ORNITORRINCO

SOBRE MULETAS E EPÍGRAFES

Nos últimos meses recolhi uns poucos temas bem específicos para dissertar sobre, por isso já começo esse texto pedindo perdão. Se não estou por aí a falar das maravilhas islandesas, por exemplo, provavelmente estou monologando sobre o “Casa”, meu próximo livro que já tem nome, mas ainda carece de alguns poemas para ficar pronto. Além do título e dos poemas faltantes, “Casa” tem também duas partes. A primeira está pronta e a segunda não. As duas partes, ao longo do processo de maturação do livro, que tem um ano e meio quase, ganharam epígrafes nesse período. 
Para melhor afeição ao vocábulo chave desse texto (tão caro ao mundo dos escritores), vale recorrer ao dicionário de termos literários para deixar de dúvidas. Pois bem, o dicionário explica que modernamente as epígrafes servem aos livros como “lema ou divisa”, e complementa: “A epígrafe obedece não só a imperativos da moda como a tendências ideológicas e subjetivas: de certo modo, basta o seu exame para nos fornecer uma ideia da doutrina básica de um poeta ou romancista, o seu nível cultural, etc.”

A tentativa de abarcar todas as possibilidades de casa, 
seja ela uma pessoa, um trem, uma cidade, um vulcão, 
uma ilha, um chope. É a percepção de que a casa é o mundo, 
de que o amor/casa é um conceito que se expande, feito o universo.
Pois. Meu primeiro livro que, pouco espertamente chama-se “O primeiro voo”, possui de epígrafe um pensamento anotado por Leonardo da Vinci sobre sua máquina de voar que nunca voou. Para meu azar, pouco tempo depois “O código da Vinci” virou um dos maiores best sellers mundiais, e meu primeiro livro, que já deixei desmamar por desgosto logo que saiu da gráfica, caiu no terrível limbo das tendências-ideológicas-e-subjetivas que nunca mais voltei a crer na vida. É bem possível que a epígrafe seja muito responsável por esse desamor com o livro, além dos poemas, claro. Mais recentemente, há dois anos, publiquei “Mulheres feias sobre patins”, um livro repleto de “kkk” e versos mais sarcásticos do que, digamos, originais. Por conter apenas 17 poemas, a função da epígrafe no “Mulheres…” foi bem sucedida, pois, sendo duas num livro tão pequeno, serviram (na minha cabeça) de desculpa para que o invisível talvez inexistente público pudesse, à sua vontade, abrir novas possibilidades de interpretação, o que garantiria um voo mais longo para esse projétil poético de pouco fôlego. Tomara. 
O leitor já deve ter percebido a falta de carinho do autor pelos seus livros. Sim, é verdade: não gosto deles e não é charme. Porém, com o “Casa” a coisa parece ter mudado de figura. O livro tem se tornado, ao longo da gestação, meu objeto de predileção. Tanto que, como disse no início, tenho monologado bastante sobre ele, o que é coisa rara pois não sou de falar por aí e muito menos de falar do que tenho escrito. E o carinho por ele é tanto que este texto é sobre as epígrafes que não estarão no livro. Veja só em que maçada você se meteu, leitor que nunca leu um verso meu.
O livro teria três epígrafes, duas para a primeira parte e uma, maior, para a segunda. Foi quando encontrei a terceira das citações que o projeto de enchê-lo com elas foi descartado. A poeta Matilde Campilho, esta força da natureza, comparável somente às quedas d’água da Islândia, me veio com a punchline demolidora. Mostrei a ela outro dia, como de costume, os avanços do livro, entre eles a nova epígrafe. Ela sentenciou: “é muito bonita a frase, sim. Mas acho que epígrafes são como muletas. E você já não precisa de muletas”. Não soube por um segundo se agradecia ou se chorava. Depois de pensativa pausa dramática, respondi: “Você tem toda razão”. Destituídas ou não, as três epígrafes são ainda as vigas, mesmo que ocultas, para que a casa fique de pé, mesmo com essa metáfora fajuta de casa e vigas. A primeira delas é da poeta paulista Julia de Souza que em março desse ano, 2014, publicou na revista Piauí o belo “Poema para esgotar a casa”. O poema inteiro é assombrosamente uma espécie de comentário – quase um prefácio – do livro, mesmo a poeta desconhecendo por completo o meu projeto literário. Entre as diversas passagens que remetiam as entrelinhas da primeira parte de “Casa”, como: as ambiências claustrofóbicas de alguns dos textos (“que a casa seja um aquário / seja um museu”), ou da única narrativa possível a ser feita é aquela a partir de dentro da casa (“já é impossível pensar / o mundo sem a mediação / da casa”) e até da relação da casa com a ruína (“é preciso interditar a casa / deixar que o mato a engula / cresça sem rodeios”), foi o verso posto entre parênteses, recurso frequente nos poemas da Julia, “(teria sido preciso esgotar o tema da casa)”, o mais acertado como primeiro mote do livro.
Por que “Casa”? A primeira imagem que me veio agora para explicar o título do livro é a do retorno de Ulisses para os braços de Penélope, para a casa, o leito dos dois feito do tronco maciço de uma árvore centenária, representando a solidez e a profunda raiz do amor entre eles. Acontece que mesmo depois dos dois best sellers que nunca deram dinheiro para Homero, diz o mito – a revista de fofocas de então – que Ulisses e Penélope, como qualquer casal do século XXI, também pediram arrego e se separaram. O que foi feito daquela cama feita de tronco maciço? Dos móveis da sala? Como dividir de forma justa tantos jarros gregos? Ninguém sabe, ninguém contou. Como diz a Julia, teria sido preciso esgotar o tema da casa, mas não deu. Os mitos gregos, despedaçados, não deram conta do recado. O que nos chegou foi o rumor da vida de solteiro de Ulisses e Penélope disperso entre escritos milenares com qualidade inferior a homérica. Miriam Sutter, minha professora de cultura greco-latina da graduação, deve saber. Eu talvez soubesse, não sei mais. 
Essa incapacidade de contar os capítulos finais de uma casa, o espaço entre o abandono dela e a transformação desse abandono em ruína e dessa ruína em patrimônio imemorial – tal como o que nos sobrou da arquitetura grega – é um dos pontos de Roland Barthes no seu inescapável “Fragmentos de um discurso amoroso”. Lá, ele diz:

