ORNITORRINCO

A ESPUMA DOS DIAS

O filme “A Espuma dos Dias”, de Michel Gondry (“L’Ecume des Jours”, 2013), faz referência a liquidez da pós-modernidade já no título. A adaptação do livro surrealista de Boris Vian para as telas explora o universo das metáforas com todos os recursos que o audiovisual oferece. O filme se divide em duas partes, a primeira sobre o romance e a segunda sobre a degradação da vida (não só através da morte).

Colin é um jovem despreocupado, herdeiro de uma fortuna com a qual sustenta seus pequenos caprichos sem que precise trabalhar. Ocupa-se em invenções, conversas filosóficas e fartas refeições, na companhia de seu amigo Chick (leitor assíduo do fictício Jean-Sol Partre – em alusão a Sartre), e seu administrador-conselheiro (e cozinheiro, nas horas vagas) Nicolas. Ao descobrir sobre as aventuras amorosas de seus companheiros, decide que o elemento que falta em sua vida é o amor. A busca por uma parceira parte de uma decisão (e não de um sentimento), ao perceber que seus amigos estão um passo a frente nesse quesito: um desejo lhe foi socialmente introjetado. Com o auxílio de Chick e Nicolas, e algumas convenções sociais, apaixona-se por Chloé, com quem explora uma romântica e metafórica Paris. Casam-se – após alguns obstáculos implantados por uma gananciosa igreja – e partem em uma animada viagem de lua de mel, na qual Chloé começa a desenvolver uma doença rara: o nascimento de uma flor de lótus em seu pulmão.

A partir de então, o filme passa a ganhar novos aspectos, desenvolvendo-se em uma atmosfera gradativamente opressora. Não só a vida de Chloé vai se esvaindo, mas a de todos ao seu redor. Colin vê-se obrigado a trabalhar, muitas vezes em condições degradantes, para financiar o tratamento indicado pelo médico que, encantado pela beleza de Chloé, não demonstra muita confiança e certeza em seu diagnóstico. Chick desenvolve um vício incurável em Partre, gastando todo o seu dinheiro em livros do autor e drogando-se com as palavras do filósofo (literalmente, através de livros no formato de pílula e outros aparatos). Sua namorada frustra-se com essa obsessão e o casal encontra a morte após uma série de eventos envolvendo uma polícia invasiva e despreparada, e uma arma arrancadora de corações. Ao final, Chloé morre tomada pela flor em seu pulmão, em um apartamento descuidado, sujo e apodrecido, cujos espaços foram estreitando-se ao longo da doença, acompanhando o fim da vida. O filme termina em preto e branco.

As metáforas que inicialmente acrescentam um ar de fantasia ao romance – como na felicidade do casal que se encontra “nas nuvens” em um passeio de teleférico no primeiro encontro, e em sua saída flutuante da igreja após o casamento – refletem um negativismo existencialista (típico de Sartre, a quem se faz referência ao longo de todo o filme) na segunda parte da obra – por exemplo, no desgaste do conselheiro e ajudante Nicolas durante a doença de Chloé: o amigo envelhece fisicamente e seu passaporte passa a registrar alguns anos a mais.

O filme é permeado por fortes críticas sociais, mais claras na segunda parte. Há uma igreja que se aproveita do desejo de seus fieis de cumprirem todos os rituais e convenções sociais (casamento, velório). O medo imposto pela religião submete o indivíduo aos abusos dessa igreja, mais interessada no dinheiro do que na propagação da fé. Há uma polícia que reprime com arma de fogo qualquer atentado à ordem, como a conturbada entrada de intelectuais na palestra do filósofo Partre. Há patrões mais atentos à produtividade do que ao bem estar de seus funcionários. E, finalmente, há o paradoxo da banalização da morte, desde o início do filme, em que figurantes morrem sem que seja dado um mínimo de atenção ao fato: uma improvável fatalidade na pista de patinação, ou um acidente de trabalho em que um dos funcionários entorpecia-se e distraia-se do gerenciamento das máquinas. Isso reflete um descaso do sujeito individualista com o Outro e uma vulgarização da morte, percebida nessa sociedade como um evento comum, até que bata a sua porta, tornando-se então absolutamente aterradora. Quando a iminência da morte atinge Chloé, a vida de todos ao seu redor começa a desandar, inclusive do pequeno rato que habita a casa de Colin.

Gondry cria ainda um cenário inusitado onde a própria narrativa é escrita. Máquinas de escrever deslizam por longas mesas passando por diferentes funcionários que digitam, indiferentes, frases da história que estamos assistindo. A tentativa de intromissão do personagem nesse espaço é repreendida e ignorada, pois o curso de sua vida já está traçado. O indivíduo é então o sujeito de uma história, e não de sua própria vida, história essa desde o princípio amarrada à sociedade e suas patologias. Uma espécie de determinismo (ou o próprio existencialismo) perturbador, para o qual Gondry nos chama a atenção, numa possível tentativa de nos libertar.

Nina Solo é pós-graduanda no curso de Jornalismo Cultural da UERJ

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Publicado em 29/04/2014 por em Nina Solon.
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