ORNITORRINCO

A FELICIDADE SOU EU!

Senhoras e senhores, não me compreendam mal, mas quero dizer que sou feliz e a minha é de longe a maior felicidade de todas. Não imagino com que desgosto ouviram isso, mas é provável que já me tomem por arrogante. Compreendo que muitos tenham se ofendido com minha enunciação irretocável e alguns, eventualmente, se sintam diminuídos.

De minha parte perdoo todos aqueles tocados pelo dissabor frente ao transbordar incomensurável de minha alegria inconteste, o irradiar mineral de minha força, a luz que não se apaga de minha vida, meu sorriso que corta meio mundo e faz brotar as plantas silvestres; e quantas locuções mais se fariam necessárias, campos cheios de nutrientes onde germinam minha experiência de vida!

Nasci com a síndrome da felicidade ininterrupta. 
É raríssima. Na verdade sou o primeiro caso 
registrado na medicina moderna

“Mas quem é este sujeito para falar isso?”, já se perguntam com impaciência. Claro, sei que a maioria, ao mesmo tempo em que desacredita de tudo que digo, quer saber porque sou mais feliz e quem sou afinal para que sequer se desconfiasse da minha existência. Sinto que alguns, sejamos honestos, até se ressentem por não me conhecerem antes.

Já vislumbro, no entanto, previsível indignação: “como assim o ser humano mais feliz do planeta se seu nome não é mencionado no jornais, sem contar que nunca o vimos passeando por aí em conversíveis, jatos ou iates!” ou: “nunca lemos antes os seus textos nos mais importantes suplementos culturais do mundo, nunca o notamos por aí a circular com gente famosa e bem sucedida, sequer é guru espiritual de alguma religião poderosa!”; “não lidera nenhuma agremiação política de peso!”; “não se tem notícia de que possua um harém com mulheres tão belas como nossas jovens atrizes internacionais”; “nunca ouvimos seu nome mencionado na lista de bilionários da Forbes, como assim o homem mais feliz do mundo?”

Senhoras e senhores, o fato é simples: nasci com a síndrome da felicidade ininterrupta. É raríssima. Na verdade sou o primeiro caso registrado na medicina moderna, esta que tudo sabe sobre o que se deve ou não se deve fazer, receituário de vitaminas e exercícios de como ter e prolongar o orgasmo.

O que os espantará é que tudo isto vem sendo definido a partir de pesquisas e estudos sigilosos feitos comigo, já que não sinto nada mais que felicidade. O que me incomoda, sem me entristecer, é que os pesquisadores não aceitam quando digo que meus hábitos em nada alteram minha felicidade e assim têm tomado algumas de minhas práticas, como referências para influenciar vossas condutas. Tento alertá-los de que isso me parece um grave erro de método científico, mas eles não costumam escutar, estão interessados simplesmente em vos entorpecer com felicidade alheia, no caso a minha!

Minha condição é tão séria que mesmo quando recebi o diagnóstico me alegrei acima do usual. Aliás, se considerada para efeito de cálculo, minha taxa de felicidade geral triplica a média da felicidade bruta total no mundo. Vejam que não andava a exagerar. Ainda assim perguntei aos médicos se a síndrome tinha tratamento, disseram desconhecer. Não me abati, pensei comigo mesmo: “vou enfrentar essa situação com a alegria e a vitalidade que me é peculiar, nada de esmorecer, felicidade avante!”

De fato nunca me abati na vida. Quando mamãe morreu, por exemplo, ainda ali eu estava alegre. Não é que não chorei, dei gargalhadas. Como minha visão da morte continua indecisa pensei multilateralmente comigo mesmo: “aqui foi mamãe conhecer os anjos do céu e se deleitar nas paisagens magníficas do além! Contudo se por acaso ela tiver sido uma pecadora que soube esconder muito bem isso de mim, fico contente que possa ter ido para o inferno onde vai se regozijar na imundície e na putaria sem tamanho! Se não houver nada disso, tudo bem, mamãe veio, viveu e deixou esse rebento para o mundo!”

Quando uma namorada me deixou por outro amante disse que aquilo não importava e que se fosse necessário para a felicidade dela me largar não havia problema porque de todo modo eu era feliz e não gostaria de atrapalhar suas possibilidades de prazer. Antes de entender ela ficou possessa por minha demonstração de alegria, esperava que eu lamentasse. 

Recentemente quebrei o pé e dei risada! Foi divertida a cena. Dor? Não sinto. Em meu sangue circula contentamento.

Considero que os aborreço com a descrição destas minhas aventuras e que há mesmo quem se compadeça porque sequer posso sentir uma picada de amargura no estômago de vez em quando, não é mesmo? Eu sei o que as senhoras e os senhores já estão a pensar: “que chato, que entediante essa síndrome, que infelicidade a dele de não poder nunca curtir uma depressãozinha, uma decepção, uma dorzinha que seja. Quanto ele não perde com o sofrimento na valorização da felicidade!”

Sinal de que não entendem meu caso. Minha felicidade é estonteante e estou dispensado de qualquer dose de tristeza, remorso, arrependimento, angústia, choro ou vela. Não vou conhecer nunca tais sensações, embora alcance saber que em certo grau é saudável para vós que assim o seja.

Por outro lado, as senhoras e os senhores nunca poderão alcançar uma felicidade repleta como a minha. Concorram entre si, estou muito acima de vossos conflitos. Eu já nasci com a dádiva, ninguém poderá ser mais feliz que eu; vim, vi e serei feliz acima de todos!

Estranhamente, mas não infelizmente, minha felicidade não têm o poder de vos contagiar. Confesso que refletir sobre isso é o mais perto que chego de me entristecer, porque gostaria de transmitir minha felicidade para todos. Sei que não acreditam na minha sinceridade e, de qualquer modo, logo reconheço que isto não me impede de estar no reino da felicidade total.

Torço para que… de preferência não tenham inveja de mim, não me queiram mal… Bom, se for necessário tudo bem, com ou sem vossa alegria, sigo feliz do mesmo modo. A felicidade sou eu!

Júlio Reis é poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

Blog / Twitter

*Imagem de capa: Yue Mijuin
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Informação

Publicado em 16/04/2014 por em Júlio Reis.
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