ORNITORRINCO

BANANA, FUTEBOL E POESIA – POR UMA ERÓTICA DO TEXTO

Nessa última semana o assunto foi a banana. No campo, na boca, na camisa, no instagram. Lançaram uma banana no Daniel Alves e ele, de bate pronto, catou, descascou e comeu. Um esporte vive também desses gestos que acontecem fora do jogo e dão sentido ao lúdico que está dentro da palavra jogo. Ao comer a banana, jogada pelo racista que o chamava de macaco, Daniel Alves realiza um gesto poético de muita potência, antropofágico, querendo ele ou não. Sua declaração, ao final da partida, não foi uma citação de Oswald de Andrade, foi apenas: “Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados.” Seu gesto foi bem mais profundo que suas palavras e bem mais transformador também. Não tivesse comido a banana teria o torcedor racista do Villareal sido descoberto? Teria ele sido banido pra sempre dos estádios e do quadro de sócios do clube?

Sempre acreditei que a poesia é mais potente do que o discurso direto. Mesmo que nada tivesse acontecido com o torcedor idiota que lançou a banana, o gesto de Daniel Alves já teria sido uma sapatada de fora da área na gaveta. Esse gesto tem tudo a ver com a história do Barcelona, o Camp Nou (campo novo) deveria se chamar campo da resistência, pois foi um dos poucos lugares da Espanha onde se podia falar catalão durante a longa e tenebrosa ditadura do general Franco. No fim do jogo, Neymar, companheiro de clube e parça do Daniel, postou uma foto com seu filho David Lucca. O pai segura uma banana de verdade e o filho uma de pelúcia. A hashtag #somostodosmacacos bombou.

Daniel Alves comendo a banana jogada no campo

Os elogios vieram, mas as críticas vieram aos montes também. Alguns diziam que comer a banana não adianta nada, que escrever #somostodosmacacos é uma babaquice e que nada disso é uma porrada no racismo de plantão. Não vou perder meu tempo falando da capitalização do pessoal que fez a camisa em cima da história e já está vendendo por uma grana num site. Acho isso por demais estúpido e desmobilizador. Mas as críticas que vieram, mais ao Neymar que ao Daniel, me deixaram um pouco surpreso. Surpreso pela falta de capacidade de interpretação poética de todo o ocorrido.

Foto no Instagram do Neymar

Quando falo de interpretação poética não falo de flores, crepúsculos e virgens cismando de amores, falo de uma erótica do texto, algo que transcende a comunicação direta da linguagem e entra em nossas cabeças por caminhos e frestas destravados de nossos preconceitos e armaduras cotidianos. Quando Neymar diz #somostodosmacacos ele não está sendo racista e sim nos colocando a todos dentro de uma mesma categoria, nos (con)fundindo, eliminando diferenças. Ao mesmo tempo incorpora o que o racista chama de xingamento transformando-o em símbolo de luta. Não foi assim que a torcida do Flamengo fez com o urubu? Ou com a música “Ela, ela, ela silêncio na favela” que virou “festa na favela”? Não foi incorporando o pó de arroz ao seu ritual de arquibancada que o Fluminense jogou fora seu passado racista? As torcidas de futebol, quando conseguem se afastar da violência, produzem incríveis peças poéticas, principalmente quando antes aquecidas pela velha arquibancada coletiva de cimento do velho Maracanã, e menos agora nas cerceadoras cadeirinhas individuais de garrafa pet reciclada da nova arena.

Otavio Paz, no seu livro “A Dupla Chama”, traça uma diferença entre o ato sexual e o ato erótico. O ato sexual é o sexo feito entre um homem e uma mulher com o objetivo da procriação. O ato erótico é o sexo pelo prazer, sem necessidade da reprodução como um fim, podendo ser praticado por um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres, por um coletivo numa suruba de delícias ou até entre espécies diferentes. Assim também se dá com a linguagem que, a princípio, existe com a finalidade de comunicar. Mas a poesia aparece como o erotismo da linguagem, podendo servir a esse fim, mas sendo muito mais o prazer da língua do que seu uso utilitário. Ironicamente é justamente neste campo da erótica do texto que conseguimos transcender a comunicação direta e falar muito mais do que conseguimos num blá, blá, blá como esse daqui.

Sempre acreditei que a poesia é mais potente do que 
o discurso direto. Mesmo que nada tivesse acontecido 
com o torcedor idiota que lançou a banana, o gesto de 
Daniel Alves já teria sido uma sapatada de fora da área na gaveta.

Foi assim com Dani Alves que ao comer a banana realizou uma performance poética que emasculou o racista, entortou os zagueiros e derrubou o goleiro do preconceito, deixando ele na cara do gol para, como um dia fez Garrincha, dar meia volta só pra ter o prazer de driblar de novo todos esses idiotas da objetividade.

O xingamento “macaco”, que envolve o lançamento de bananas, vem de uma ideia ultrapassada. A teoria da evolução segundo Lamarck é diferente da de Darwin. Para Lamarck o homem é descendente do próprio macaco e o africano, negro, uma espécie de elo entre macaco e um europeu super evoluído. Darwin inspirou-se em Lamarck, mas jogou por terra essa ideia e construiu a imagem de um ancestral primata comum que se ramificou em diferentes braços de onde saem os homo sapiens e os diversos macacos que existem por aí. Com isso Darwin nos diferencia no presente, mas nos remete a um ancestral igual. Talvez a hashtag mais correta, darwiniana, fosse #somostodosprimatas. Mas aí a estratégia de incorporar o xingamento, feita mesmo que sem querer por Neymar, não teria efeito: #somostodosmacacos no sentido de que somos todos iguais, somos todos o macaco original do qual viemos, a trilobita primeira, a poeira de estrela inicial. TAMO JUNTO NESSA PORRA PARCEIRO!

Apesar disso somos seres complexos cheios de diferenças marcadas nos olhos, nos cabelos, nas peles. Diferenças que podem se unir, misturar-se, recombinarem-se em infinitas formas e tonalidades numa erótica da vida. Infelizmente ainda não somos todos macacos. Há os que enxerguem essas diferenças como algo que nos deprecia. A esses o meu mais profundo repúdio. Aos que devoram o preconceito com a potência do Eros da poesia minha mais profunda admiração.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 30/04/2014 por em Domingos Guimaraens.
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