ORNITORRINCO

FAVELA DA TELERJ – SEM TETO É O MUNDO

Nos anos 80 quem comandava a telefonia no Rio de Janeiro era a TELERJ, também conhecida como Telerda. A vida era outra coisa naquela época e entre trocar o lado A pro lado B do vinil novo que você tinha comprado vinha aquela lembrança que era preciso fazer uma chamada. O telefone fixo tinha fio e a linha não vinha apenas tirando o fone do gancho. Era preciso esperar. Conseguir uma ligação da zona sul para Belfort Roxo poderia demorar o mesmo do que pegar um carro e ir até lá dar o recado, o trânsito era bem mais tranquilo naquela época. Existiam algumas técnicas violentas para invocar a linha. Uma delas era pressionar levemente o botão onde se apoiava o gancho do telefone, saia do aparelho um grito gutural mecânico e, quando você aliviava a mão, a linha surgia plena, às vezes.

A privatização da telefonia veio com a promessa de salvar tudo. Transformou os velhos sistemas analógicos em modernos hubs digitais e trouxe para o Brasil a telefonia celular. Hoje somos mais aparelhos celulares do que pessoas no país. Um número que indica que está tudo certo, se há consumo há prosperidade. Junto com a transformação de uma empresa pública em privada alguns contras aparecem, mas relaxa, são menores do que todas as benesses. Um desses contras é o desejo voraz dos acionistas por gráficos ascendentes e grana entrando. Um acionista fica em casa olhando tabelas na internet e quer sua ação valendo mais do que ontem, não importa muito o que a empresa tenha que fazer pra conseguir isso.

Como pode ser tão fácil desapropriar casas com pessoas 
vivendo dentro, fácil na hora de rasgar a cidade com rodovias 
e parques olímpicos e tão difícil mexer na propriedade aban-
donada de uma empresa? Mas até quando as megacorporações 
serão mais importantes que os seres humanos?

Nessas últimas semanas foi possível acompanhar de perto uma batalha medieval dentro dos calabouços das grandes corporações. Cidadãos que diziam não ter onde morar, ou não ter mais como arcar com as despesas de moradia, invadiram um terreno de uma empresa privada, que já havia sido pública. Em três dias uma cidade ruína estava erguida. Mas sem o padrão FIFA exigido pelos encargos da Copa do Mundo ela teve que ser derrubada. Bateu de frente é só tiro porrada e bomba e mais uma vez o Estado deu um beijinho no ombro pros recalcados de plantão que querem bagunçar a Cidade Maravilhosa.

Os argumentos para realizar a desapropriação eram muitos. Esse é um terreno privado, existem leis nesse país que devem ser cumpridas, vivemos num sistema capitalista baseado no consumo e na posse. Impressionante. O imenso terreno invadido no Engenho Novo é um antigo almoxarifado da TELERJ pouquíssimo usado pela OI. Por que um terreno tão grande, numa área movimentada da cidade, está abandonado? Voltemos ao acionista olhando gráficos na frente do computador. É preciso saber que as empresas olham o mundo ao redor com muita atenção. Atenção pro próprio bolso. Perceberam há tempos que há uma escalada desenfreada de preços e valores dos imóveis. Aquele terrenão no Engenho Novo de repente não vale tanto hoje, mas deixa aquele latifúndio, que já foi do Estado, ali paradão que daqui a pouco a gente pode conseguir uma boa grana por ele. E aí você acionista vai ver os gráficos subirem, suas ações valorizarem, não importa às custas do que, nem de quem.

