ORNITORRINCO

O CORPO É A CASA – O SEXO

Há duas semanas escrevi sobre sexo, prazer, dor, interdições e liberdades. Foram as preliminares de uma série de pequenos ensaios. É pequeno, mas é meu! Logo depois de publicar o texto me aparece uma pesquisa confusa dizendo que mais de 60% dos homens no Brasil acreditam que a culpa pelos estupros é da mulher! Que choque, ficou patente a minha ingenuidade perante a estupidez humana. Foi arrasador. Mesmo com o desmentido dos números apontados pelo IPEA, que havia divulgado a pesquisa, os números finais corrigidos ainda eram altos.

Penso que exigir o uso de uma burca ou atacar uma mulher na rua por causa de suas roupas curtas são duas atitudes canhestramente complementares. Eu amo as saias curtas, mas não as amo apenas pela beleza das formas que deixam de fora, amo as saias curtas pois elas exaltam um caminhar de alguém que é dona de seu corpo, responsável por ele e principalmente livre para usufruí-lo da forma que achar melhor. Já esses homens da pesquisa acreditam que a saia curta é um convite para que eles usufruam como quiserem desse corpo feminino. As campanhas que pipocaram na internet acompanhadas da hashtag #nãomereçoserestuprada me emocionaram, ao mesmo tempo que me fizeram perceber quanta luta ainda há pela frente quando o assunto é a liberdade do corpo feminino.

Eu amo as saias curtas, mas não as amo apenas pela 
beleza das formas que deixam de fora, amo as saias 
curtas pois elas exaltam um caminhar de alguém que 
é dona de seu corpo, responsável por ele e principalmente 
livre para usufruí-lo da forma que achar melhor. 

Uma foto violenta que acompanhou essas campanhas foi a da Valesca Popozuda. Ela no fundo de um corredor, peladona, exibindo seu corpo, moldado por silicone e talhado por lipoesculturas, se escondendo atrás de um taco de baseball numa postura de quem quer se defender e ao mesmo tempo carrega o ódio de quem quer vingança. De saia longa ou pelada ninguém merece ser estuprada. Mas a Valesca já defende a liberdade do corpo da mulher há muito tempo. Seus versos e coreografias, com roupas quase inexistentes, fuzilam bocetas, bundas e peitos numa surra em cima de quem assiste. Isso é bem direto em “A porra da boceta é minha”. Mas esse oferecer-se exige aprovação da mulher para se confirmar em sexo.

E aí, seu otário, / Só porque não conseguiu foder comigo / Agora tu quer ficar me difamando, né? / Então se liga no papo, / No papo que eu mando. // Eu vou te dar um papo, / Vê se para de gracinha./ Eu dou pra quem quiser / Que a porra da boceta é minha!

Uma mulher dá pra quem ela quiser e só pra quem ela quiser seu otário! E se liga na letra, porque depois que a sua porra estiver na boceta dela “a porra da boceta é minha”. É, camarada, tá com ela. Você pode até mandar o papo do aborto, mas mais uma vez quem tem o direito e a liberdade da escolha sobre o próprio corpo é ela. Ah! Mas então eu sou um pobre homem refém da liberdade feminina? Não, mané! Usa camisinha, essa é uma liberdade que você tem sobre o teu corpo.

Ouvindo a Popozuda sempre penso que, fosse ela uma grega das antigas, teria vivido feliz na Ilha de Lesbos. Afinal a primeira escritora a exaltar e lutar pelo lugar da mulher na sociedade foi Safo de Lesbos. Foi ela uma das primeiras a perceber a força do erótico, do sexo, usando esse Eros criador em seus poemas. Infelizmente a Grécia não esteve livre do seu triste capítulo da longa história de opressão vivida pelas mulheres. Safo queria escrever lá no século VII a.c., na realidade queria falar seus poemas, uma vez que naquela altura a força vinha da poesia oral e a escrita apenas se iniciava. Mas a dificuldade era enorme para uma mulher se tornar poeta. Aqui mito e documento se misturam. O que se conta é que Safo refugiou-se na ilha de Lesbos, criando uma comunidade de mulheres poetas e guerreiras. De lá vêm os adjetivos safada e lésbica, não é pouca bobagem. No século XI D.C. a Igreja Católica destruiu vários papiros com seus textos por considerá-los imorais. Mas sobraram algo em torno de 200 fragmentos e uma canção completa de Safo: o Hino à Afrodite. Eros sacudiu meus sensos, tal vento montanha abaixo caindo sobre as árvores.

