ORNITORRINCO

INVENTADO O TELEFONE SEM FIO

Ah, mas vai ser maravilhoso.

Um dia – ouça, fonte segura mais intuição forte – vão acabar inventando um telefone que funcione sem precisar de fio e vai ser completamente maravilhoso. Não vamos mais ter que falar ancorados ao lado do bendito aparelho, limitados ao comprimento do fio como cães às suas coleiras; visualize, a coisa é séria, é a glória suprema: vamos poder andar pela casa ao mesmo tempo que falamos, ir à geladeira buscar um Danone, espiar a televisão, não vamos mais ter que pedir um minuto para ir ao banheiro, nem ter que alcançar o pacote de cigarros com os pés, ou com o cabo da vassoura que alcançamos com os pés para alcançar o pacote de cigarros, imagine a beleza de nossas vidas neste dia glorioso, o maravilhoso dia em que finalmente inventarão o maravilhoso telefone sem fio.

Mesmo que de início seja um sem fio que não possa se afastar muito da base: dentro de pouco tempo certamente este defeito seria reparado e – mais ou menos quando o ato de alcançar a geladeira tiver começado a parecer muito pouco – vão acabar por inventar um sem fio com fôlego para bem mais além que o quarto ao lado.

Talvez a distância existente entre uma coisa e outra 
coisa seja só algo extremamente natural. Talvez estejamos 
bem assim, do jeitinho que estamos: sozinhos quando 
estamos sozinhos, juntos quando estamos juntos. 

Coisa extraordinária, mesmo, coisa de poder deixá-lo ao lado da tábua de linguiças quando estivermos dando um churrasco no quintal; coisa de nunca mais deixar de atender a tia Lourdes porque ela ligou de um orelhão perdida para confirmar o endereço e ninguém ouviu porque o pagode estava muito alto, coisa de nunca mais ter que deixar o pagode baixo enquanto a tia Lourdes não chegar, coisa de nunca mais ter que tirar zerinho-ou-um pra ver quem vai correr lá dentro pra atender o dito cujo, e o perdedor molhado de piscina se secando às pressas na toalha de mesa, derrubando copos, tropeçando no prato do gato a meio do caminho, deixando um rastro de mini-destruição, para, enfim, colocar no aparelho a mão ainda gordurenta de asinhas de frango no exato momento em que ele parar de tocar.

Coisa de nunca mais ficarmos sem saber se quem teria ligado aquela hora seria mesmo a tia Lourdes perdida ou a avó Dina, que está em Minas e nem sabia que hoje era dia de churrasco em casa, mas queria saber notícias, e que poderia ter ligado naquela hora, talvez, por pura saudade de nós.

Mas ter mais é desejar mais e, num próximo instante, já passaríamos a sonhar com um telefone que pudesse adivinhar quem nos ligou, e que funcionasse para além do nosso quintal, um telefone com alcance de 2, 3, quiçá 4 quintais, até que todos os quintais do bairro começariam a parecer pouco e, então, sonharíamos, enfim, com um telefone sem fio para qualquer lugar do município, da cidade, do estado, do país, do mundo – um telefone sem fio nem limites, um telefone sem base correspondente; tão leve quanto um liquidificador de vidro Arno, pequeno o bastante para caber numa sacola de 20 litros da Mesbla, mas que fosse com os anos diminuindo de tamanho até poder caber no bolso da bunda de uma calça 36, para que pudéssemos andar com ele no meio de qualquer rua, e, simplesmente, no meio da avenida, poder marcar churrascos inesquecíveis no quintal de casa ou dizer eu te amo para todas as pessoas que mais nos fazem falta manter perto das vistas e do coração.

Sonharíamos telegramas eletrônicos imediatos, em prol da beleza do que é muito melhor escrito do que dito; seguiríamos sonhando a eliminação das distâncias e das impossibilidades como se, junto à elas, pudéssemos eliminar do mundo também todos os labirintos da solidão.

Talvez a distância existente entre uma coisa e outra coisa seja só algo extremamente natural. Talvez estejamos bem assim, do jeitinho que estamos: sozinhos quando estamos sozinhos, juntos quando estamos juntos. Talvez tamanha facilidade para marcar churrascos tivesse um efeito colateral inesperado e parássemos subitamente de ter vontade de marcar churrascos, sem nem dar por isso; ficaríamos ocupados demais pensando em marcar churrascos, ou falando sobre pensar em marcar churrascos, ou já teríamos vendido a casa, o quintal e a churrasqueira para comprar um desses maravilhosos aparelhos que, a esta altura, já seriam capazes de fazer quase tudo, exceto sair descalço e de sunga para comprar carvão na esquina e ligar o rádio numa manhã de sol.

Talvez, cada coisa que se inventa para que não tenhamos mais que esticar o braço para pegar no mundo, nos leve a esticar o braço para fazer coisas cada vez mais absurdas e desnecessárias e tolas e bobas e fúteis e até tristes: braços que se esticam diante de si testemunhando, sem saber, o complicado que seria ter sonhado isso tudo sem ter que pagar preço algum; braços esticados diante de si só, na ausência de encontros dos quais realmente seria gostoso termos fotografias para nos lembrar.

Então talvez não vá ser tão maravilhoso assim. E que bom que eu te liguei hoje. Que estou sentada ao lado do aparelho e faço rabiscos com essa Bic 4 cores no bloquinho de papel que já fica aqui pra isso. Que bom que a gente se escuta e eu sinto coisas por você que você não pode imaginar, nem quero que você imagine. Que bom que há mistério. Que bom que a geladeira, à 3 passos de mim, está inacessível, que eu posso segurar o meu xixi até a gente desligar e que nos vemos com certeza esse domingo, aqui no meu quintal. Não esquece de trazer a câmera.

Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 22/04/2014 por em Keli Freitas.
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