ORNITORRINCO

STENDHAL E O SÉCULO XIX

O Vermelho e o Negro é um clássico da literatura mundial. Na epígrafe está escrito, “uma crônica do século XIX”, e de fato é.

Henri-Marie Beyle, ou Stendhal, nasceu em 1783. O livro foi publicado entre 1827 e 1830, dos 44 aos 47 anos do escritor. Trata-se da história de Julien de Sorel, um filho de carpinteiro, nascido na província, que adorava Napoleão, dotado de grande capacidade intelectual – quase um gênio mnemônico – que sabia a Bíblia de cor em latim e também leitor de Horácio e outros poetas latinos. Mesmo sem fé, Julien tentou seguir uma carreira na Igreja, e por isso passou a viver no meio da hipocrisia, tanto sua quanto da sociedade. Apaixonou-se perdidamente duas vezes por mulheres da alta burguesia – que passou a frequentar por causa de seu trabalho – e, por fim, perdeu a cabeça na derradeira lâmina francesa, aos vinte anos de idade.

Assim como em Romeu e Julieta, todas as tomadas de decisão de Julien são sob extrema tensão. Como nasceu na província, sua perspectiva de vida já era tolhida em quase sua totalidade. Ainda jovem, percebeu que sua vida não teria grandes vôos. Ambicioso, queria conhecer Napoleão, e não seguiu a carpintaria, como o pai. Sendo um burguês comum sem linhagem, Julien não viu outra forma de chegar a um cargo elevado e sair de sua cidade que não tentando ser padre. Quase conseguiu, mas tropeçou em sua própria natureza explosiva.

Julien é um herói, um poeta. Por que? Porque colocou 
fogo nos corpos da alta burguesia da época, saindo de 
“seu lugar”, guiando-se pela paixão e o desejo.


Julien de Sorel não é um Lucien de Rubempré, personagem balzaquiano, também nascido na província, que tinha sonho de ser poeta em Paris e virou jornalista. Não é o próprio Rimbaud, da pequena Charleville, que precisou conhecer a intelligentsia parisiense pra saber que aquilo tudo se tratava de uma grande bobagem – e só Verlaine valia a pena. Nem tampouco é um interesseiro que apenas queria subir na vida a qualquer custo. Julien é um herói, um poeta. Por que? Porque colocou fogo nos corpos da alta burguesia da época, saindo de “seu lugar”, guiando-se pela paixão e o desejo, e estremecendo as relações dos pretendidos à boa vida desde sempre, aos “bem nascidos”. Foi decapitado, lógico, mas restou a experiência. Tinha apenas seu talento para tentar viver e soube entender, desde sempre, o que o movia ao longo dos acontecimentos – e agiu como tal. O resto é literatura, assim como toda a sua vida.

E vem essa coisa da província, do desejo de sair do lugar, onde pouca coisa acontece. Onde sabe-se que tudo é como é porque a concentração de interesses fica em outro lugar, em círculos pequenos e fechados que só rodam para si, onde as luzes piscam mais, onde há menos ternura e mais desejo, malícia. A cena de seu pai o visitando no calabouço faz pensar se tudo aquilo valeu a pena. É o retorno da origem. Julien só quis apelar quando soube que seu grande amor não havia morrido, por suas próprias mãos – quando percebeu que não conseguiria viver sem aquele fogo.

A poesia do século XIX, ou melhor, a literatura do século XIX é tão fascinante quanto seus acontecimentos históricos. Stendhal já tinha seus vinte anos quando tal século começou, e já tinha vivido a Revolução e suas consequências, mas seu livro não. Pensar que foi o século de Balzac, Victor Hugo, Dumas pai e filho, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Musset, Lautréamont, Zola, Flaubert, Gogol, Tolstói, Dostoiévski, Emerson, Whitman, Poe, Mark Twain, Henry James, Emily Dickinson, e é claro, Àlvares de Azevedo, Castro Alves, José de Alencar, Machado, Bernardo Guimaraens e outra penca de gente, só para falar da literatura, dá até a impressão que alguma coisa aconteceu para ter gerado tanta gente, em épocas e lugares diferentes é claro, mas que formou esse panteão de heróis que hoje enfileiram a prateleira dos clássicos.

O poeta é a antena de seu tempo, e todos esses conseguiram, cada qual do seu jeito, deglutir este século tão fértil e fervilhante, cujo eco vivemos até hoje.

Vitor Paiva, este texto é dedicado a você.

Pedro Lago é poeta.

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Publicado em 06/05/2014 por em Pedro Lago.
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