ORNITORRINCO

A ARTE DE DISTRIBUIR ELOGIOS

Ontem eu fui à Quinta da Boa Vista elogiar estranhos. Fui convidada para participar de um evento que tinha como objetivo levantar a moral do carioca. Relutei, pois ando triste com a cidade, desgostosa. Mas depois refleti melhor e tive a ideia do Gniyllub, que é bullying ao contrário, e meu desejo era elogiar as pessoas que estavam ali em pleno parque a passeio. Eu observaria, me aproximaria e falaria algum elogio, como incentivo, psicológico ou estético.

Mas não foi tão fácil quanto parecia na minha mente. Ao chegar no local, onde sempre fui, vou e irei, alguma aflição tomou conta de mim. “E se me acharem maluca? E se me acharem tarada?” Meu gigantismo me confere uma estrangeirismo, e ainda mais com a blusa do evento, eu realmente parecia uma gringa, mas isso me defendia, de alguma maneira. Comecei com as crianças, mais puras e livres. “Que linda você, que cor de unha linda você escolheu”. As crianças sorriam bocarras pra me derreter e uma delas agradeceu com muita vontade.

É raro vermos pessoas sozinhas na Quinta, eu era um E.T ambulante, observando as famílias nos seus piqueniques. Sei que subo num palco, sei que sou artista, mas acreditem, também sou tímida. Não a timidez egoísta de “Oh, o que eu tenho a dizer é tão importante que nem consigo falar”. Não é isso. Sou meio cara de pau, espontânea e às vezes falo coisas sem pensar direito e pago por isso, pro bem e para o mal. Mas minha timidez mora no campo do desconhecido. Eu tinha vergonha de perguntar preço da roupa numa loja, porque não conheço a vendedora, porque não sei como ela vai ser. Com amigos, ok. Com estranhos, o bicho pega. E lá estava eu, sozinha, a gringa, a louca, a tarada, caminhando pela Quinta. Adolescentes são difíceis, mesmo com elogios, estão sempre tão armados e preparados para o ataque. Vi uma menina jogando bola. Ela estava de maiô e short. Comentei “Bonito o seu maiô”, ao que ela disse com voz alta “Maiô não, colega, isso aqui é um BODY”. Oh, pensei, mil perdões pedi e continuei a caminhada, mas a ouvi contando para amigos que “aquela mulher ali achou que isso era um maiô, pffff”.

Eu agora era “aquela mulher” e para minha surpresa observei uma louca falando sozinha. Reconhecemos os loucos pelo destaque, e isso é tão bonito e triste ao mesmo tempo. Pensei “Vou elogiar a louca, o olho dela é bonito, vivo”. Mas antes de falar qualquer coisa, a louca disse “Oi, linda”, para mim, me deixando em suspensão. Éramos da mesma gangue, concluí. A Quinta da Boa Vista reúne mais gente do subúrbio e da zona norte. Uma pena que algumas pessoas da zona sul tenham medo ou preconceito. O lugar é lindo num grau máximo de beleza. E o subúrbio ainda conserva uma característica de cidade pequena que eu amo que é dizer “bom dia” ou “boa tarde” para desconhecidos. Então enquanto caminhava ontem, observando as pessoas, antes de elogiá-las, eu era flagrada com uma simpatia instantânea. “Boa tarde!”. Às vezes isso me quebrava e eu só sorria, sem elogiar, mas n’outras vezes isso me fortaleceu para ter a coragem em dizer que “você fez uma manobra muito legal, você é bom nisso”.

O dia estava dilacerante de bonito, minha existência se enobrecia não por vaidade, mas um altruísmo puro foi me abraçando. Eu nem existia, meu cabelo não existia, minha altura. Nada. Eu era um hidrante ambulante. Colocando elogios pra fora. Fui ficando emocionada, pois sou assim e estou numa fase mais ainda. Vi um casal enroscado na grama e tinha percebido ser difícil elogiar um casal. O medo em parecer cantada me impedia e não queria perturbar a paz de ninguém, mas nessa hora minha emoção me pareceu tão pura que pensei que daria certo. “Vocês estão muito bonitinhos deitados nessa grama”, disse. Eles riram e se abraçaram ainda mais forte. Como se minha frase confirmasse o amor deles, um breve reconhecimento público os animava, eles não precisam disso, mas isso era quente, isso era gostoso de ouvir, riram, se abraçaram ainda mais, agradeceram. Eu não era louca, eu não era tarada.

