ORNITORRINCO

DIÁRIOS DE TAIWAN – ESPERANDO OS VENTOS DA PRIMAVERA

Viajar pro oriente é como correr atrás do sol. Vim para Taiwan numa missão com o OPAVIVARÁ!, vamos participar da bienal de Taipei desse ano. A bienal será em setembro, mas estamos aqui por dez dias numa viagem de pesquisa. Foram 27 horas de voo pra chegar, 14h até Dubai, 5h no aeroporto e mais 8h dos Emirados Árabes até Taipei.

Nos tempos mais primórdios o pessoal fazia essas viagens de navio e o fuso horário ia sendo compensado aos poucos, hoje é bem mais rápido, mas a cabeça gira enquanto amanhece e anoitece no avião. O aeroporto de Dubai é aquele bar do Star Wars com todas as raças da confederação das galáxias reunidas. Burcas, semi-burcas, indianos, 1/4 de burcas, véu, negras, loiros, ruivas, de burca e com havaianas, todo mundo se encontra por aqui. Os chineses sempre com aquela máscara cirúrgica e você sem saber se eles querem se proteger de você ou estão te protegendo deles. E assim vamos caminhando no gigantesco freeshop de Dubai irmanados no abraço fraterno e na paranóia do terrorismo universal.

Chegar a Tapei e finalmente sair do não-lugar que são os aviões e aeroportos é um alívio. O clima quente e úmido e as montanhas com muito verde dão uma sensação familiar pra quem, como eu, mora no Rio de Janeiro. Isso em contraste com a língua que soa como uma canção alienígena e os ideogramas que trazem a dimensão do analfabetismo para a sua vida.

Taiwan é uma república rebelde da China, uma espécie de Cuba as avessas, uma ilha capitalista ao sul do gigante comunista. Em 1947, depois da revolução, Chiang Kai Shek fugiu da China continental dizendo que estava transferindo a capital para Taipei. Não deu muito certo e a ONU acabou reconhecendo a República Popular da China como o governo oficial. Os EUA injetaram dinheiro na ilha rebelde e você lembra que nos anos 1980 era tudo Made in Taiwan, quando eles viraram um dos Tigres Asiáticos. O filme City of Sadness, de Hou Hsiao-hsien, conta uma parte dessa história. Vale ver.

Mercados de rua com comidas exóticas estão espalhados por todo canto. A cidade fervilha até a madrugada com as ruas tomadas. Letreiros eletrônicos, leds e luzes piscantes são a paisagem noturna regada por aromas tão estranhos e exóticos que te convidam e te repelem ao mesmo tempo.

A primeira impressão é de que tudo é extremamente organizado, limpo e ordenado por aqui. Poucas lixeiras na rua, mas não há lixo no chão. Essa ordem generalizada, uma experiência do corpo super contida, dão ao mesmo tempo uma paz e a sensação de uma obediência sem questionamentos, como se todos vivessem a vida daquelas meninas orientais da ginástica olímpica, que só vemos de quatro em quatro anos nas olimpíadas, e que o resto do tempo dão a impressão de ficarem trancadas num ginásio, treinando.

Mas caminhando pelo bairro de Da Dao Cheng, nas ruas estreitas, nas quais se encontra uma Casa Pedro de produtos Taiwaneses por esquina, templos com incensos gigantes e mais de seiscentas divindades, frutas tão doces que até um brigadeiro vira um docinho suave, entramos num sobrado velho guiados por um senhor taiwanês, Li Hsio Jian.

Manuscrito de Expecting the spring Breeze

Mr. Li é filho de uma espécie de Ari Barroso da ilha. Lee Lin Chiu compôs muitas canções nos anos 1930 e a mais famosa é Expecting the Spring Breeze, considerado o hino não oficial de Taiwan. A música fala sobre uma jovem que encontra um rapaz inteligente e quer conhecê-lo, mas não sabe como se aproximar. O sobrado bem preservado por Mr. Li, tem fotos, objetos e os manuscritos do pai. Foi emocionante ouvi-lo contando a história da família para no final cantar, a capela, as músicas do pai. Mr. Li é uma figura que parece tímida e frágil mas que ao cantar se transforma. 

Em 1933, aqui em Taiwan, os homens já escreviam canções do ponto de vista de uma mulher, muito antes do Chico Buarque, mas parece que essa é uma antiga tradição japonesa e a influência japa aqui na ilha é maior do que a chinesa. Os japoneses dominaram a ilha do final do século XIX até o fim da segunda Guerra Mundial.

A música de Li Lin Chu fala sobre a liberdade da mulher. Por que só os homens podem ter várias mulheres antes de escolher uma para casar? As mulheres deveriam também ter esse direito. Um homem lutando com uma canção pela libertação feminina me parece algo bem subversivo. Entrando nos cantos escondidos de uma cidade distante vemos que se aos nossos olhos os Taiwaneses parecem super reprimidos no corpo, são super subversivos na poesia.

Música e letra de Expecting the Spring Breeze (letra inglês/mandarim)


She sits alone under the lamp
with the cool breeze in her face.
Sixteen or seventeen
and still unwed
she waits for a young man.
獨夜無伴守燈下 
清風對面吹.
十七八歲未出嫁 
遇到少年家.
Just as she had hoped
he is handsome and of fair complexion.
What family is he from?
She longs to ask but is too shy
and her heart beats so fast.
果然標緻面肉白
誰家人子弟?
想要問伊驚歹勢 
心內彈琵琶
.

She wants the gentleman to be her husband, loves him in her heart,
Waiting until he come to pluck the flower of her youth, about to bloom.
She hears outside that someone has come, opens the door to see,
The moon laughs at us for being so foolish, to be fooled by the wind.
想要郎君做婿 意愛在心內
等待何時君來採 青春花當開

聽見外面有人來 開門甲看覓
月娘笑阮憨大呆 被風騙不知

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 12/05/2014 por em Domingos Guimaraens.
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