Clique para ampliar o álbum do “Não Vai Ter Copa”

A desapropriação da Favela da Telerj mostra o desejo e a prioridade dos governos. Uma população sem moradia não é tarefa fácil de resolver, mas não é mais difícil do que o esforço logístico e financeiro para adequar-se a cadernos de encargos internacionais impostos na hora de sediar uma olimpíada ou copa do mundo. Como pode ser tão fácil desapropriar casas com pessoas vivendo dentro – pichando em suas paredes a sigla da Secretaria Municipal de Habitação (SMH) –, fácil na hora de rasgar a cidade com rodovias e parques olímpicos e tão difícil mexer na propriedade abandonada de uma empresa? Ali no Engenho Novo era possível erguer um excelente bairro popular com água, esgoto, transporte numa área da cidade que pode absorver o pessoal. Mas até quando as megacorporações serão mais importantes que os seres humanos?

Os megaeventos chegaram com esse alarde da grande salvação, mas há muito tempo que essa história precisa ser contada por outro ponto de vista. Há muitos exemplos mundo a fora que mostram como esse estilo FIFA e COI de organizar o mundo é extremamente nocivo. A máquina da grana que eles exportam é endogâmica e os bilhões despejados no país para os megaeventos acabam ficando concentrados nas mãos de poucas empresas. O que sobra para a população mais pobre, que entra com a força de trabalho, são salários baixos durante um período determinado. O tal legado do desenvolvimento urbano acaba se mostrando um trator que vai derrubando morros e casas, esticando avenidas e tornando a vida na cidade extorsivamente cara, para depois deixar um rombo nos cofres públicos.

Como se tudo isso não bastasse a prefeitura ainda usou a tática de cansar o inimigo com as famílias despejadas. Sim, a prefeitura considera os “invasores” inimigos da cidade. Sim, eles invadiram um terreno privado, parece que no meio de toda a miséria ainda existia gente vendendo lotes dentro do terreno privado, mais cruel ainda. Mas e a lei da copa, que isenta a FIFA de impostos? E a destruição de um bem tombado como o Maracanã? Tudo isso passa batido. Mas aqueles inimigos que invadiram um prédio privado merecem castigos. Não contente em despejá-los na porrada a prefeitura criou um sistema incompreensível de cadastramento, para beneficiar essas pessoas em projetos sociais futuros. Um acampamento se formou em frente à Cidade Nova. Chovia muito e o pessoal se refugiou na gigantesca e nababesca passarela do metrô, para serem mais uma vez removidos para a rua na manhã seguinte. Cansados alguns desistiram, outros não tiveram tempo de retirar suas coisas da ocupação da Favela da Telerj e perderam seus documentos, impossibilitando o cadastro, muitos ainda resistem. A tática da prefeitura vai funcionando, o assunto perdendo voz na grande mídia e o prefeito torce para que todos esqueçam que isso aconteceu. Afinal uma enorme festa mundial vem aí!

Manifestação contra os gastos da Copa.
A ironia final, mais mórbida de todas, é que aqueles desalojados carregavam na cintura seus celulares. Muitos provavelmente são clientes da Oi. Até tablets e laptops eram vistos no acampamento. Uma cena de ficção científica bizarra, uma espécie de distopia cibernética, de uma sociedade que te oferece a ponta da tecnologia 4G (exigida pela FIFA), mas te nega o mais básico, um teto. Somos todos bárbaros tecnizados, não como queria Oswald de Andrade, numa unidade sem partes separadas, que deglutisse tanto a natureza quanto o sobrenatural, tanto o estado bruto quanto a técnica. Somos bárbaros tecnizados pois vivemos num estado de barbárie munidos de dispositivos técnicos eletrônicos de última geração que carregamos na cintura, mesmo sem grana para fazê-los funcionar.

Sem Copa, sem cozinha, sem teto. Voltar pra casa pensando no pessoal que estava acampado em frente à prefeitura, famílias inteiras com crianças tomando água na cabeça, e não poder fazer nada é aterrador. Um amargor opressivo, uma pergunta sobre por que eu posso voltar pra casa e eles não. Ao mesmo tempo um sentimento de igualdade com todos aqueles ali que era apenas separado pela posse de um teto. Quando na verdade sem teto somos todos, sem teto é o mundo.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 21/04/2014 por em Domingos Guimaraens.
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