Não posso eu mesmo (sujeito enamorado) construir até o fim minha história de amor: sou seu poeta (o recitante) apenas quanto ao começo; o fim dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; a eles cabe escrever esse romance, narrativa exterior, mítica.

Pois bem. A primeira parte de “Casa” corre afobada para dar cabo à história dessa casa do poema, dessa casa mítica, vamos dizer. Há insinuações estranhas de que o final está perto, mas a coisa termina insuficiente. Surge então a necessidade de evocar o autor da segunda epígrafe, que acompanharia o verso da Julia de Souza nessa primeira parte: senhoras e senhores, Albert Camus. O argelino em 1937 escreveu a seguinte passagem em um de seus cadernos/diários:

Aedificabo et destruam [Edificarei e destruirei], diz Montherlant. Eu prefiro: Aedificabo et destruat [Edificarei e que se destrua]. A alternância não vai de mim para mim mesmo. Mas do mundo para mim e de mim para o mundo. Questão de humildade.

Deixando de lado a falsa humildade do ganhador do prêmio Nobel, percebe-se que Camus pensa da mesma forma que Barthes em relação ao perecimento da casa/amor: o que vem depois não diz respeito a quem construiu, pertence aos outros, ao mundo lá fora. Edificarei e que se destrua. Para dar continuidade a esse roteiro possível do meu livro de poemas, agora com a casa da primeira parte já demolida, foi necessário não confrontar as observações de Barthes e Camus, não criando um trajeto funéreo de um eu lírico carpideiro a espera milenar da transformação da casa abandonada em ruína protegida pela Unesco. A segunda parte tornou-se uma diversidade de começos e tropeços, uma tentativa de abarcar todas as possibilidades de casa, seja ela uma pessoa, um trem, uma cidade, um vulcão, uma ilha, um chope. É a percepção de que a casa é o mundo, de que o amor/casa é um conceito que se expande, feito o universo. E existe uma beleza devastadora nesse lugar total que acaba sendo lugar nenhum, que a terceira e última não-epígrafe do livro diria:

But she is sitting in my place / devastating beauty in my place / and I’m absent from the place I ought to be [Mas ela está sentada no meu lugar / uma beleza devastadora no meu lugar / e eu estou ausente do lugar em que deveria estar].

Esses três versos são da canção “The Heart Knows Better” do disco Blemish de David Sylvian. Um dos meus discos prediletos – e preciso dizer, um dos melhores discos feitos na década de zero –, Blemish, vejam só, foi composto e gravado durante o mês em que Sylvian desmontava sua casa, depois de um longo relacionamento com a poeta, compositora e fotógrafa Ingrid Chavez. Estar ausente do lugar em que se deveria estar é estar em todos os outros lugares. Retomando a querida Matilde, não há muletas possíveis que acompanhem tamanha expansão. As epígrafes são os sinais espalhados por todos esses outros lugares. Toda casa será ruína. Toda ruína conta o início de uma história.
Mariano Marovatto é poeta, compositor e músico.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 30/04/2014 por em Mariano Marovatto.
%d blogueiros gostam disto: