ORNITORRINCO

PAIXÃO INSTANTÂNEA

Nós homens somos bobos, um bando de idiotas. Basta ver um decote, uma silhueta bem delineada ou um rosto delicado e simétrico que a gente fica de quatro. Somos obcecados por mulher. Falamos sobre mulher em 97% das conversas. Nos outros 3% falamos sobre o resto das coisas do mundo que a gente faz pra pegar mulher.

O dia que descobri que eu era lésbica foi no dia que reparei na menina da xerox e depois confirmei assistindo “Azul é a cor mais quente”. Eu percebi que gosto muito de mulher. Me identifiquei muito com as cenas entre duas mulheres ou só com os closes no rosto e boca e todo o resto sensacional da Adèle Exarchopoulos. Seria impossível ficar 3 horas vendo aquele filme não fosse o fato da Adèle sorrir, chorar, ficar pelada, gemer e falar em francês comigo em todas as cenas do filme.

Quando a Adèle me olhou me pedindo praa eu roubar e matar minha mãe eu não tive como dizer não.

Por causa do meu encantamento pelo sexo feminino já fui chamado de galinha e de gay. Gay porque às vezes aprecio tanto que não consigo agir mesmo quando recebo sinais pra agir; e galinha porque pareço encantado por todas. Porque a real é que toda mulher tem sua poesia, mesmo as 97%, como a menina da xerox, que não são a Adèle.

Um exemplo dessa apreciação exagerada foi o início de um namoro quando chamei uma ex para dormir no meu apê. Ela morava longe e lógico que achou que era só meu interesse malicioso de sexo. Expliquei que não era por isso – não era mesmo – e ela aceitou. Eu estava tão encantado por ela, a achava tão linda e divertida e sagaz que não iria fazer algo que fosse contra o que tinha prometido e que comprometesse minhas chances de namorar essa mulher. Os homens muitas vezes, quando estão afim de fato de uma mulher, ficam puta cabreiros para fazer sexo com a mina. E assim foi.

Deitamos na cama juntos, nos beijamos, e mesmo com tesão não fiz nada. Pausa. Breve silêncio. Ela disse “Franco, posso te falar uma coisa?”, eu já sabia que era merda. “Eu acho que você é gay.”

Por outro lado a questão de me acharem galinha vem por outro aspecto. A minha diferença do galinha é que este não gosta de fato de mulher. Ele acha que gosta e faz a mulher acreditar que gosta, mas no fundo não gosta, porque não sabe apreciar. Além do que um típico galinha jamais ficaria com a menina da xerox.

O problema dos galinhas é que em geral eles não querem se envolver. Quando se envolvem é pela metade e só porque querem comer ou beijar o maior número de mulheres. Parece que o cara fica querendo encher um poço sem fundo de baixa auto-estima ou de outras carências que tenta suprir com a pegação sem fim, sem de verdade apreciar as nuances que só um olhar aguçado e mais romântico pode enxergar. Quando se fica na rotatividade e superficialidade constantemente é impossível penetrar uma mulher. Ok, penetrar soa como safadeza de galinha, mas mergulhar de cabeça é outra coisa. Com consciência dos duplos sentido eu prossigo, acho que você já me entendeu.

Mulher é uma coisa dos deuses. E do capeta ao mesmo tempo. São insuportavelmente chatas e maravilhosamente encantadoras pelo mesmo quesito: os detalhes.

Os detalhes são o que, não por cafajestisse barata, nem por sedução de micareta, eu já falei o que elas queriam ouvir e fiz elas se sentirem únicas, porque de fato todas elas são, e porque de fato achei isso, mesmo se tratando da primeira vez que a gente saiu. Não só falei, também acreditei no que falei naqueles momentos, por isso pareceu tão verdadeiro: porque foi. Se digo que queria ficar beijando e cheirando pra sempre, é sempre a verdade, por mais que eu e você saibamos que seria literalmente impossível, logo, tecnicamente é mentira. E dessa forma, por esse mal entendimento da minha apreciação, já me acham galinha.

