ORNITORRINCO

O CÉU NOS PERTENCE – A HISTÓRIA DO VOO SEQUESTRADO EM 1972

Não lembro ao certo quando fiz minha primeira viagem de avião. Me arrisco a dizer que aconteceu lá pelos 7 ou 8 anos, ao lado de minha mãe e minha irmã, para conhecer São Paulo. Além do frio na barriga por ver aquele enorme trambolho com asas ser capaz de alçar voo, da excitação em ver lá de cima a minha cidade (Salvador) se transformar numa maquete gigantesca, lembro perfeitamente da sensação de pânico que me passou pela cabeça – graças a Hollywood – de ter ali a chance não desejada de viver um filme de ação caso estivesse eu a bordo de uma aeronave prestes a cair ou de ser sequestrada.

O maior culpado deste sentimento de aflição é “Passageiro 57”, filme de 1992 protagonizado por Wesley Snipes e que assisti tantas vezes no videocassete lá de casa que decorei todas as falas. Bem, o fato é que se eu tivesse nascido nos Estados Unidos lá por meados dos anos 60, cerca de duas décadas antes de quando realmente cheguei neste planeta, eu correria sérios riscos de que este delírio de criança se tornasse realidade. Quem me provou isso foi “O Céu Nos Pertence” (Editora Zahar/332 páginas), livro lançado recentemente pelo escritor e jornalista Brendan Koerner, com tradução de Alexandre Martins, disponível nas livrarias mais próximas e nas mais distantes também.

Escolhido como “o livro notável de 2013” pelo New York Times Book Review, ele narra um episódio real de um sequestro aéreo protagonizado por um casal em 1972. A façanha até hoje é conhecida como o sequestro de maior distância da história, pois partiu dos Estados Unidos e só foi terminar na África, ao pousar na cidade de Argel, capital da Argélia. Na minha primeira viagem de avião nenhum maluco apareceu para reivindicar o comando da aeronave… Mas o voo 701 da Western Airlines não teve a mesma sorte naquele junho de 1972, quando Roger Holder e Cathy Kerkow assumiram o comando para cruzar o oceano atlântico, com direito a “excesso de bagagem”, já que receberam um resgate de U$ 500 mil dólares.

A leitura vale muito não só pela maneira com que a obra narra este incrível episódio, reconhecendo e compartilhando com o leitor os erros, os acertos e os golpes de sorte que envolvem esta saga protagonizada por uma moça bonita buscando algum sentido pra vida e um jovem veterano de guerra ressentido com o tratamento que recebeu do país por quem ele literalmente “deu sangue”. Vale muito porque o autor aproveita também para lembrar outros casos de sequestros aéreos não menos extraordinários, sendo grande parte deles executado sem que fosse necessário o uso de bombas como ameaça a integridade dos passageiros.

Capa do livro e o autor, Brendan I. Koerner

O início da narrativa nos faz compreender o contexto que tornou possível esta “epidemia” (expressão escolhida na ocasião para se referir ao surto de sequestros de aviões daquele período), pois na época os detectores de metais, aparelhos de Raio-X e seguranças uniformizados não faziam parte da paisagem visual dos aeroportos. Havia situações de você entrar no avião, decolar e só lá em cima, entre uma turbulência e outra, alguém lhe cobrar por aquela viagem. Já pensou que surreal?

Outro aspecto intrigante elucidado pelo livro diz respeito aos perfis dos sequestradores, bem como os motivos que os levaram a cometer esses crimes. Comandaram sequestros “veteranos cansados, delirantes crônicos, jogadores compulsivos, empresários falidos, acadêmicos frustrados, criminosos de carreira e até mesmo adolescentes apaixonados” – só para ficar nos exemplos citados em um trecho do livro. Se fosse hoje em dia, poderíamos acrescentar categorias como “ex-BBB”, “ex-integrante de boyband” e “humorista rejeitado no Zorra Total”.

O autor ainda destaca a lenda etimológica para origem do verbo “sequestrar” na língua inglesa que resultou na expressão “to hijack”. Acredita-se que ela deriva daqueles que roubavam caminhões de carga e ao darem a voz de assalto, gritavam: “Hold your hands high, Jack!”. Pois quando a moda do sequestro começou a “ganhar asas”, a expressão foi também incorporada e reproduzida nesta nova modalidade, fazendo surgir o neologismo “skyjack”, que resulta da união entre as palavras “sky” (céu) e ‘hijack” (sequestro).

A constatação de Koerner, ao investigar com profundidade os casos mais emblemáticos deste fenômeno batizado de “pirataria aérea”, é que a maior parte dos aviões, ao serem desviados de seu curso original, tomava Cuba como seu novo destino, tanto pela proximidade geográfica quanto por questões políticas e ideológicas oriundas das relações estremecidas e nada amistosas entre a ilha caribenha e a terra do Tio Sam.

Os que se aventuravam a tomar o controle de uma aeronave, colocando-se como “inimigo da nação”, não demoravam a serem seduzidos pela ideia de que “o inimigo do meu inimigo só pode ser meu amigo”. Só que a realidade provara que a ideia de serem recebidos como heróis na ilha comandada por Fidel Castro raramente quebravam a barreira do devaneio… É ler para conferir os detalhes.

Mas vamos voltar à história mais importante da obra – a do casal que conseguiu levar o avião sequestrado até a Argélia. Não entrarei nos detalhes enriquecedores desta saga para não ser responsável por spoilers desagradáveis aos olhos dos leitores mais interessados. Mas é impressionante acompanhar, ao longo dos capítulos, os desdobramentos na vida destas duas criaturas, seus finais inusitados, cada um a sua maneira.

Só para despertar o interesse, posso dizer que a temporada na África os coloca em contato com um grupo de exilados do famoso grupo revolucionário Panteras Negras e, mais para frente, ao desviarem o curso desta aventura para solo europeu, a história põe no caminho do casal figuras como a cantora Joan Baez e o filósofo Jean-Paul Sartre.

Não tem para onde correr, ou melhor, para onde voar. É o típico livro que, mais cedo ou mais tarde, se tornará alvo da indústria cinematográfica. Resta saber quando Hollywood, que tem verdadeiro tesão em produzir filmes com essa temática, vide “Passageiro 57” e tantos outros, abraçará essa ideia. Se o Wesley Snipes não estivesse tão velho, eu iria sugerir o nome dele para o papel principal. Bem… Enquanto a ideia do filme não decola, recomendo a todos a leitura do livro, mas com a sincera ressalva de que ela não seja realizada durante o voo.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.


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Publicado em 20/05/2014 por em Gabriel Camões.
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