ORNITORRINCO

DIÁRIOS DE TAIWAN – PONTES AFETIVAS

Achar a sua própria cidade na cidade do outro é um exercício de engenharia. Uma construção de pontes que estreitem de modo afetivo a sua conexão com o desconhecido. Estou na Santa Teresa de Taipei, uma pequena colina com vista para as antenas do Sumaré. Descendo a ladeira é fácil chegar na Riachuelo, com seus letreiros iluminados, cheia de lojas e comidas, como na Lapa antiga onde um restaurante conversava lado a lado com uma borracharia.

Andando pela Saara da região vou esbarrando nas pessoas nas ruas estreitas onde os comerciantes ocupam as calçadas com seus produtos. Numa dessas ruas você encontra um prédio cheio de letreiros em mandarim e uma pequena porta dá pra uma escada que chega numa galeria de arte num lugar improvável. Bem como a Gentil Carioca, no Rio. Uma varanda onde eles fazem shows e um backlight com a imagem da exposição lembra a parede Gentil, a The Cube pareceu, a primeira vista, uma bela galeria de arte. Venha visitar quando você vier por aqui.

Vista do Hostel
Renyu e o Coletivo OPAVIVARA! no Templo de Confucio 

Estou onze horas no futuro e em Taiwan os carros já cortam os céus como o DeLorean fazia na Sessão da Tarde. A cidade é toda atravessada por vias expressas elevadas, da janela vejo umas quatro. Se no Rio de Janeiro a parte de baixo desses viadutos seria tétrica, cheia de lixo e com um cimentado de pedras pontudas para impedir os moradores de rua de ficarem por ali, aqui é tudo limpo e organizado. Estacionamentos, um corpo de bombeiros, um jardim com um gramado aparado.

Escrevo olhando a paisagem e a faxineira do hostel fala comigo como se eu fosse fluente em mandarim, funciona assim se você arrisca cumprimentar as pessoas com um ni hao. O mandarim é uma língua de sonoridade anasalada, cheia de sons e tons difíceis de pronunciar. Se é virtualmente impossível pra nós, que falamos português e entendemos distinções tonais como as que existem entre cão, cal e caô, não sei quem consegue aprender essa língua sem morar muito tempo por aqui.

A escrita e a fala estão bem distantes e se você consegue escrever ele e ela com ideogramas, não consegue falar, pois só existe o pronome “ta”, que é neutro, assim como os deuses do taoísmo, que não tem sexo. Falando inglês eles erram todos os he e she que você possa imaginar. Mas há uma dimensão poética visual mágica da língua que infelizmente perdemos.

Os ideogramas criam um duplo universo de leitura, tanto verbal quanto imagético. O leste (東) é a combinação do sol (日) nascendo atrás de uma árvore ou floresta (木), essa mixagem de imagens se mistura com o significado da palavra leste e cria uma poesia escrita, quase concreta, intangível pra quem não sabe ler esses caracteres. Os japoneses que encontrei aqui ficam sempre maravilhados, pra eles é como se a escrita chinesa fosse uma volta no tempo, uma espécie de latim para os falantes do português, mas que eles compreendem muito mais nessa dimensão visual. Dimensão que não é a única, uma vez que uma parte dos ideogramas são também fonéticos.

Os dias da semana funcionam quase como no português, com números, mas eles começam contando no um e não no dois. Segunda feira é 星期一, lê-se da esquerda para a direita a menos que se escreva na vertical, como no estilo japonês, que é famoso por aqui. O primeiro ideograma significa estrelas, o segundo é algo que está no meio, o terceiro é a lua e o traço final é o número um. Ou seja aquilo que está entre a lua e as estrelas 1 é a segunda-feira.

Essa poesia que existe nessas camadas verbi-voco-visual (fazendo os irmãos Campos terem orgasmos em suas tumbas) está presente nas leituras do I-Ching. A maravilha de viajar em coletivo é poder ver um lugar distante também por outros olhos. Alguém aponta um beco que você não tinha visto, um pássaro que não tinha escutado, uma comida que não tinha provado. Foi assim que acabamos parando na casa do mestre Zhang. A Carol estava doida pra ter uma experiência de leitura do I-Ching aqui na área onde a coisa foi criada. Uma das diretoras do Taipei Fine Art Museum, que está nos recebendo por aqui, tinha a conexão com o pai de santo local. Fomos lá jogar o ifá das moedinhas furadas pra ver no que dava.

Chacoalha a moeda, concentra na pergunta e coloca os búzios na mesa. Os rabiscos do mestre num papel timbrado rosa lembravam uma receita médica, tanto pela formalidade quanto pela letra incompreensível. No OPAVIVARÁ! tudo funciona numa grande suruba, então convencemos o homem a fazer uma pergunta coletiva sobre como será nosso trabalho na bienal de Taipei, que começa em setembro próximo. O rosto das meninas do museu, que estavam ali de interpretes, foi ganhando uma expressão de espanto e elas pararam de traduzir e entraram num longo papo com o babalorixá oriental. A pergunta acabou dando muito mais respostas pra elas do que pra gente, ficamos só com um bom retorno de uma energia alto astral, otimista e assertiva que ajudará no trabalho. Mas os problemas institucionais podem ser grandes. É bom elas ficarem avisadas, pelo além, disso daí. Costuma mesmo acontecer essa tensão quando convidam a gente, é um desejo do nosso trabalho esgarçar os limites e as fronteiras das paredes dos museus.

Leitura do I-Ching

Confesso que minha relação com oráculos, esoterismo, ocultismo é distante. Entendo a potência e a beleza do pensamento mágico, mas sempre ecoa na minha cabeça “A cartomante” do Machado de Assis. O interessante é que a coisa toda com o misticismo se dá no contato, no contágio, na relação entre você e o Tirésias da vez. Já que é relacional entrei na onda e fui fazer minha pergunta, mentalmente. “E aí, china, vai ter Copa?” Para sacanear o meu ceticismo o mestre do I-Ching foi certeiro ao dizer que as coisas acontecerão de agora até 22 de julho num clima tenso onde grana e política estarão no centro da disputa e que o melhor é sair do país nessa época. Nada que a gente já não soubesse, mas eu avisei pra ele que eu vou a alguns jogos no Maracanã, ele me olhou torto e mandou eu sentar num lugar bem perto da saída. “Mas e no campo, china?” Bom, no campo ele deu aquele belo chute de matéria esotérica oracular do Globo Esporte capitaneada pelo Marcio Canuto: disse que os problemas maiores serão com Inglaterra e Espanha e mostrou uma linha com vários ideogramas que terminavam no número 1. Pra terminar perguntei do Flamengo e ele mostrou outra linha, mas que terminava no número 16. Pelo menos não é Z4.

Com um mínimo conhecimento de futebol qualquer um poderia ter feito essas previsões, tanto a partir do elenco da seleção quanto do time tosco do Flamengo, mas como chinês não entende nada de bola vou acreditar nas suas conexões astrais e em suas leituras transcendentais. Até porque, antes que eu saísse, ele disse que logo logo eu vou ter um filho e que vai ser um menino cheio de saúde. Não sei se foi só pra me agradar, mas eu gostei dessa ultrassonografia mística oriental.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 19/05/2014 por em Domingos Guimaraens.
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