Para minha surpresa observei uma louca falando sozinha.

Reconhecemos os loucos pelo destaque, e isso é tão

bonito e triste ao mesmo tempo.

Eu queria que os elogios não fossem aleatórios. Não queria sair chamando todos de lindos. Sou específica. Sou do detalhe. Vi uma adolescente de cabelo azul, não achei bonito, não é da minha natureza. Nunca pintei o cabelo e não tenho nada contra quem pinta, mas o cabelo azul ali era só um statement, um grito, uma alegoria para algo muito mais profundo. Ela está querendo dizer que não é igual às amigas do colégio que alisam, fazem chapinha ou sei lá o quê. Ela não. E os breves 16 anos precisam de gritos, ser diferente ainda não está tão internalizado. Diferente em quê? Diferente como? Nem ela ainda sabe, então começa pelo cabelo. Pintou de azul. Estava feio. Para mim. Minha estética não bate ali. Mas ela precisava de um elogio, pensei. A mãe deve ter urrado com essa cor, os amigos no colégio devem ter sacaneado. Cheguei perto com medo, porque afinal era uma adolescente. “Gostei do seu cabelo”. Ela ficou muito feliz, estava sendo elogiada na frente das amigas por uma estranha. Não que eu seja estilosa, mas com 32 anos já sabemos o que cai bem na gente ou não. Então enquanto fui indo embora, bem reparei que ela ficou me observando e gostando do meu sapato e dos meus óculos. Foi curioso. Foi o único elogio solitário que dei. Quando eram duplas ou trios, eu tentava elogiar todos, para que houvesse equilíbrio e paz. Mas naquele caso, senti que ela merecia esse brilho entre as amigas.

O cabelo do gari, o sorriso da guria correndo, a legging de estrelas da menina, o tênis marrom do skatista, os meninos jogando capoeira, o olho mais lindo do menino soltando pipa, as bolas coloridas que os meninos escolheram, o cabelo enorme da mãe de 4 filhos, tudo era bonito e emocionante. Mas de repente quis elogiar os ambulantes que acordam cedo pra dedéu, compram gelo, enchem o carrinho, carregam a mercadoria e torcem para que não chova, se deslocando quilômetros, não para um piquenique com a sua família, mas para o trabalho. Uma certa culpa me fez comprar um guaraná antes, eu não consegui simplesmente chegar e elogiar. Culpa, timidez, não sei. A senhora não estava de brinco, colar, nada. Pele arrasada pelo sol, pela falta de cuidado e pela vida, essa grande bocarra do tempo. Em pé metendo a mão no gelo, ela foi simpática, o que me animou para elogiá-la. Ao final olhei para o seu pé. Um sapato de oncinha! Estava ali então uma certa vaidade. Achei divertido e comentei “Gostei da sandália de oncinha, hein”. Foi como um susto, ela não estava pronta, há muito tempo alguém não faz isso com essa senhora, pensei e fiquei triste por isso, mas muito rapidamente fiquei feliz. Ela ficou sem graça e se tivesse um paninho na sua mão, limparia os dedos se desculpando. Eu já fui assim. Já me elogiaram, e já disse o preço da camisa. Eu melhorei. Mas ainda é difícil pra mim também. Ela me desejou um bom restinho de domingo. Querida.

