ORNITORRINCO

RIO DE JANEIRO, MINHA CIDADE MULHER, MEU INFERNO, MEU NIRVANA

O Rio de janeiro sempre foi pra mim uma cidade feminina, cheia de curvas sinuosas na linha do céu de suas montanhas, nas viradas imprevisíveis das marés, nos mistérios das religiões dos tambores dançantes. Uma mulher incrível esse Rio de Janeiro. Daquelas que você se apaixona num salto no vazio, de olho fechado, sem paraquedas. Mas ela não é uma mulher confiável. É linda, inteligente, cheia de swing e um tesão, mas não te segura no meio do voo, deixa você se esborrachar lá embaixo e ainda ri, com um sorriso cruel e encantador. Ela te maltrata todo dia no trânsito, na violência, nos preços extorsivos. Você se revolta e diz que essa é a última vez, que não dá mais, que você vai terminar tudo e arrumar outra. Aí ao virar uma esquina ela te descobre e se mostra apaixonante como nunca, em imagens que te dizem que tudo vai ser diferente. Você, feito um idiota, acredita e se reapaixona. Impossível dizer não à Roma do terceiro mundo.

Num caminho de trem pra Madureira, passando pela cracolândia do Jacarezinho, uma espécie de apocalipse zumbi à beira dos caminhos de ferro, ela te maltrata. No aperto do trem velho, que enguiça sem ar condicionado, ela te humilha. Você chega a Madureira, coração cheio de mágoa. Você olha a igrejinha de São José no alto da Serrinha, tua capela é tão bela Enfeita o morro / Mas quem te pede socorro / Não é só quem vive lá. O som dos tiros é o áudio da cidade gemendo, com outro, no quarto ao lado. Traição! No estádio acanhado do Madureira, na Rua conselheiro Galvão “só se torce pelo Madureira”, está escrito na entrada. O sol te beija com calor e os surdos, as camisas do seu time. Depois do jogo o samba do Império e da Portela, a simpatia do pessoal do Mercadão de Madureira, com suas lojas de produtos de candomblé e umbanda ao lado das de vinho e peixarias. O viaduto com o baile charme que acontece embaixo, numa dança-transe que você nunca viu, a comida da feira das Yabás na praça Oswaldo Cruz. Você quer essa cidade com todo fervor.

Dia seguinte o centro é um purgatório. Você caminhando na aridez de obras que são pra Copa, pra Olimpíada, mas que não são pra você. Você não quer essas plásticas, esses silicones na mulher que você ama. Os pontos mudaram de lugar, não tem ninguém pra dizer onde tomar esse ônibus. Uma aglomeração se forma e na informalidade do ajuntamento cria-se um ponto. O pessoal se alastra até a primeira faixa dos carros, provoca um enorme congestionamento. Os coletivos são máquinas mortíferas, ruidosas, três pivetes entram pela janela, no calote. Você fica aliviado porque eles não estão atrás de você batendo o seu celular. Põe a mão no bolso, só pra se certificar, e ele não está mais lá. Será que foram eles? Quem foi? Você olha entre assustado e puto para todos os lados, mas ninguém se compadece da sua perda. No ônibus a trocadora, com enormes peitos apoiados na gaveta do dinheiro, te olha com cara de pidona e fala: “Oh meu amor, não tem menor não? Senta aí que eu não tenho troco”. Você nunca a viu na vida, mas ela já te chama de meu amor, diante de tudo isso aquele “meu amor” quase que te acalma e você senta num banco reservado para idosos. Uma velhinha entra e você pensa em fingir que está dormindo, mas se levanta e vai chacoalhando no chassi de caminhão que inventaram que é um ônibus. “Toma o troco meu amor, posso ficar te devendo 10 centavos? Só dessa vez, meu bem!”

O dia te massacrou, mas a noite vem cheia de canto de cigarras, sereias anunciando o verão, anunciando que existe a rua e que nela resiste aquilo que faz você amar essa mulher. No bar, na calçada, na praça, seus amigos se reúnem. Na esquina da Luis de Camões com Gonçalves Ledo a parede Gentil diz que é possível viver a cidade aberta no espaço. Você refresca a cabeça em um dos cinco chuveiros públicos que colocaram lá, sonhando com essa mulher molhada, com uma cidade que se permeie e se permita. Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco. E na Rua do Beco, nas bicicletas voando baixo, no coreto da Praça São Salvador, em frente ao painel do Nilton Bravo no ex-boteco agora bar chique do Leblon, um pessoal se encontra. Com todos reunidos, no espaço público democrático que ainda existe, mas que não param de lotear, você se reapaixona pela dama de São Sebastião.

