ORNITORRINCO

GARCÍA MÁRQUEZ E O SÉCULO XX

Nasci em março de 1983. O século XX começava a se despedir, e sua coleção de fatos históricos, devidamente documentados, se apresentava, ao longo de minha infância e adolescência, como uma melancólica e deliciosa sombra sobre minhas referências e memórias de estimação – minha própria história, mas na qual não estive presente. Todo o porvir parecia importar menos do que as coisas que haviam acontecido nos oitenta e três anos anteriores a mim. Sempre amei o Século XX, me lambuzando na aura – palavra-chave – que ele impôs, ainda que como farsa, sobre nós. Em troca veio as saudades do que não vivi.

Nessa época, meu saudoso amigo Thomaz Lacerda e eu nos perguntávamos diariamente quando é que finalmente viveríamos um fato histórico de verdade. Ponderávamos sobre a queda do Muro de Berlim, que vimos, mas rapidamente concluíamos que não era suficiente; queríamos um daqueles momentos em que todos os habitantes da terra se sentem conectados, pelos quais pra sempre saberíamos dizer onde estávamos quando soubemos, como nossos pais com a morte do Kennedy, o golpe militar, a chegada do homem na lua ou o assassinato de John Lennon. 

Poucas pessoas fizeram tanto pela afirmação da perso-
nalidade latino americana recente quanto García Márquez. 
Ele mostrou que não era preciso continuar, de modo 
tão servil, desejando se tornar americano ou europeu 
para se sentir parte de uma história.

Assim que o segundo avião bateu contra o World Trade Center, na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, o telefone da minha casa tocou (ainda não tinha celular). Era o Thomaz, que me disse simplesmente: “Pronto. Aconteceu. Curte ai. Depois nos falamos”, e desligou. Sabia exatamente do que ele estava falando. As coisas seriam diferentes dali pra frente. Em se tratando de tempo, nada é absoluto, e é fácil imaginar uma criança nascida em 1883 lamentando não ter vivido as maravilhas daquele século que se encerrava, aguardando alguma coisa verdadeiramente importante por vir no insosso século XX que viria a começar. Mas, pra nós, foi suficiente: nos sentíamos finalmente assistindo a História. 

Quando soube da morte de Gabriel García Márquez, pensei no meu amigo Thomaz. Não sei se ele apreciava a obra do autor colombiano, mas sei o quanto colecionava fatos históricos, e admirava o século passado, que insiste em não terminar. Se estivesse vivo, aposto que Thomaz teria me telefonado no último dia 17. A morte de García Márquez é não só a morte de um herói, de um gênio, do maior autor latino americano que conhecemos, mas também mais uma morte do século XX – feito a confirmação da saudade de um amigo que já não está.

Poucas pessoas fizeram tanto pela afirmação da personalidade latino americana recente quanto Gabriel García Márquez. Sem jamais ignorar as mazelas do povo de cá, Márquez mostrou que não era preciso continuar, de modo tão servil, desejando se tornar americano ou europeu para se sentir parte de uma história – de uma personalidade – épica e profunda. A mesma coisa fez a Revolução Cubana, que ele tanto admirava. “Cem Anos de Solidão” provoca no mundo, ao menos pelo longo instante amorfo da leitura, o desejo de se percorrer as veias abertas da América Latina, como aprendizado e aventura. Pelos olhos de Márquez, temos o compromisso de nos tornarmos uma versão melhor de nós mesmos, sem veladamente desejar assumir outra personalidade – e pior: a de nossos opressores.

Quando digo nós mesmos, estou também falando de nós, brasileiros, ainda que não nos vejamos tanto como latino americanos. No entanto, para além da diferença de colonização e, logo, de língua, a raiz mais forte que nos liga aos nossos hermanos talvez seja justamente a história de opressão, subserviência, exploração e sobrevivência – física e cultural – da América Latina, que é peculiar a todos nós. Macondo também é aqui.

Quando um herói como García Márquez morre, é preciso 
beber. Se você não for de beber, que dê uma trepada, uma 
cambalhota, um grito ou qualquer outra coisa que nos expanda, 
que nos leve a uma epifania minimamente mágica e fora do usual.

“Cem anos de Solidão” foi o primeiro livro adulto que li. Imediatamente enlouqueci; comprei toda a obra do Gabo, e passei uma porção de meses imerso no universo fantástico que é o imaginário de nosso próprio continente. No entanto, ainda que “Cem anos…” seja a obra prima de Márquez, meu coração escolhe “Amor nos Tempos do Cólera” para levar pra uma ilha deserta. Ler a história de amor entre Firmina e Florentino foi uma das grandes experiências literárias de minha vida, justamente por ter sido uma das mais velozes: gastei uma noite somente, algumas horas sem tirar os olhos do livro pra nada, até chegar ao fim do Amor. O sol nasceu e, ainda inebriado pela viagem que tinha acabado de viver, eu era outra pessoa.

Quando um herói como García Márquez morre, é preciso beber. Se você não for de beber, que dê uma trepada, uma cambalhota, um grito ou qualquer outra coisa que nos expanda, que nos leve a uma epifania minimamente mágica e fora do usual. Nessas horas o Século XX volta a pairar sobre nós, como a lembrança de um período ainda cheio de aura e significado, em que pessoas, fatos, obras e gestos importavam mais do que os meios pelos quais recebemos tais notícias. Lou Reed também se foi recentemente e, me perguntando quantos desses raros personagens ainda vivem, me vi diante da estranha possibilidade da extinção dos heróis.

A máxima de Bertold Brecht sobre a tristeza de um povo que ainda precisa de heróis é certeira – talvez até demais, tal qual uma apocalíptica profecia às avessas. Oriunda da peça “Galileo”, escrita por Brecht no final dos anos 1930, a frase oferece uma revisão iconoclasta da redenção ilusória que o herói nos trouxe ao longo da história. Se há um herói, é porque ainda precisamos ser salvos, e nisso Brecht tem toda razão – não há salvação. No entanto, os dilemas e horrores do mundo seguem firmes. Só é possível ser iconoclasta quando há ícones. O jogo mudou, mas parecemos mais vazios do que nunca – será que assim se sentia o menino do final do Século XIX? Se o herói é um sintoma, mais triste ainda me parece ser um povo que simplesmente não os tem.

Depois de milhares de anos da história da cultura – e das incontáveis convulsões que nossa cultura viveu –, com a pulverização desse jogo, ganhamos a possibilidade de experimentar muitos talentos diversos, não mais sufocados pela figura centralizadora do ícone. Em troca, porém, temos o paradoxo de nos sentirmos vazios pela ausência do significado – ou da sensação de significado, ao menos – que esse um herói nos dava. Para além da nostalgia mera, o mundo mudou. A aura pode ter desaparecido com nossa reprodutibilidade técnica, e talvez nunca mais venhamos a viver o surgimento de um novo García Márquez – aparentemente o mundo não mais quer, não mais permite, não mais lucra com isso. Mas ainda precisamos de histórias, gestos e pessoas que importem. Adoraria saber a posição do Thomaz sobre as manifestações de Junho, a Copa do Mundo no Brasil ou as eleições por vir. Tenho certeza que chegaríamos ao menos a uma conclusão em comum: não há aplicativo do iPhone ou selfie no Facebook que sacie o anseio por significado de nossos corações e mentes.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 24/04/2014 por em Vitor Paiva.
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