ORNITORRINCO

PENSAMENTO BRASILEIRO NA NOITE DA INGLATERRA

A chuva não parou nesse dia cinza. Mas já anoitece. O vento frio sacode as árvores lá fora. Par de botas, calça preta, uma camisa e um sobretudo, formam a pedida pra curtir a noite. Claro que um capuz não vai fazer mal a ninguém. E não é que fica bom com o casaco… Descer três lances de escadas pra cruzar o portão até a rua. Caminho já automatizado pelo hábito. Mas basta cruzar a esquina que a arquitetura, o frio peculiar, e as pessoas que aqui estão, te fazem refletir: “Realmente estou aqui”.

Esse aqui não se refere exatamente a alguém que saiu do Brasil pra viver na Inglaterra. Significa algo mais amplo. Significa àquela sensação de ter dado forma ao que antes era apenas uma grande vontade de viajar pelo mundo. Estando aqui, logo se percebe que a vida desse lado também acontece sem grandes caprichos. Existe a necessária rotina. Há muito trabalho. Burocracias também. É boa essa sensação de conseguir desmistificar – com os próprios olhos – o que antes era apenas imaginação.

Não há muito preparo a se fazer antes de chegar aqui. Inconscientemente queremos mesmo é viver para além do que antes fomos capazes de imaginar. Queremos é ser surpreendidos pela a vida que se dará no estrangeiro. De algum modo, essa surpresa será facilitada ao chegarmos a um lugar em que não conhecemos ninguém. Junto conosco, chega apenas a possibilidade de experimentar uma vida sem passado.

Em uma situação como essa você é apenas o resultado do que faz no agora. As pessoas serão capazes de lhe perguntar qual é o seu nome de onde você vem. Mas a partir daí a conversa se enveredará sobre o que você veio fazer aqui e o que tem feito ao estar por aqui. O passado não entra em cena. Ele sequer é convocado. Nem mesmo por você.

Se o passado não está em jogo, conseguiremos olhar para a àquela versão do Eu que deixamos no Brasil. Por esse olhar repensaremos as nossas escolhas e caminhos trilhados até então. Olharemos para o nosso próprio passado, agora, sob bases completamente renovadas. Essa reflexão é por demais generosa. Generosa conosco, por acontecer exatamente no momento em que o passado é preenchido pela intensidade do presente. Em um momento em que a razão já não alcança, já teremos nos reconstruiremos pela própria experiência.
Após perceber que realmente se “está aqui”, a gente acaba apressando o passo pela rua. Para além da vontade de ora querer ficar e ora querer voltar, por um instante, prevalece à certeza de que, desse lado do oceano, ainda que os seus pensamentos te confortem, a noite não deixará de ser fria. Há sempre casacos ao vento.

André Silva é doutorando em Administração de Empresas pela FGV/EAESP.

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Publicado em 14/05/2014 por em André Silva.
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