ORNITORRINCO

DE ITU PARA O MUNDO

O Brasil é grande, mas ITU é maior. Fim de semana passado o ITUano venceu o portentoso Campeonato Paulista no cabalístico ano de 2014; título ganho na vertigem/voragem dos pênaltis em pleno ano de Copa do Mundo em Pindorama/Eldorado/Atlântida/Terra Brasilis. Comemorando tal Fato, acabei por decantá-lo e recantá-lo. Pois bem, ainda inflamado e assombrado pelo exagero típico da cidade ITUana, resolvi escrever sobre a mais fantástica das fantásticas urbes cafeeiras dos bandeirantes.

Fundada inicialmente com o nome de Utu-Guaçu, tal ímpar cidade sem par foi fruto de uma época em que o gigantismo positivista de um Brasil titânico se desdobrava “progressivamente” a afastar as fronteiras brasileiras para longe do mar. Berço da História, Instância Turística Imemorial da Humanidade, Leito da República, ITU sem igual é a cidade natal do presidente Prudente de Morais, o primeiro regente brasileiro a ser eleito pelo voto direto.

No entanto, o cidadão mais conhecido de tão aclamada urbe foi o comediante Simplício, homem comum que encarnava o espírito/zeitgeist ituano como ninguém. Teria sido ele o responsável por criar o turismo lúdico de tal lugar. Para ele, a Capital dos Exageros possuía acerolas do tamanho de abóboras e um prédio tão alto ao ponto de um suicida ter tentado se jogar lá de cima e, em uma semana depois, ainda não ter conseguido atingir o chão. Orelhões colossais e semáforos abissais emolduravam a paisagem mais familiar. Suas imponentes igrejas formavam a “Roma Brasileira”. Tudo a fazer jus à sua fama.

O cinema foi inventado pelos irmãos Lumière através do cinematógrafo de 1895. Segundo a história oficial, a primeira exibição pública produzida pelos irmãos franceses foi realizada no parisiense Grand Café e consistia em breves registros cotidianos de uma vida captada ao ar livre. Movido a manivela, o cinematógrafo transformava alquimicamente sucessivas imagens em fotogramas de sucessões de movimento. Não demoraria muito para ITU seguir a vanguarda de seu tempo e realizar a inesquecível Primeira Projeção Pública de 1905 em um cinema itinerante ocupado por um numerosíssimo e admiradíssimo público.

Como até o mais incauto dos incautos saberia predizer, o ITUano – Galo do interior – foi a defesa mais impenetrável do campeonato paulista do enigmático ano de 2014. Do capitão Josa ao ícone Anderson Salles, chegando até o técnico Doriva e ao dirigente grandalhão Juninho, o ITUano não deixou dúvidas sobre sua categórica amplitude. Com o tempo de Cronos ao seu favor, o galináceo ITUano triunfou sobre Palmeiras, Santos e São Paulo.

Sim, todos nós sabemos que a história é contada pelos vencedores. Assim sendo, os empates e as derrotas não contam; nem mesmo a que aconteceu com o gol semi-espírita do atacante palmeirense Allan Kardec ou o abstruso semi-knock-out sofrido para o mercantil Comercial da querida Ribeirão Preto por 2 a 0. Os fracassos, realmente, pouquíssimo importam para a história oficial do esportivo ludopédio bretão chamado Futebol.

Falemos, então, sobre as magníficas e estupefaciantes vitórias ituanas, em ordem cronológica, claro: 
3 a 1 sobre a assombrosa Ponte Preta (em Campinas)
3 a 2 no bandeirante time do Paulista (em Jundiaí)
2 a 1 sobre o cardeal esquadrão do Oeste (em Itápolis)
2 a 0 no Bragantino (na Arena Novelli Júnior)
1 a 0 sobre o experiente Mogi Mirim (em Mogi das Cruzes)
Nos últimos jogos da fase classificatória o místico placar de 1 a 0 se repetiu 3 vezes: sobre o Linense, depois em cima do São Paulo e por último na Penapolense. Nas semi-finais, novamente, 1 a 0 no Palmeiras e nas finais 1 a 0 e 0 a 1 em cima do Santos. O título viria dramaticamente pelas penalidades máximas. 
Felizmente, o ponto nodal e arrebatador do campeonato foi mesmo a cidade ITUana representada pela multidão de insolventes galáxias de astros materializados em forma de jogadores seminais; 11 desportistas/pelejadores desdobrados na seguinte escalação: Vágner, Dick, Alemão, Anderson Salles (o Ícone) e Dener; Josa, Paulinho, Jackson Caucaia e Cristian; Rafael Silva e Esquerdinha.

Curiosamente, o Ituano já havia vencido o campeonato paulista do ano de 2002 mas, em tal ano, os grandes paulistas (Corinthians, Paulista Santos e São Paulo) não participaram. Tudo parecia mesmo milimetricamente traçado para que, 12 anos depois, fosse a vez do despertar do sonho ITUano de conquistar o universo mundano de nossas pupilas. Cercada por uma área de 642 quilômetros quadrados e 583 metros de altitude, a cidade magnânima de ITU é portadora de uma grandiloquente simplicidade que deveria causar inveja à muitos países e continentes extra e intra mundiais. É o que, aparentemente, comprova seu hino: “Olê olá pode o mundo se acabar / Olê olê vamos sempre com você / Não há ninguém como tú / Ah, rubro negro de ITU”.

Como não poderia deixar de ser, termino este texto com a estrondosa vontade de parabenizar o time da Pasárgada brasileira que, diariamente, mais esconde do que revela segredos. Ituano 2014, esquadrão do tempo da travessia, esquadra encarnada e concretizada em versos de certo luso poeta em Pessoa: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmo lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Augusto Guimaraens Cavalcanti é romancista, poeta e doutorando em Ciências Sociais. 

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Informação

Publicado em 17/04/2014 por em Augusto Guimaraens Cavalcanti.
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