ORNITORRINCO

SEXO, POLÍTICA E PERVERSÃO

Acabei de ler o sensacional e sensual livro A guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o clamor do sexo – imprensa, pornografia, comunismo e censura na ditadura militar. O livro de Gonçalo Junior é um tesão e abarca o período de 1964 a 1985 de um jeito diferente. Além de contar a vida das grandes editoras do gênero erótico, Gonçalo passeia pela história de “pequenos editores, desenhistas e roteiristas de quadrinhos quase anônimos, que, algumas vezes, fizeram a censura de boba por pura sacanagem, em todos os sentidos”. A pesquisa detalhada traz cartas, mais de 500 imagens e depoimentos delirantes como os do Ministro da Justiça da ditadura Médici, Alfredo Buzaid: “O nosso propósito é preservar a integridade da família brasileira, que guarda tradição de moralidade, combatendo o processo insidioso do comunismo internacional que insinua o amor livre para desfibrar as resistências morais de nossa sociedade.” Em oposição a isso vemos as estratégias de editores e desenhistas como Ênio Silveira, Minami Keizi e Claudio Seto para burlar a censura dos militares e o conservadorismo da sociedade brasileira. Vale muito a leitura.

Sexo e política sempre estiveram conectados seja no prazer ou na perversão. Não foi só no Brasil que as tarjas pretas cobriam pirocas e bucetas. Lembremos que só nos anos 1960 a justiça britânica acabou com medidas administrativas que censuravam trechos de obras como O amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, que morreu em 1930 sem saber disso. Voltando mais no tempo penso nas fortes imagens geradas nas histórias da dupla de ataque mais sinistra do time dos perversos: Marquês de Sade e Leopold Sacher-Masoch. Acho que ter seu nome transformado num adjetivo é o auge para qualquer escritor. Se isso já tinha acontecido com a Safo de Lesbos, com safada e lésbica, os dois pervertidos se transformaram num só. O Marquês veio antes, no século XVIII, criando com seu nome e sua ficção o sadismo. Leopold veio no século XIX indo fundo no masoquismo. Juntos formaram a duplinha de conceitos mais popular da psicanálise e da sexologia: o sadomasoquismo.

Se a obra dos dois pode ser lida como as narrativas mais impuras já escritas (como definia sua obra o próprio Sade) também podemos ler toda essa perversão por uma chave política. As loucuras imaginadas por Sade em 120 dias de Sodoma, quando quatro libertinos se juntam num castelo para realizar seiscentas paixões, ficam impressas na cabeça, mas de uma forma estranha, geram em mim um senso de anarquismo extremo. A lei e a ordem como estamos acostumados são colocados abaixo e todos participam ativamente do ato sexual num tesão e numa tensão que são apenas possíveis, pra mim, no plano da imaginação e da fantasia. Perto de Sade só mesmo a Auto Biografia de Lucas Frizzo, de Botika, quando o Lucas esquarteja a Malu Mader, coloca seu tronco amarrado em cima de um cachorro para fodê-la pela casa. Há a completa ruína da família, da moral, dos costumes, das leis, das propriedades, das instituições, do amor, das alianças, não sobra pedra sobre pedra. Os militares deviam ter tremores e censuradas poluções noturnas com tudo isso. Esse sexo de Sade nos aproxima do corpo ao mesmo tempo em que nos repele, um lugar paradoxal do erótico que esgarça todos os limites do que se pode imaginar como saudável. George Bataille dizia que era no mal que esculpíamos os traços efetivamente humanos de nossa fisionomia. Em Sade isso é extremo.

