ORNITORRINCO

É PRECISO FALAR DE GARCÍA MÁRQUEZ

É preciso falar de García Márquez. É feriado, faz calor, preferia chuva, meu primo dorme num colchão inflável na sala, estou com sede, fome, ressaca, cólica, dor de cabeça, saudade, preguiça, necessidade de falar de García Márquez.

É sexta-feira da paixão e é sempre a mesma coisa. Toda sexta-feira da paixão nunca me lembro exatamente que coisa significa a sexta-feira da paixão. Aí depois me dou conta de que é o dia em que não se pode comer carne devido à morte de Jesus. Depois esqueço completamente que é o dia em que não se pode comer carne devido à morte de Jesus e termino almoçando um bife ancho, um x-salada e uma lasanha à bolonhesa, e aí depois, talvez, me lembro novamente da coisa da ideia geral de que não se deveria comer carne nesta sexta-feira em especial. Aí já é tarde demais e, quando já é tarde demais, já é tarde demais.

Assim tem sido, há muitos e muitos anos, a memória cada vez mais curta para o que pouco ou nada me atravessa. Há hoje, sim, um feriado que se instaura em mim. Uma paixão fatal nesta minha sexta-feira: Gabriel García Márquez deixou de escrever. Há poucos dias atrás Gabriel García Márquez desapareceu do mundo para todo o sempre.

Talvez por ele, eu me lembraria de não comer certas comidas caso fosse necessário, mas não se trata de não comer certas comidas e não será necessário, é a morte de García Márquez, perda de coisa tão minha à minha maneira, de tantas outras pessoas à maneira delas, perdas tão nossas, dos nossos amores construídos em silêncio e solidão, sob a luz do sol, do abajour, da luminária, da lanterninha, da nesga de lua, da porta do freezer, do poste da rua; em 17 de Abril de 2014, aos 87 anos, morreu Gabriel García Márquez, homem que, de tão nosso e tão parte de nós, poderia-se facilmente esquecer que era feito de carne também.

Obrigada Patrícia, minha amiga de tantos carnavais, por não subestimar meus parcos 15 anos de idade e me entregar nas mãos o presente mais duradouro que eu poderia receber: A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada – tão mais que um empréstimo para o verão: uma passagem só de ida para o que seria uma longa jornada de amor.

Obrigada professor de matemática do segundo ano, por me humilhar na sala de aula ao me descobrir lendo “Como Contar um Conto” por debaixo da apostila de Aritmética – à medida que eu detestava seus números, me apaixonava cada vez mais por todas as palavras.

Obrigada pai, por nunca descobrir quantas aulas eu faltei, quanto dinheiro da merenda desviei para que pudesse adquirir tudo de García Márquez que houvesse na Saraiva do Shopping Tijuca.

Obrigada Franz Kafka pela Metamorfose e sua bendita frase de abertura; a possibilidade de converter um homem em inseto, que fez com que aquele garoto colombiano, sem merda no cu pra cagar, acreditasse que poderia ser escritor. O resto, agora, é História.

Obrigada, Gabriel, pelo teu cheiro de goiaba, pelos teus olhos de cão azul, pela tua revoada. Pelo outono do teu patriarca, pelo teu general em seu labirinto, pelos teus textos do Caribe volumes I e II. Pela tua notícia de um sequestro, teu relato de um náufrago, a história de Miguel Littín, tua morte anunciada, teus funerais da mamãe grande, por viver para nos contar. Obrigada pelo amor nos tempos do cólera, teu amor e teus outros demônios, obrigada por nos tornar capazes de sobreviver, repetidas vezes, através dos teus livros, a cem longos anos de solidão. Obrigada por Remédios, a Bela, ter subido aos céus, obrigada à todos teus Aurelianos e todos os teus Buendía, a teu Florentino Ariza e tua Fermina Daza, por nos mostrar, de tão insondáveis maneiras, que o impossível pode suceder. Obrigada por fundar uma escola de cinema em Cuba e me fazer sonhar meia vida com a tua escola de cinema em Cuba, de onde eu acabo de voltar. Obrigada por me ter feito ir tão longe para te buscar. Obrigada por ter vindo tantas vezes me encontrar.

Hoje já não é mais sexta-feira santa. Teu corpo já foi cremado, dividido metade por tua Colômbia e metade por teu México. No meu Rio de Janeiro muita coisa também se passou.

Hoje eu penso em duas frases. Uma, pichada numa porta de banheiro feminino no prédio de teatro da Uni-Rio: “Quanto mais livros se lê, menos balas se dispara.” A outra, na tua escola em Cuba, na parede logo ao lado da pizarra, onde os cachorros sentam do lado da gente esperando o ônibus chegar:
“Para que el lugar de la Utopía, que, por definición, está en ‘Ninguna Parte’, esté en alguna parte…”

Obrigada, Gabriel García Márquez, definitivamente. Por deixar o lugar da utopia estar em alguma parte.

Um beijo.

Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 17/04/2014 por em Keli Freitas.
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