Quando conheci uma ex namorada, em plena quarta feira de cinzas, foi através da minha “cantada-fantasia”: eu falava sobre amor, sentimentos e sobre abrir o chakra do coração. Eu dizia “Posso te amar por 30 segundos?” Teve uma menina que saiu correndo. Outras tiveram uma crise de riso. Teve uma que me chamou de cafajeste, outra de galinha, safado. Entendo, mas não era Wandiagem minha. Essa ex-namorada foi a única que topou, e de fato foi amada não só pelos 30 segundos mas por alguns anos, o que de certa forma mostra que eu não queria só trocar saliva, senão não usaria esse tipo de approach que pode parecer cafajeste.

Já traí uma vez. Uma vez. E essa única vez foi por um olhar. Ela não era mais bonita que minha namorada da época, não era mais interessante, nem mais inteligente, mas ela tinha uns cílios longos e tiradas inteligentes e sarcásticas, frases sábias soltas e cada piscada, cada palavra me hipnotizava e me dava vontade de rir como um bobo por não ter outra forma melhor de expressar o encantamento que eu sentia. Sim eu amava minha namorada e ela era única pra mim, mas tenho muito amor pra dar e se você visse aqueles cílios e aquele olhar com o meu olhar você entenderia meu encantamento. Não se trata de machismo, porque o que vale pra mim vale pra quem estiver comigo dentro do acordo que for estabelecido na relação (só que nessa relação não haveria possibilidade desse tipo de diálogo, mas esse não é o ponto). O ponto é que toda mulher tem alguma coisa de pôr do sol que hipnotiza.

Vinícius já morreu e errou feio na sua de Receita de Mulher. Não existe receita. Não, não “é preciso que as extremidades sejam magras”, nem “que alguns ossos despontem”, nem “que haja um certo volume de coxas”, e sim, nádegas é bom, mas não é “importantíssimo” como ele disse. Desculpa aê, mas essa beleza não é fundamental, Vini. A frase dele deveria ser “As muito feias que sorriam porque beleza é acidental”. Ninguém olharia para a menina da xerox e acharia ela uma gata. Meu encantamento por ela foi um acidente, aconteceu, a beleza está em quem a vê, é verdade. Pode acontecer com qualquer mulher, porque todas tem alguma coisa, sem fórmula nem receita.

Sim, a menina da xerox. Ela trabalha na xerox da Rua Farani e eu comecei a escrever esse texto por causa dela. Um dia esperando praa imprimir um projeto e lá estava ela. A menina da xerox é… estranha. Tem um rosto nada simétrico, queixo meio de Noel Rosa, anda meio desengonçada no salto alto, fala de forma estranha, nada articulada e tem as pernas muito finas, mas ainda assim com celulite. Por outro lado ela tem uma voz deliciosa, uma melodia, está sempre cheirosa com ar fresco, uma narizinho delicado, umas unhas alongadas, finas, lindas e um conjunto de pintinhas no braço esquerdo que me faz imaginar onde mais estariam outras dessas.

Mesmo as estranhas como a menina da xerox tem alguma coisa, um cheiro, o cabelo, um narizinho, as mãos, a nuca, um caminhar, o olhar, a forma de falar, entende? Eu gosto muito de mulher e sempre tem alguma coisa. É logico que ter uma relação vai muito além de um detalhe simples como esses que acabei de descrever, mas mesmo assim para provar e amar esse detalhes, mesmo que fosse só por uma vez eu acho que vale a pena estar com quase toda mulher.

Como franco que mais do que nunca tenho tentado ser, estou pensando em falar com a menina da xerox que esse texto é pra ela. Ela pode não gostar porque mais um fator lindo e irritante das mulheres é que se eu me acho muito sensível, elas são 600 vezes mais. E daí seu eu chego pra menina da xerox e digo que o resumo disso tudo aqui é: você é feia, mas é linda. Pode ser que ela não se sinta muito lisonjeada.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 13/05/2014 por em Franco Fanti.
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