Sofri bullying no colégio. Girafa, vara pau, retão dos boxes, pense em tudo. Eu não respondia, me alienava, vislumbrava minha saída da mediocridade. Os lugares que eu conheceria, os homens que amaria, os livros que leria – e já lia. Deveria ter respondido, claro. Isso me rende uma certa agressão hoje em dia. Me afeto rápido. O homem ultrapassa o sinal e fico fula. Já melhorei. Flores pra Edna, minha ex-analista. Risos. Não ter sido reativa numa fase vulcânica, a adolescência, me deixou com muita energia na barriga. Quando levo para o palco, sou mais feliz. O bullying do colégio não me feriu tanto assim. Os meninos eram tão nada, a representação ridícula da mediocridade. Não os admirava, logo se o meu nariz, minha bunda, meu cheiro, minha sexualidade fosse motivo de zombaria, eu ficava triste pois ser jovem é querer ser aceito, mas hoje olhando de longe, percebo que os sinais eram meus amigos e o elogio do professor de redação, a professora de artes me chamar para um curso de teatro fora do horário do colégio, tudo isso me protegia, tudo isso me confortou. Dei atenção para o mais valioso.

Tem um episódio da minha vida que ontem, andando pela Quinta, vendo as crianças mais lindas e diferentes e esquisitas e malucas e engraçadas, me fez lembrar da Noêmia, a professora de balé que tive com 6 anos de idade. Ela era russa e má. Um dia esqueci a rede no cabelo e ela disse que quem tinha cabelo ruim não podia esquecer a rede. Depois, ao final da aula, me vendo dar estrela e botar o pé na cabeça, me avisou que eu jamais seria graciosa. Eu já era como sou. As essências não mudam. Adquirimos pentelhos, traumas e manias, mas ainda somos os mesmos. O balé já não era pra mim. As regras me causavam bocejo. As meninas me pediam para fazer as macaquices, e eu já gostava do palco e da plateia. Mas minha pequena existência desobediente exasperava Noêmia, que trouxe o balé russo para o Brasil. E na apresentação da páscoa, estava ansiosa para subir no palco, mesmo que fosse para mostrar regras. Era palco, tinha cheiro de cortina, camarim. Todas as meninas estavam uma ao lado da outra. Todas amavam o balé, todas obedeciam, todas esperavam. Eu não – me defendo trocentos anos depois. Noêmia sabia que eu era uma boxeur, uma pequena provocadora, que eu inventaria passos, não reproduziria. Eu não sabia que eu era assim, só sabia que era inquieta pois os adultos se referiam a mim assim. As meninas em fila. Eu na fila. Noêmia passou uma a uma, dizendo coisas do tipo: “Postura! Pezinho!” Ao me ver, eu criança linda com orelhas de abano, linda, cabelo ruim, linda, já narigudinha, linda, dentes enormes, linda, olhão arregalado, linda, possíveis roxos pelo corpo, linda, ela parou, me olhou no olho, e com um cheiro que acho que vou sentir quando for à Rússia, Noêmia disse: “Horrorosa”.

Comecei a ter caganeira antes do balé. Minha mãe percebeu e me botou na ginástica olímpica onde fui feliz pulando na cama elástica. Não contei pra minha mãe que a dona do balé me chamou de horrorosa. Minha mãe era muito bonita e eu não podia avisar pra ela que eu não era. Essa história foi do mal. Isso me machucou. Eu tratei. Na análise, no teatro, no vinho, na Grécia Antiga, no sexo, na pista de dança, eu tratei.

Ontem na Quinta da Boa Vista, elogiando estranhos, lembrei do dia em que abri o obituário (gostava de ler nomes estranhos) e vi que Noêmia tinha morrido. Gostava de pensar num inferno de crianças azucrinando Noêmia, crianças zombeteiras. Esfregando o cabelo dela, fazendo cosquinha até ela passar mal. Toda criança que elogiei ontem foi uma espécie de cura da minha criança. Que toque a música dos campeões de filme ruim norte americano. Perdão, mundo. Às vezes o clichê nos abraça de tal maneira que resistir é pior. Foi isso mesmo. Cada criança que eu chamei de linda ontem, era um pouco pra mim. Flores para todos.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 06/05/2014 por em Letícia Novaes.
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