ORNITORRINCO

AUTO AJUDA

Esse é um texto pra mim. Pra organizar sensações e afirmar decisões e puxar minha orelha e me dar um abraço. Ele vai falar sobre impressões do mundo e descobertas e vai usar a vida dos outros como forma de olhar melhor pra minha – e provavelmente vai ser brega e tocar em clichês nesse caminho. Spoiler: esse é um texto de auto ajuda.

É que tem a coisa de cuidar e proteger, a diferença que eu nunca tinha percebido entre os verbos. Que cuidar é acolher, olhar com amor, estender a mão, aquecer. E proteger pressupõe perigo, pede escudo e armadura, muros, pontes levadiças. Proteger pressupõe poder: alguém mais forte que vai resolver pra você. Cuidar é coisa de iguais, duas fragilidades amaciando as quedas uma da outra. Proteger é pesado, cuidar é delicadeza.

Aí tem a coisa de se cuidar e se proteger, de aprender como fazer e qual a hora de cada uma. Porque a gente sofre e, se for esperto, da próxima vez faz “arrá” e muda o rumo: se cuida. Mas se não for muito esperto faz “arrá” e sai da estrada e se tranca em casa: se protege. E não enlameia sapatos e não afofa a poeira com as bochechas e não treina lágrimas em saltos ornamentais, mas também não corre na chuva e não afunda os pés na grama e não inventa gargalhadas de doer os maxilares. Se cuidar. Se proteger.

Porque afinal é tudo questão de se arriscar. De aceitar o abismo que subitamente fica claro diante dos pés – mas que, não duvidem, sempre esteve lá. Construir sobre areia como se construísse sobre cimento, diz o Borges que é preciso. E viva as horas em que parece cimento, mas não duvidem: é sempre areia.

Um homem, uma mulher, um amor, uma casa, uma sogra, uma criança. Uma placa que diz “vende-se”. Cimento virando areia no bater da porta.

Uma menina com olhos de afeto e uma mão maior que ela. Uma mão que discorda do corpo, uma mão que pesa sobre os seus anos. Uma menina que sorri no elevador, uma menina triste no corredor, gaze, esparadrapos, uma menina com nome em P brigando com o mundo, sendo que o mundo e ela são um só. Uma menina adolescendo, dizendo sim, uma menina sem braço comendo brigadeiros na minha cozinha, escolhendo com a mão que concorda o sabor dessa noite.

E então meu coração aflito e meu medo da dor e minhas perdas e minha ansiedade flutuam entre outros acontecimentos. Me esconder. Me expor. Experimentar.

A vida dos outros me comove e me modifica. A fome do mundo não enche a minha barriga mas muda o gosto da minha comida.

Caem muros, nascem pontes sobre precipícios. Se proteger fica antigo. Se cuidar agora é arriscar.

Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 16/05/2014 por em Maria Rezende.
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