-Otário.
Admitiu que errou?
-OTÁRIO-MÓR!!!!

Aliás, muitas “qualidades” solicitadas ao mercado de trabalho estão intimamente ligadas à expertise de fazer o outro de otário. Não me espantaria que em cursos de MBA estivesse literalmente a grade “cultura do otário”. Vimos bastante disso no famigerado “O Aprendiz”, parecia um jogo onde os problemas estão sempre nos outros, nunca no eu. Essa curiosa maneira infantil de lidar com tudo parece estar ganhando o mundo.

É exagero pensar na era do dedo na cara? Estamos brincando de batata quente e quem tem um raciocínio rápido, boa oratória e argumentos fortes não queima a mão. Além de firmar uma espécie de tribo especializada em agir assim, o que é péssimo, vejo uma insensibilidade forte para os outros. Tem sido cada vez mais difícil dialogar com pessoas sobre assuntos divergentes porque a partir do momento que sua opinião é entendida como oposta, a tendência geral é designar você como otário via sarcasmos.

Aos poucos, tenho visto essa tendência se tornar vigente em cada segmento e assunto da sociedade. A briga de políticos é baseada nisso. A briga de torcidas é calcada nisso. O beijinho no ombro tem essa coisa de otário no subtexto? Outro exemplo: não parece que as pessoas se vestem de acordo com a moda apenas para não serem tidas como otárias? Estou aqui abrangendo a conotação de otário ao que não quer ser criticado. Um terceiro exemplo, forte, é o desconhecido grosso, sei lá, do supermercado que empurrou ou resmungou. Alimentamos a raiva de que se algum desconhecido for estúpido temos que dar uma lição nele, afinal não posso ficar por baixo, é pior do que o pior xingamento ever. Claro que existem pessoas que podem repensar a atitude a partir de um susto derivado da sua reação. Mas e se o cara sofrer de um dor crônica, horrível e forte que mexe diretamente no humor? Sim, ele fez escolhas e não é isento de culpa, mas o cenário muda. Imagina a cabeça do cara azarado que ficou desempregado no período em que estava devendo todas as contas há dois meses, se ele estiver tratando as pessoas bem eu me surpreenderia.

O que me motiva a escrever esse texto somos nós. É o mundo que eu vivo. É pau, é pedra e o fim do caminho. Não to conseguindo mais. Tento ser indiferente. Tento não criar uma guerra, tento relevar. Tento ter mais paciência do que tenho, tento conviver. Tento não fazer mal. Eventualmente não consigo nada. Mas escolho ser otário as vezes, faço de propósito. Isso tira um pouco a graça alheia do espertão.

Você acha que sou otário por isso?

Philippe Lobo é músico.
* Imagem de capa: Wayne Toepp – Cell Still #3

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Publicado em 26/05/2014 por em Philippe Lobo.
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