Você volta pra casa pensando como tudo isso já foi. Antes de aterro, de demolições, de remoções, de poluições, com tupinambás, sem portugueses, sem franceses. Uma nostalgia do não vivido em meio ao aroma das damas da noite dos jardins cercados, ou será o perfume das damas do calçadão de Copacabana? Todas são filhas de Deus. E um redentor vermelho, estátua enorme no alto do corcovado, te abre os braços. Estranho o teu Cristo, Rio / Que olha tão longe, além / Com os braços sempre abertos / Mas sem proteger ninguém.

No jornal da manhã seguinte, o único que sobrou na cidade dos oligopólios, uma favela nova surgiu com milhares de pessoas que ocuparam um terreno privado abandonado. A polícia desceu o cacete como vem fazendo desde que o Rio é Rio de Janeiro e não só desde junho de 2013 quando a nossa galera também apanhou. A polícia apresenta suas armas, Copacabana vira um campo de batalha depois que mais um jovem, negro, funkeiro, bailarino é assassinado a sangue frio no Pavão Pavãozinho. Até quando?! O ódio te consome enquanto você toma uma dura e é filmado pelos policiais do Lapa Presente. Você quer quebrar tudo. Matar essa piranha que te maltrata.

De manhã, no morro perto da sua casa, você ouve uma batida de tambor meio macumba meio funk. Uma música inventada nas favelas, como um dia foi o samba. Ao som do tamborzão é uma fantástica falsa loira, com um corpo montanhoso talhado a operações plásticas, quem canta o poder da mulher, a força da buceta, sou cachorrona mesmo me late que eu vou passar. O sexo te envolve. A dança é toda da cintura pra baixo, não só no rebolado, mas também nos passos que agora não são mais do passista da Mangueira, são da batalha do passinho onde os moleques são sinistros. Tudo aquilo te deixa tonto. Um longo feriadão se aproxima, você tenta sair da cidade. Mas por preguiça, por falta de grana você acaba ficando. Vai à praia, que ainda é grátis, e com tão pouco, com uma areia branca, com uma montanha que são dois irmãos, com o mar iemanjá, você termina o dia novamente feito um idiota apaixonado entre o sol, o sal e o sul. Você tenta resistir, mas o tambor, o passinho, a praia.

Seu time vai jogar de novo no ex-maior estádio do mundo que foi depredado pela higienização dos novos padrões globais de estandardização. Você entra naquela arena genérica, com ingressos dez vezes mais caros, com dez vezes menos público. Ah se eu ainda pudesse fingir que te amo. E você quer dizer que não ama mais nada daquilo, que acabou, já era. Mas o Carlinhos é o último flanelinha honesto do mundo, a Alessandra sorri te vendendo um mate gelado e a bola vem cruzada da linha de fundo, uma cabeçada torta faz a ela bater no travessão, quicar na linha, aos 45 do segundo tempo alguém empurra ela pro fundo das redes e o estádio explode, naquele mesmo orgasmo da primeira trepada apaixonada. Você abraça o stewart, o novo segurança que veste um colete amarelo marca texto, e os dois se emocionam juntos, irmanados, como se tudo fosse perfeito. Quem pôde pagar aquele ingresso grita alto: Faveeeela, faveeeela, feeeesta na favela. Ninguém mais ali mora numa favela.

No dia seguinte o único jornal da cidade traz uma manchete totalmente desconectada da realidade, aquilo não é uma página de humor? Não, não tem graça. A festa de São Jorge, que todo ano leva barraquinhas e ambulantes pra igreja do santo, esse ano acontece cerceada, com a PM impedindo o pessoal de armar a barraca. O gol de ontem foi ilegal, mas valeu, o juiz não viu o impedimento. Ilegal, mas valeu. No futebol até tudo bem, ali é apenas o teatro da guerra. Mas na guerra do dia-a-dia não dá. Essa mulher cidade maravilha purgatório da beleza e do caos tá de sacanagem. Tem que ser tudo fora da lei, no jeitinho, num por fora?

E assim o verão vai caminhando e depois do ano todo na porrada você finalmente decide que não dá mais mesmo! Você senta pra bater aquele papo final, porém, doce e meiga, ela te diz: “Ohhh meu amor, você tá carente? Então vem cá que eu vou te dar. Vou te dar tudo do jeito que você gosta, do jeito que melhor eu sei fazer – quatro dias de todo prazer que existe nessa vida no meio do maior caos que qualquer inferno pode imaginar.” E você não se aguenta, vai com tudo! Quatro dias e uma eternidade depois você sai: cansado, deleitado, amassado, voando em sensações. E ela te diz: “aproveita, porque gostoso assim de novo só no ano que vem”. Mas é tão bom, tão psicodelicamente mágico, que você acha que vale a pena lutar pra ficar com ela mais um aninho.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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*Imagens: Montagem sob fotos de Felipe Mendes

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Informação

Publicado em 28/04/2014 por em Domingos Guimaraens.
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