Safo, além de sua maravilhosa história de transgressão, deixou pra nós todo seu tesão libertário. Foi ela vítima dessa relação conturbada entre erótico e divino. Mas nos poucos fragmentos que restaram podemos sentir o que a Grega que eu mais gostaria de ter comido sentia:

A língua se parte; debaixo da minha pele,
e quando te ris, provocando o desejo; isso, eu juro,
me faz com pavor bater o coração no peito;
eu te vejo um instante apenas e as palavras
todas me abandonam;

a língua se parte; debaixo da minha pele,
no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos não veem;
zumbem meus ouvidos;

um frio suor me recobre, um frêmito se apodera
do corpo todo, mais verde que as ervas
eu fico; e que já estou morta, parece

Milênios depois de safo um poeta brasileiro escreveu um poema erótico apropriando-se dos mitos gregos. “A origem do mênstruo” é um poema de Bernardo Guimarães da segunda metade do século XIX. Publicado em brochuras assinadas apenas com suas iniciais, o autor do célebre “A Escrava Isaura” sempre manteve esses textos, eróticos e bestialógicos, como uma faceta marginal de sua carreira canônica. O corpo é a casa, mas o sexo é sempre debaixo do edredon. A epígrafe do poema, que dá conta do poema como um achado verdadeiro e traduzido, brinca com essa situação sui generes na qual se encontra o mito, sempre localizado entre a ficção e o documento. 

A Origem do Mênstruo

De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.

Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes…

Rapava bem o cu, pois resolvia
na mente altas idéias:
— ia gerar naquela heroica foda
o grande e pio Enéias.

O poema é enorme e dá conta dos ciúmes entre Afrodite e Hera, no olimpo. Raspando-se com uma navalha mal afiada e agredida por Hera, Afrodite corta a própria boceta dando origem à menstruação. Bernardo era desses que acha que o sexo deve estar nas bocas. Mais famoso que “A origem do mênstruo” é o fodedor “Elixir do pajé”  – poema Viagra do século XIX.

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!

Ao publicar o poema também assinando apenas com as iniciais (B.G.), Bernardo Guimarães recebeu a inesperada visita de uma figura da alta sociedade ouro-pretana que, com o “Elixir” nas mãos, exigia explicações sobre aqueles versos que atentavam contra a moral e os bons costumes. Surpreendido, Bernardo procurou a última página, como quem também procurasse o autor. Mostrou as iniciais BG ao figurão e disse “só podia mesmo ser coisa do Beato Gregório”. Pobre Beato, que era um sacristão dedicado, homem de parcas letras além desse nome em homenagem a outro Gregório que de Beato nada teve.

Bernardo jamais assumiu a autoria do “Elixir do pajé”. Esses foram sempre versos marginais no corpo de sua obra. Um corpo que aqui aparece erótico, sensual, pornográfico. Além de uma estratégia para proteger-se das acusações e preconceitos de uma sociedade reprimida e repressora, manter esses versos no limite entre literatura e cultura popular era também estratégia para fazê-los circular envoltos em mistério. O mistério colocou o poema em outras bocas, outras vozes, num grito de libertação que tomou as ruas em várias publicações clandestinas e baratas, muitas vezes de distribuição gratuita, criando uma circulação muito maior do que de muitas das obras canônicas.

Os versos do Elixir caíram no gosto popular e foram repetidos boca a boca, acessando não só a pequena parcela de alfabetizados do país. O Pajé broxa que recupera a sua virilidade virou um ícone da poesia erótica e pornográfica no Brasil.

E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!

Um índio humano, cheio de volúpia e desejo, distribui prazeres numa guerra de sexo e luxúria que não coloca em oposição o hetero e o homossexual. Essa junção que se estabelece entre o erótico, o pornográfico e o religioso do velho Pajé brocha me faz lembrar a relação feita por Georges Bataille entre o erótico e o divino: “O espírito humano está exposto às mais surpreendentes injunções. Incessantemente ele tem medo de si mesmo. Seus movimentos eróticos o aterrorizam. A santa se desvia com pavor do voluptuoso: ela ignora a unidade entre as paixões inconfessáveis deste e as suas próprias. Entretanto, é possível buscar a coesão do espírito humano, cujas possibilidades se estendem da santa ao voluptuoso.” O sexo é o lugar do profano, proibido, mas que está intrinsecamente ligado a nossa existência, acabando com estes planos e fundindo corpos e espíritos. “O sentido último do erotismo é a fusão, a supressão do limite”.

Há em Safo de Lesbos, Valesca Popozuda e Bernardo Guimaraens não uma overdose de sexo, mas uma overgoze, como no poema grafite de Eduardo Kac, que apareceu nos muros da cidade do Rio de Janeiro no início dos anos 1980. Um sopro de poesia erótica criada pelo Coletivo Gang, braço performático do Movimento de Arte Pornô que teria encantado e contado com a adesão de Bernardo, Safo e Valesca. Pra terminar por hoje te deixo com o gosto do Manifesto da Arte Pornô. Segunda que vem tem mais.

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Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 14/04/2014 por em Domingos Guimaraens.
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