ORNITORRINCO

LENDO MEMÓRIAS DO CÁRCERE GRIPADO

Graciliano Ramos, ou Senhor Fulano de Tal, como, em Memórias do Cárcere, ele preferiu se chamar, estava chegando na Colônia Correcional de Ilha Grande – após algum tempo detido no Recife, uma viagem desumana encarcerado no abjeto porão do navio Manaus, e meses aprisionado no Pavilhão dos Primários, no Rio – quando uma forte gripe me tomou. Começou como uma pequena sequência de espirros na madrugada, que aos poucos se tornou uma leve sinusite, e logo, a dor no corpo, a moleza, o desejo de não fazer nada confirmaram o diagnóstico. E junto, o pior dos sintomas: quando me gripo, logo deixo de sentir o gosto da comida. Dividi, então, com Graciliano o desanimo diante das refeições. Ele, incapaz de pensar em comer pelo cenário fétido e a própria condição física em que se encontrava, e eu, que poderia engolir faisão, peixe cru ou pão com manteiga que tudo teria gosto de papel.

Duram pouco minhas gripes, mas ainda assim foi difícil acompanhar as dores do fulano Graciliano em sua chegada à Colônia. Não quero comparar a dureza de dois ou três dias chafurdados no sofá com o que se passava com os prisioneiros companheiros do escritor. Longe de mim. Gripe é quase bom, ainda mais diante dos deletérios impostos sobre os supostos comunistas que, como Graciliano, se viram apartados de sua vida e de si por conta da paranoia que tomou o governo brasileiro depois da Intentona Comunista de 1935. Mas o fato é que uma boa leitura lhe toma a casa, o corpo, lhe tinge a roupa e as paredes, dobra o tempo e te leva, nos melhores casos, a dividir sensações com o personagem. As dores de uma cirurgia mal feita, as semanas em jejum, o frio, os cigarros infinitos garantiam a Graciliano que o fim estava próximo. Meu mal estar se misturou então com o mal estar de se deitar em uma cama sem colchão. Fechei o livro em certo ponto, pois começava a crer que minha gripe era na verdade uma tuberculose ou coisa que o valha, e que não conseguiria chegar a acompanhar Graciliano em liberdade – mesmo que fosse pela pena de Silviano Santiago, que, anos depois da morte do autor, escreveu o último capitulo que o Fulano de Tal não chegou a grafar, mas que sempre prometeu que seria o final de suas memórias do cárcere: em liberdade.


Sei que o personagem não morre no final, e principalmente, sei que a gripe passa – que tenho comida de sobra, que estou livre, que minha vida é boa e que em questão de horas voltarei a sentir o gosto das coisas. Graciliano não nos permite sentir piedade de seu calvário, ao mesmo tempo em que nos obriga a engolir cada sensação que lhe atravessa com a agudez precisa e direta de sua sentenças curtas. Não há herói nem vilão em suas memórias. Há somente a circunstância, o trágico da vida que se deu, que estava acontecendo, que era como era. Visto que minha náusea era um bálsamo perto do horror descrito, mesmo tossindo no sofá, mole e fraco, acompanhei Graciliano em um cigarro para retomar a leitura.

O autor não se diz comunista, não se reconhece como operário, nem como burguês. Se localiza no vão dos rótulos, no hiato das definições, assim como sua literatura – a qual ele também não atribui valor especial. Mas é impossível não pensar no horror de quem ainda vive, nas mesmas ou em piores condições, o sofrimento do aprisionamento injusto. Ou mesmo justo, pois sabemos que o sistema carcerário brasileiro não nos leva a melhoria social alguma.

Não digo, com isso, que não se deva punir os que cometem crimes, e não tenho uma ideia clara e eficiente que possa substituir o sistema que temos, mas não é preciso ser um Graciliano Ramos para se ter certeza de que a justiça e suas condenações são falhas, muito pouco eficientes, injustas muitas vezes, e que, em todos os casos, não transformam o réu – a não ser em uma versão agravada do que o levou a cometer o delito. Se alguém sai do cárcere reformado, melhor do que entrou, é por força própria e nada mais.

O sistema que pune os criminosos é também um crime. O guarda manco e vesgo afirma para Graciliano sobre o propósito de sua estadia no cárcere: “Aqui não vêm corrigir-se. Vêm morrer”. Graciliano não cometeu crime algum. Como em tantos casos cotidianos contemporâneos, ele só precisou parecer com o que se considerava o perfil de um criminoso para ser punido. A punição prévia é sempre o primeiro passo do fascismo. 1936 é amanhã.

A educação que já possuía permitiu ao escritor suportar e transformar a experiência em literatura. Meu remédio para a gripe já começava a fazer efeito quando Graciliano soube que deixaria a Colônia. Respirei melhor assim que ele finalmente elevou a cabeça para receber o vento no rosto. Ainda não estava livre, mas enfim pode saborear um naco de goiabada que lhe foi salvador. Senti com ele o gosto do doce – e me senti ridículo por lamentar minha gripe em consonância com sua história.

Mas os grandes livros nos fazem isso: são todos escritos especificamente para nós e sobre cada um de nós. Dei de ombros para os restos de sintoma que ainda me tomavam, e vim escrever, com o mesmo pouco apreço pelas minhas linhas que o fulano do livro sente pelas anotações que escreve ainda na cadeia, e que ao fim, joga ao mar. Graciliano nos obriga sempre a desmistificar os heróis, os vilões, as dores, as generalizações, os rótulos, os destinos e a literatura. Reconsiderem, portanto, algum eventual mal humor, alguma secura ou dureza minha em um futuro próximo; não sou eu, é o Graciliano. Daqui a pouco passa. Ao menos, até a próxima gripe – ou leitura.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 15/05/2014 por em Vitor Paiva.
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