ORNITORRINCO

DA INCERTEZA DE SER EU A TODA HORA E TODO MOMENTO

Uma vez quando fui fazer/ter uma dessas experiências esotéricas para me conhecer melhor, desvendar segredos da minha pessoa através do outro, dos céus, da lua, do i-Ching, deparei-me com duas situações diferentes, duas informações que me marcaram bastante, ambas transmitidas por homens. A primeira era que eu tinha que aprender a relaxar, que eu tinha a mania de controlar tudo. É verdade, tenho. Tenho tendência a querer encontrar as certezas, estudar situações até encontrar as verdades absolutas. Acho que me movo no preto e branco, não entendo isso dos cinzentos. Essa coisa tão inerente ao brasileiro de deixar fluir é algo com que me debato bastante, pra mim é muito difícil. Gosto do constante, do certo, do branco ou do preto.

Acho que como espécie ainda tendemos muito para a segurança da constância e consequentemente do controle. Por isso criamos códigos de conduta, etiqueta, instituições, nacionalismos. A incerteza é algo que nos deixa muito inseguros, a incerteza sobre nós, sobre o outro.

Outro dia, ao por pela primeira vez uns tênis, lembrei-me imediatamente do primeiro dia de aula na escola nova de quando eu tinha 13 anos. Lembro-me do mesmo sentimento ao andar, os pés desconfortáveis no sapato ainda não moldado, e aquele sentimento de que toda a gente vai perceber que os meus sapatos são novos pela maneira tosca que estou a andar, e ninguém vai querer falar comigo. Não posso negar que ainda hoje, adulta, nos primeiros 15 minutos em que andei com tênis novos aqui em São Paulo, fui atacada pela mesma insegurança, achando o tênis branco demais, os meus pés grandes demais, as pessoas me olhando esquisito.

Enfim, aos poucos vou entendendo que a vida é mais em tons cinzentos. Eu própria que sempre me achei e sempre lutei para ser tão preto-ou-branco, descubro em mim vários graus de cinzento. E isso me leva à segunda informação que me foi transmitida, que era que eu não sou uma, mas três. Ou seja, eu não sou apenas eu, sou eu + eu + eu. Isto só veio confirmar uma suspeita que temia a um tempo: a inconstância vive dentro de mim. A única certeza é que sou várias (naquela altura era três, hoje começo achar que sou 4 ou 5), é incerto quem sou eu a toda hora e a todo o momento. É muitíssimo irônico que eu, aquela que tende a controlar, que tende para a constância, nem em mim própria consigo aquilo que prego.

O melhor é mesmo mudar de doutrina. Na verdade é necessário. Reparo isso não só comigo mesma, mas mesmo com os outros. Estamos tão habituados a constância dos outros que quando eles agem de uma maneira que não a deles é o fim do mundo. Sou uma pessoa muito alegre e sempre que fico calada ou fico mais introspectiva, é um choque muito grande para os outros à minha volta, eles ressentem-se muito e às vezes culpam-se. É preciso aceitar a incerteza para aceitar o outro melhor e para se aceitar melhor. Perceber que não somos seres encafuados dentro de um quadrado, que mudamos constantemente e constantemente aprendemos e crescemos para fora das bordas.

Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.

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Publicado em 02/05/2014 por em Sahara Boreas.
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