ORNITORRINCO

UM E-MAIL PARA REGINALDO PUJOL FILHO


———- Mensagem encaminhada ———-
De: gabriel pardal
Data: 30 de abril de 2014 19:20
Assunto: Re: News
Para: Reginaldo Pujol Filho

Pujol, caramada

Como andam as cousas por aí? Hoje por aqui está caindo uma chuva chata e preguiçosa que somada aos 9ºC de temperatura faz com que seu corpo deseje ficar debaixo do edredon lendo um livro ou assistindo um filme até o dia dar um 360º de novo. Infelizmente não foi o que aconteceu comigo. Acabei de chegar de um almoço reunião com um produtor de televisão daqui. Almoçamos no The Dutch que fica há uns 45 minutos à pé de onde moro. Gosto de fazer tudo andando. Poderia ter pego um ônibus ou um metrô, mas prefiro andar. O incoveniente é que essa chuva atrapalhou os meus passos. É aquela coisa: chegar em casa, tirar a roupa molhada, trocar de meia, colocar pra secar e vestir um pijama quente. São 6h34 PM e ainda está claro lá fora. Deu uma vontade de passar num café e comprar um chocolate quente e um cupcake de banana com cenoura – entre todos os que experimentei esse é disparado o melhor –, mas com toda essa pré-produção (vestir dois casacos, calçar as botas, sair de guarda-chuva) dá uma preguiça danada.

Mas vamos ao que interessa. Vim para Nova York com o objetivo de estudar Creative Writing, Personal Essays e TV Writing. Além disso também vim planejando começar o rascunho de um romance que venho fermentando na cabeça há algum tempo. Minha namorada mora e estuda aqui, e matar a saudade dela, claro, foi o principal combustível deste voo. Caso você nunca tenha vindo pra cá antes, é tudo o que provavelmente você já sabe e/ou imaginou. A cidade pulsa. Ela é atraente, intuitiva e agregadora. Atraente porque sua arquitetura embeleza a paisagem, você pode passear pelas ruas sem se cansar. Intuitiva porque é fácil se localizar e se transportar pelos lugares. E agregadora pois são os estrangeiros que moram e trabalham por aqui que fazem a cidade funcionar. Por isso e por tudo mais, é muito inspirador sair por aí e ter uma conversa com estranhos, ou visitar um museu, uma galeria, ou simplesmente ficar sentado no parque olhando a estação brotar.

Logo quando cheguei aqui decidi conhecer os lugares por onde Bob Dylan passou com o objetivo de escrever um mega ensaio sobre o bardo e a cidade de NYC. O texto foi publicado no ORNITORRINCO e toda a experiência que tive em sua busca serviu para me estabelecer na cidade.

Os americanos desenvolveram uma série de manhas 
e truques e métodos para otimizar suas criações. 
Muito do que tenho aprendido nessas aulas é sobre 
criar uma disciplina para criar. Como preparar o terreno 
para que a inspiração faça o trabalho fácil. 

As aulas de escrita que estou fazendo se dividem em dois momentos. O primeiro é na sala de aula, com o professor expondo seu conhecimento, os alunos discutindo os temas e cada um contando suas experiências. O segundo momento é em casa, colocando em prática o que foi aprendido, fazendo o homework que deverá ser apresentado na aula seguinte. As aulas de Creative Writing são formadas por pessoas que trabalham em diversas áreas, escritores, jornalistas, designers, músicos, artistas plásticos, todos tentando impulsionar suas habilidades na escrita. É com toda certeza a que mais estimula a criatividade na invenção, pois essa mistura gera diferentes registros em literatura. Imagino que você saiba do que estou falando, o curso de Escrita Criativa é muito popular aí em Porto Alegre, não é mesmo? Bom, o gênero Ensaio é um dos meus favoritos, por isso decidi fazer o curso de Personal Essays. Como sou obcecado pelos ensaios do David Foster Wallace, Jonathan Franzen, John Jeremiah Sullivan e Geoff Dyer, todos eles americanos (exceto o Dyer que é inglês), acertei em cheio quando decidi estudar esse gênero por aqui. O curso trata de lhe ensinar a extrair o seu ponto de vista das coisas, como reconhecer a sua verdadeira opinião e colocá-la no papel de forma natural e pessoal. Como já faz um tempo que tenho sido mais um leitor de não-ficção do que ficção, essas aulas são as minha favoritas. Já o curso de TV Writing foi um tiro no escuro que deu certo. Não tenho nenhuma experiência em escrita para TV, mas com o sucesso das séries americanas, supus que seria uma excelente oportunidade. É uma das aulas mais surpreendentes. Saio com a cabeça pesando de novas informações. O professor é uma máquina, fala muito rápido, muito empolgado e engraçado, trabalha há 20 anos escrevendo para programas de TV e suas aulas são cheias de exemplos que todo mundo conhece, fofoca do meio, política dos produtores, é muito dinâmica e divertida.

Uma das coisas que posso tirar de letra da minha percepção sobre tudo isso é que os americanos desenvolveram uma série de manhas e truques e métodos para otimizar suas criações. Muito do que tenho aprendido nessas aulas é sobre criar uma disciplina para criar. Como preparar o terreno para que a inspiração faça o trabalho fácil. Esses estudos podem ser resumidos naquela frase – que alguns dizem ser do Albert Einstein, outros do Silvio Santos, e tenho a leve convicção de que é do Compadre Washignton – “A criação é formada por 10% de inspiração e 90% de transpiração”.

Esse conceito parece fazer brochar toda a graça do movimento artístico, mas é o contrário. Criar seu próprio método, ter a sua disciplina, estipular limites e prazos é o que faz a ebulição acontecer. Na criação artística a liberdade pode ser um problema, porque ela dissolve o que precisa ser contraído e concentrado.

Uma outra coisa que tenho percebido é uma certa vantagem que tenho em cima de alguns americanos com quem divido as salas de aula. Por ser brasileiro, latino-americano, falar português, manjar espanhol e ser fluente em inglês, pude durante toda a vida apreciar trabalhos originados em diferentes culturas, aumentando assim o meu imaginário, minhas referências. Os leitores daqui se importam menos com o que é produzido fora dos EUA, e muitos deles desconhecem totalmente (na última aula falei de Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca, ninguém conhecia). Parece meio desperdício de vida alguém não conhecê-los, nem nunca ter lido Cortázar, Borges, García Márquez, Fernando Pessoa, Machadão (citando os clássicos), e sem saber que agora estão vivos Gonçalo M. Tavares, Marcelino Freire, Paulo Scott, Alejandro Zambra, você. Tenho me destacado entre os meus colegas e credito esse resultado por esses motivos.

Bom, vou chegando ao fim. Desculpa te encher com esse maiúsculo e-mail, é que também tenho sentido falta de escrever em português. Tenho saudades de falar nossa língua, ultimamente só utilizo para poder falar com minha namorada, com amigos na internet e para cantar as canções tropicais. Aproveitei seu e-mail para na resposta poder escrever em português again. Não há língua mais gostosa de digitar nesse teclado.

Beijo no abraço


Gabriel Pardal
http://www.gabrielpardal.com
http://www.ornitorrinco.net.br

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 01/05/2014 por em Gabriel Pardal.
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