ORNITORRINCO

ESSA É PRA CASAR

Quem ainda não casou que case logo: Uma nova lei do governo, prestes a entrar em vigor, vai decretar que antes de poder fazer um casamento tradicional, com festa, vestidinho branco etc e tal, o casal tem que ter pelo menos oito anos de união estável.

E aí eu pergunto: quantos casamentos deixariam de acontecer caso isso fosse verdade?

Casamento é um ritual bonito, de fato, mas acho que há algo de podre no reino da Dinamarca. A minha primeira objeção é que existe toda uma indústria e um aparato subliminar que reforça a ideia de querer casar de branco na igreja.

Ainda não é tão modinha no Brasil, mas dando um google rápido em inglês descobri 32 reality shows sobre casamento, i.e., vestidos, noivas, festas, jamais sobre como ter uma relação saudável. Isso já diz muito sobre o quanto de energia investe-se de forma torta no assunto. As meninas de educação tradicional são condicionadas desde a infância, em especial pela TV, a quererem realizar o “sonho” de se casarem de branco. Se uma mulher não tivesse investido tanta energia de coroar o sonho da infância de ser a princesa encantada, com o vestido perfeito, cabelo impecável e as flores mais lindas em um dia especialmente dedicado a celebrar o fato dela ter conseguido ser “a pra casar”, a que laçou seu homem, bom, quanta energia ela não poderia ter dedicado a outras coisas, ou a encontrar um companheiro compatível para uma parceria de vida.

Expressões que são péssimas como “essa é pra casar” 
são quase ostentadas, desejadas por muitas mulheres 
como se fosse bacana, um super elogio.

Um casamento é um ritual que, dizem os que se casaram com igreja e festa, é um momento único: Noiva de branco com véu e grinalda, meio fraque para os padrinhos, a dama mais fofa que os noivos conseguirem encontrar para carregar as alianças, chinelo com nomes dos noivos, adereços engraçadinhos para descontrair na pista de dança, uma mesa de chocolate e chá, e outra separada com o docinho mais caro que seu orçamento puder pagar. Se for casamento que se preze, vai ter sempre alguém do cerimonial vigiando, porque existe a hora apropriada e permitida de se fazer tudo, inclusive festejar. Quantos casamentos “únicos” você já foi que teve um desses, senão todos, estes itens?

Não bastasse só o simples fato da deturpação do ritual em geral ser tão original e surpreendente quanto o Faustão, minha outra objeção contra o casamento é que ele é cheio de simbologias que reforçam o machismo.

Pense que ritual sacana. A noiva, que é uma dessas moças para casar, vem sempre de branco, pura, imaculada e “virgem”. Simbologia que ao meu ver reforça a crença de que mulher “pra casar”( leia-se: ser sua companheira) é mulher virgem. Quanto mais rodada mais desvalorizada, fato. Os rapazinhos não querem necessariamente casar com uma virgem, mas ela não pode se afastar muito desse modelo machista da mulher pra casar virgem de branco. Afinal, as que deram muito ou que soltaram a periquita na primeira noite raramente serão “pra casar”. O pai da noiva entra sempre que possível com a filha e a oferece ao noivo – e frequentemente paga a festa. 

Na festa do último casamento que fui tinha um grupo de machos já bêbados fazendo uma brincadeira interessante, para não dizer imbecil. Eles estavam bebendo cerveja, que é justo um produto escrotizador e sexualizador das mulheres abertamente. No mundo da birita as gostosas são associadas ao produto, reforçando a posição da mulher objeto a ser consumido junto com a loira geladona, expressão que eu acho bem imbecil, diga-se de passagem. Esse assunto já é bem batido e nem é o foco do texto, mas de novo, só pra ilustrar esse pequenos detalhes reforçadores do machismo que estão em todo canto e ninguém liga muito. Voltando ao assunto, ninguém liga pra nada quando esta bêbado de cerveja como o grupinho de boys. Eles olhavam para as mulheres que passavam e diziam de acordo com os critérios mais escrotos: Essa é pra casar.

Se tem uma expressão que é vagabunda e babaca, em especial contra às mulheres é: Essa é pra casar.

O problema do modelo machista de casar na igreja, etc e tal, é que as mulheres que são as mais prejudicadas, são frequentemente as que mais o reforçam. Expressões que são péssimas como “essa é pra casar” são quase ostentadas, desejadas por muitas mulheres como se fosse bacana, um super elogio. As mães propagam, os rituais e a cultura reforçam, as crenças populares reafirmam.

Quantas vezes já ouvi as cachorras, as preparadas e o baile todo achando que é muita onda dizer: “ah não, eu sou pra casar!” Quantas mães acham bonitinho que o filho de 5 anos é “pegador”. Me diz uma que acha bonitinho a filha a ser “pegadora” – é um eufemismo para vagabunda piranhuda. Logo, cuide de sua reputação, se é pra ser vagabunda piranhuda, então seja na moita, case jurando ser virgem e faça como uma mulher que eu conheci que na noite de núpcias, foi ao banheiro rapidinho e fingiu um sangramento de hímen rompido.

Mais uma vez o machismo está em considerar o homem pegador como atraente. As moças têm a curiosidade de saber o que o gostosão tem de especial, afinal por que tantas quiseram ele?

Não estou propondo que relações descartáveis sejam estimuladas, mas que haja um tratamento igual aos pegadores e pegadoras. Não é nada raro ouvir uma mulher falando de um galinha “Ruim com ele, pior sem ele” ou o que ouvi de uma mulher que era amante de um cara, “Prefiro ele pela metade do que nada dele”. Realmente, né? O que seria de uma mulher sem um ou meio bosta ao seu lado, tadinhas de vocês. E afinal ninguém quer ficar e morrer sozinho, então é melhor se agarrar mesmo ao seu bosta, porque existem mais mulheres do que homens.

Essa frase é recorrente e é levada à sério por muitas mulheres, como uma amiga minha de 50 e poucos anos que sempre diz: “Tá difícil… Tem muito mais homem do que mulher no mundo”. Além disso essa estapafúrdia é usada pra reforçar a crença de que está difícil conseguir alguém bacana por causa desta estatística. Ok, a estatística é verdadeira, mas pera lá gatona, qual é a relação do ânus com as calças? Como se esta estatística tivesse uma relação direta e precisa com homens e mulheres solteiros, e segundo, como se o simples fato de haver mais mulheres significasse obrigatoriamente que uma mulher tem que se contentar com qualquer merda e agarrá-lo se ele quiser casar.

Eis aí algumas crenças que se propagam em especial pelas mulheres, sabe-se lá porquê, e que estimulam mais e mais homens a se sentirem no direito de serem babacas com essas pobres coitadas que só querem ser aquela mulher pra casar.

A Bruna Ex-Surfistinha, uma que jamais seria pra casar mas casou, falou uma frase interessante. “O machismo talvez diminua, a prostituição e as traições talvez acabem quando acabar a hipocrisia de mulher pra casar e pra transar.”

Toda essa ironia e quase teoria da conspiração pode parecer exagerada e descabida, mas não acho lá muito desconectado da ideia muito comum até hoje em países como India e China onde bebês do sexo feminino são mortos frequentemente pelo simples fato de serem fêmeas e não machos. A diferença é que nosso machismo é mais ardiloso, mais velado, e quando o machismo é mais sutil e já está tão arraigado na gente, um simples “essa é pra casar” pode passar facilmente batido e parecer inofensivo.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 09/04/2014 por em Franco Fanti.
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