ORNITORRINCO

POST EXEMPLO

Tento ser equilibrada na vida, mas minha altura tremenda por vezes não me deixa. Tento falar baixo e suave, mas escapei de ser surda-muda e gesticulo hiperbolicamente. Nunca sabem se é uma barata ou um espírito, tamanho o olho que posso arregalar.

Tenho pavor das frases drásticas, foi minha história, foi o que eu li, foi minha mãe zen, eu não sei. Só sei que quando digo: “Por favor não faça isso” e o ouvinte brada “Quer dizer então que você quer que eu faça aquilo?” e cita o exato oposto do que falei, eu perco muita fé na comunicação a qual estamos acostumados. E tenho vontade, juro, tenho muita vontade de começar a grunhir, e tentar assim uma nova forma, já que nesse caso não estou conseguindo.

Falo muito, tento falar menos, mas tenho certa urgência na vida. Ouço, absorvo, mas também gosto de tagarelar. Ano passado viajei para um retiro, não tinha nome, nem regras, mas assim que entrei no carro, a estrada me convidou para brincar de alguma coisa. Jogos físicos ou intelectuais, eu amo. E não é porque sou competitiva, mas é que sou animada com ou sem propósitos. E sou boa, dou dicas, passo a bola, ajudo a outra equipe na mímica. Gosto, essa sou eu. Prazer. Pois, entrei no carro e já fui sendo clássica Letícia: “Vamos brincar de alguma coisa?” Um dos rapazes disse: “Vamos, de praticar o silêncio”. Não fiquei triste, pelo contrário. Pensei que taí um jogo que faço pouco. E assim subi a serra em silêncio, invadida por anjos e demônios e vazios e ondas. OK. Ninguém morreu.

Um outro amigo vai para um retiro onde fica uma semana sem falar, meu problema jamais seria esse, mas sim o fato dele ter dito que a última refeição foi às 18h. Aí o bicho ia pegar pra mim. Existe um lugar no jejum, só que na outra vida eu passei fome, eu sei, e não pode faltar comida nessa, se não me tornarei um monstro sem volta. Capaz de me acorrentarem em um poste pois, sim, eu roubaria comida. É tão fácil julgar do quentinho da nossa casa, com os armários cheios de recheios e massas. Ah, o ladrão, que horror.

Acho curioso quem vai para o extremo para arriscar o equilíbrio. A grande maioria, concluo. Não sei se é porque sou filha de equilibrados, acabei pegando um pouco ou se é porque sou muito cagona para umas coisas e muito corajosa para outras que acabo balanceando. Não sei. Mas tenho pensado muito sobre esses projetos extremos, como “A mulher que passou 1 ano sem se olhar no espelho”, “A menina que passou 1 ano sem comprar roupa nova”, “O homem que passou 1 mês sem tomar banho” e mais tantas frases sensacionais e causadoras de repulsa ou curiosidade.

Os equilibrados podem ser confundidos com gente em cima do muro, lamentavelmente. Existe um lugar da percepção que pode ser sentido em sua máxima potência, só que dentro. E para fora, porque possuímos noção, não gritamos como cachorros loucos. Ainda assim, sentimos. A diplomacia já me valeu muito. Elogios e críticas. “Que elegante, Letícia, como você não se intromete, que coisa rara” ou “Você não é intensa de verdade e adora falar ‘imagina’ quando o circo pega fogo”. Ouço tudo. E brinco de mola. Lembra daquele brinquedo, sem objetivo? Era só pra equilibrar. Eu, obviamente, adorava. Mãozinha nervosa horas naquilo.

Sobre esses projetos extremos, queria propor alguns para você, querido leitor e leitora. Podemos tentar juntos. Vamos criar um blog, aparecer nas mídias, ser enaltecidos por uma marca de refrigerante que usará uma # dizendo que a gente “faz a diferença” ou algo do gênero. Risos? Choros.

Mas sim. Lanço:

– Que tal passarmos uma semana sem reclamar?
– Que tal passarmos uma semana sem falar mal de alguém?

O que colheremos com isso? Bom mocismo, caretice, paz espiritual, equilíbrio, sorte, nada, tudo? Algo? Não é pra virar monge ou engolir sapo, eu estou falando sobre tentar. Aquele momento que você pode sempre fazer parar, respirar e “Olha, você está falando no volume 18, mas eu vou falar aqui no 3 mesmo”.

Fiquei a fim de arriscar. Mando notícias.

Do manicômio ou do monastério.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
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* Imagens: Jiwoon Pak

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Informação

Publicado em 11/04/2014 por em Featured, Letícia Novaes.
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