ORNITORRINCO

TRISTE BAHIA – IMPRESSÕES DE MAIS UMA GREVE POLICIAL

“Senhora Dona Bahia, / nobre e opulenta cidade, / madrasta dos naturais / e dos estrangeiros madre”
Gregório de Mattos

Na noite desta terça-feira (15) a Polícia Militar da Bahia decretou greve e o estado foi paulatinamente sendo contaminado pelo medo da violência. Os registros dão conta de que as atividades públicas e privadas em muitas cidades foram interrompidas porque a desigualdade social é enorme para que possa ser administrada sem o uso extensivo da força a que esta acostumada a “sociedade” baiana e brasileira.

O fim da greve aconteceu nesta quinta-feira (17) após os policias decidirem aceitar a proposta do gorverno apresentada pela manhã do mesmo dia. A proposta foi levada aos grevistas pelo bombeiro e vereador Marco Prisco (PSDB), um dos líderes do movimento, e os pontos foram discutidos com a intermediação do arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, D. Murilo Krieger.

Antes de empreender uma reflexão que vá além dos aspectos mais imediatos da questão, gostaria de pontuar, no entanto, que:

— Se tratando de uma categoria a qual a suspensão de suas atividades tem um efeito sensível imenso devido ao cenário brasileiro tipicamente conhecido, avalio que a greve foi declarada de modo bastante sumário porque havia espaço para mais negociações e creio – até onde pude avaliar o noticiário – que, ao menos desta vez, o governo estava mais disposto ao diálogo;

— Reeleito em 2010, o governador da Bahia, Jacques Wagner (PT), vem sofrendo severas e acertadas críticas por sua incapacidade administrativa em muitas áreas e por sua minguada capacidade de negociação com diversos movimentos. Aspecto que ficou demonstrado por sua postura diante da greve dos mesmos policiais em 2012, mas principalmente diante da paralisação dos professores também naquele ano;

— O principal porta-voz do movimento grevista é um vereador da capital, Marco Prisco (PSDB). Hoje licenciado, ele foi eleito para o cargo após os desdobramentos da greve de 2012, a qual foi um dos líderes. Interceptações captadas pela Polícia Federal revelaram, durante aquela greve, que Prisco fortalecia o poder de barganha do movimento fomentando o medo com iniciativas de policias destacados para promover atos criminosos;

— Por mais crítico que possa ser ao governo do estado, não é possível ignorar que há uma intenção política muito bem delineada por certas forças oposicionistas: minar ainda mais esta administração num ano eleitoral;

— Não deixo de ser solidário a melhoria das condições de trabalho dos policiais, mas pelas lideranças em questão e pelas razões expostas, esta greve não teve minha simpatia e continuo sonhando com o dia em que os policias suspenderão seus trabalhos quando ordenados a reprimir a população que se manifesta pela constituição de um novo tecido social.

Ao andar pelas ruas de Salvador na quarta-feira (16) não me senti temeroso, verdade que não me mantive fora de casa por muito tempo, mas em muito pouco atrapalhou minha vida a greve em seu primeiro dia. Mas não sou um bom termômetro porque pude perceber como muitos na cidade pareciam não respirar outra coisa senão ansiedade e receio. Nos últimos anos os índices de violência têm crescido na capital baiana que é tida hoje como uma das mais violentas do país.
Enquanto formos incapazes de compreender e sentir 
que vivemos em conjunto e que nossas individualidades 
se formam e convivem com outras, não vai haver 
esperança ou possibilidade de transformação.
Entre as instituições que decidiram por sequer abrir suas portas estiveram as escolas estaduais e particulares. Segundo uma passageira num ônibus que tomei para ir até a casa da minha avó, na Barra, o noticiário televisivo local não informava se as escolas administradas pela prefeitura funcionariam ou não. Ela não conseguia compreender a omissão.
No fim de tarde vi supermercados e bancas de revista fechando e embora tenha conseguido voltar de ônibus para casa, esperei mais do que o habitual no ponto. Ao fim de uma breve conversa com o motorista este rispidamente me informou que aquela era a última corrida do dia e que o sindicato dos rodoviários havia decidido recolher o transporte urbano que operava por medo de assaltos. Já em casa, pela internet, me informava de que a Justiça declarou a greve ilegal (creio isso não vai mudar nada a situação) e de que a Força Nacional e o Exército devem substituir temporariamente as forças policias, a conferir este resultado.

Como primeira plataforma do poder colonial português no Brasil, a Bahia continua impregnada de ranços arcaicos e autoritários que lhe são muito caros. Além disso, especialmente no recôncavo, mas também por todo o interior, a pobreza continua colorida de negro. Claro, no entanto, não existe racismo e todos tem as mesmas oportunidades do berço até o concurso público para a polícia militar, uma meritocracia de dar inveja.

Num quadro social extremamente desigual e eivado por relações de trato brutal, além de ardoroso apreço por reverências hierárquicas, como é tipicamente a sociedade brasileira, muitos indivíduos vão sempre temer profundamente sua condição tão logo saia de cena os responsáveis pela manutenção da violência cotidiana que coloca “cada um no seu lugar” e sacraliza a sacrossanta propriedade mesmo que sem fim social.

A greve dos policiais na Bahia não foi a primeira nem será a última deste gênero no país, mas o entendimento de que os males que permite frutificar e o medo que espalha tem outras raízes, atinge de modo tímido a massa cinzenta de gestores, empresários e cidadãos (consumidores) encerrados em que estão em seu individualismo a procura de satisfazer interesses estritamente particulares, tantas vezes mesquinhos, ou de se entupir com as mais diversas distrações sem nunca tratar com decisão as fraturas expostas.

Enquanto formos incapazes de compreender e sentir que vivemos em conjunto e que nossas individualidades se formam e convivem com “outras” que merecem dignidade, respeito, atenção e, no caso brasileiro, resoluções simultâneas para superar as causas das práticas violentas e segregadoras em curso, não vai haver esperança ou possibilidade de transformação. Contudo, este roteiro habitual está ficando fora de controle, e sem permitir espaço para conciliações dentro de sua lógica conservadora, semeará o rancor e o ódio.

Que a ausência de força policial afete tanto o funcionamento de uma sociedade é algo que só pode depor, muito além de administrações de ocasião, contra as estruturas em que se alicerçam esta sociedade. Só um esforço integrado capaz de construir uma agenda que ataque os principais males do país podem nos tirar desta indigente convivência, o resto é esperar milagres de migalhas, promessas de messias. Espero em breve expor aqui alguns destes temas, mas desde logo se faz necessário dizer que basicamente continuamos uma colônia servindo ao enriquecimento “estrangeiro” ao pagarmos todo ano mais de R$ 150 bilhões em juros da dívida para rentistas.

Júlio Reis é poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 18/04/2014 por em Júlio Reis.
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