Quase um século depois o austríaco Sacher-Masoch entra nessa tabelinha da perversão com Sade. Menos famoso que seu coirmão Francês, mas não menos transgressor, a metonímia do masoquismo escandaliza a Europa com o seu Venus im pelz ou Vênus das peles. A Vênus dominadora de Leopold é Wanda von Dunajew, que tem como escravo sexual Severin von Kusiemski. Todas as imagens clássicas da submissão masoquista estão nesse livro: o chicote, a bota de cano longo e saltos finos, os espartilhos, roupas justas de couro, as cordas, as amarrações, a violência verbal e física. O livro gerou várias adaptações para o cinema, para os quadrinhos, e influenciou até o rock, Venus in furs do Velvet Underground é claramente inspirada em Masoch, eu não esperava nada menos do saudoso Lou Reed.

Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly.
Strike, dear mistress, and cure his heart.

A Vênus em pele torna-se a dona do homem, invertendo os papéis mais comuns à época. Mais que dona aquela mulher é senhora daquele escravo e pode fazer com ele o que quiser. Em Senhora, de José de Alencar, vemos essa inversão de papéis sociais. Uma dama rica compra o casamento com um homem através do dote, mas não há menção de qualquer perversão sexual. Na literatura brasileira isso aparecerá em Dentro da noite, o livro mais bizarro de João do Rio, povoado pelas mais estranhas aberrações sexuais retiradas de um manual de patologias sexuais. Mas, politicamente, é o livro de Sacher-Masoch o que vai mais longe. Depois de toda a experiência violenta do casal, Wanda se apaixona por um homem ao qual quer se submeter e Severin se cansa de ser escravo. Os dois separam-se com o outrora escravo chegando à conclusão que: “A moral é que a mulher, tal como a natureza a criou e como o homem a educa, é sua inimiga, podendo tão-somente ser sua escrava ou sua déspota – jamais sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho for igual a ele”.

Tirinha do Adão Iturrusgarai
‘Maria Erótica’ é uma criação de Claudio Seto, publicada entre 1970 e 1972
Depois de toda a relação hiper-sexualizada do casal o austríaco masoquista chega à conclusão que a saída para uma vida de casal com companheirismo é a igualdade de gêneros, mesmo que ainda esteja preso a conceitos bem oitocentistas como nascimento e berço.

Na volúpia da literatura brasileira quem me parece ir mais longe ao abordar estranhas perversões é Hilda Hilst. Há um poema em particular que me faz sempre tontear entre o tesão e o asco. Hilda aborda com coragem e desenvoltura um tema muito delicado: o sexo na infância. A escritora vai longe em suas sacanagens ao transformar fábula infantil em putaria maravilhosa, transgredindo e extrapolando as fronteiras. O poema “Filó, a fadinha lésbica” pode chocar alguns por sua linguagem infantil mesclada com fortes imagens de lesbianismo explícito. 

Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até…
Que escarafunchava bonecas.

Talvez possa parecer aos mais desatentos e reprimidos uma apologia à doença que é a pedofilia. Mas embora o poema tangencie esse assunto vale lembrar aos moralistas de plantão que a literatura é espaço de pensamento e fantasia materializada em letras e não em ações, e que por isso é possível falar de estupro, assassinato ou pedofilia, sem que isso seja uma apologia a estes gestos abomináveis.

Faço também outra leitura do poema e, como já havia dito no primeiro artiguinho dessa série, prefiro sexo à violência e acredito que Hilda também prefira assim. No lugar da violência das fábulas para crianças dos irmãos Grimm, nas quais transbordam assassinatos, prisões, privações e sofrimentos que são impostos aos pequenos, aparecem na longa fábula da fada de Hilda o sexo e a delícia do prazer em símbolos e linguagens infantis. Se podemos relacionar infância e violência porque não infância e sexualidade?

Há que se experimentar a potência política do sexo, seus prazeres e suas perversões como dinâmicas sociais que vivemos no corpo. É preciso também denunciar sempre os abusos, mas o que não podemos fazer nunca é deixar esse assunto interdito, como se fosse algo apenas restrito ao estranho mundo dos corpos no escuro.

Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 05/05/2014 por em Domingos Guimaraens.
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