ORNITORRINCO

GANHAR OU PERDER, MAS SEMPRE COM DEMOCRACIA


Para Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira

Democracia Corinthiana. O que essas duas palavras incitam em você? Um bando de loucos que acham possível misturar futebol e política? Uma piada de paulista? Ou um movimento que em muito colaborou para a redemocratização do país?

Sábado (05/04) à noite fui a uma sessão do festival “É Tudo Verdade”, o saguão do cinema já vivia um clima de estádio de futebol dos anos 80, fila, ingressos esgotados sem venda antecipada, sem internet e um amontoado de gente querendo entrar pra ver o espetáculo. A diferença ficou pela prazerosa ausência da polícia que naquela época batia sem dó (só naquela época?). Cheguei uma hora antes e, mesmo assim, foi difícil arrumar ingresso, a galera já se empurrava na entrada da sala, cantando e girando a camisa naquele clima que antecede as grandes decisões seja no Pacaembu, na Candelária, no Maracanã ou na Praça da Sé. Quando consegui entrar no estádio, a arquibancada já estava tomada, então me dirigi para a primeira fila, a extinta geral, pra ver tudo daquele lugar do qual você perde a perspectiva do campo, mas ganha a proximidade física do calor da emoção.

Democracia em Preto e Branco era o jogo daquele sábado à noite, um filme de Pedro Asbeg que mistura futebol, o nascimento do rock brasileiro dos anos 1980 e o processo de redemocratização do Brasil. A Democracia Corinthiana não me era muito familiar, porém ocupava um lugar meio mitológico no meu universo futebolístico. Um nome estampado em vermelho e preto numa camisa do Corinthians, uma simpatia pela ideia, e só. Por todos os deuses, quanto ignorância, a cada minuto que o jogo avançava o filme ia me mostrando o quão pouco eu sabia da importância de toda essa história. Saí do cinema com a seguinte sensação: “Pra frente Brasil” é o caralho! A parada é Rock and Roll!

Quando o juiz apita o início do certame, a voz e o sotaque paulista da Rita Lee entram narrando o que vai se mostrando como um filme fundamental para entendermos o Brasil do início dos anos 1980, mas também imprescindível para pensarmos o Brasil de agora. Depois de ser colonizado e explorado por mais de 300 anos, o Brasil se tornou uma república em 1889, a democracia entrou em serviço, mas logo saiu pro almoço e só voltou depois da segunda guerra mundial. É com essa simplicidade contundente que a partida começa e, como num gol relâmpago, nos dá uma nova visão de todos aqueles fatos (nem tão) distantes. O golpe militar e a presença de um funesto Vicente Matheus na presidência do time mais popular de São Paulo acabam ganhando contornos de irmandade, de uma maçonaria que já nascera ultrapassada. Mas uma geração talentosa e politizada começa a mudar por dentro a história do time do Parque São Jorge.

Comemoração Black Panters

Quando é que você vê um médico que, depois de formado, resolve virar jogador profissional de futebol? O Magrão, o doutor Sócrates, o cérebro da história toda, o cara que comemorava seus gols com o punho em riste à la Black Panters, tinha ao seu lado o endiabrado Wladimir, um operário da bola, negro retinto, articulado, ligado aos movimentos sociais e às centrais sindicais. Quando a estes dois se juntou um roqueiro de 19 anos, cabeludo, a coisa começou a ferver. Walter Casagrande trouxe a guitarra elétrica para um universo que só se relacionava com a cuíca e o pandeiro, num momento do país no qual a mudança da trilha sonora se fazia presente e essencial. Bandas como Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ira, Ultraje a Rigor, Blitz e tantas outras gritavam hinos de amor e canções de protesto num momento de reabertura política. A ditadura militar parecia perder o jogo depois da anistia iniciada em 1979, mas vinha com um esquema tático conservador, fechadinho, um ferrolho no meio de zaga. Como furar esse bloqueio?

Escute: 
Estado Violência – Titãs
Inútil – Ultraje a Rigor

Com a saída de Vicente Matheus da presidência do Corinthians, Waldemar Pires assume o cargo e, pelas vias transversas do surrealismo, coloca como diretor de futebol o sociólogo Adílson Monteiro Alves. Consciência política, guitarras distorcidas e um sociólogo no comando, que timaço! A Democracia Corinthiana explodiu. No documentário, Sócrates diz que o acontecimento mais importante foi a mudança do léxico do futebol naquele contexto. Os jogadores estavam cansados de serem apenas funcionários presos a uma lógica hierárquica, repressora, que os encarcerava em concentrações e os tirava a liberdade. Nada muito diferente do funcionamento político do Brasil naquele momento. Assim, a conversa no vestiário mudou e, com um sociólogo ao lado do time, o Corinthians fez algo único no país: construiu uma equipe que não obrigava os jogadores a se concentrarem, que tomava decisões de forma horizontal com todos votando, além de repartir os bichos das partidas não só com os que nela atuaram, mas com todos os funcionários do clube, do roupeiro ao ponta esquerda. Horizontalidade, voto direto universal, distribuição de renda, um léxico que invadia o mundo do futebol enquanto em Brasília ainda era 1968.

As imagens de arquivo e as entrevistas com jogadores, jornalistas, músicos e políticos da época são fantásticas, emocionantes. A trilha de músicas que marcaram a vida de quem tem mais de 30 anos é matadora, mas o mais incrível é perceber o desejo daqueles jogadores de se manifestarem, de perceberem o alcance da linguagem do futebol num país amordaçado e censurado em meio ao caos social em que estava submerso, e a vontade de conclamar a massa para uma mudança. Faixas, cartazes e mensagens nas camisas começaram a surgir. A Democracia Corinthiana esquerdista era estampada no uniforme do Corinthians em letras sinuosas que lembravam o logo da Coca-Cola (ironicamente, um dos maiores símbolos do endemoniado capitalismos ianque), cultura pop, cultura de massa Corinthiana gritando em tom de Rock para o mundo. Mas o jogo da ditadura era pesado, e até o futebol os milicos tentaram calar. Em 1982, pela primeira vez, haveria eleições diretas para o governo de São Paulo, o 15 de novembro se aproximava e o Corinthians, sem patrocínio na época, entrou em campo com “DIA 15 VOTE” estampado na camisa. Começava a campanha para acordar o povão para a democracia, para o voto livre. A censura tesourou a camisa, mas não matou a ideia. A equipe voltou a campo carregando a enorme faixa que dizia “Ganhar ou perder, mas sempre com DEMOCRACIA”. Aquilo não foi uma resposta tapa na cara, foi um balãozinho, um chapéu muito bem dado, uma bola entre as pernas humilhante, deixando os milicos de quatro no chão. A Gaviões da Fiel (quem diria que um dia eu escreveria com simpatia esse nome) exibia faixas como “Anistia ampla, geral e irrestrita”, “quem escolhe o presidente é a gente”. Mas os militares tinham o juiz do lado deles, o roubo era descarado, da bomba do Riocentro até prisões na arquibancada.

A linguagem do futebol percorre e costura todas as camadas sociais do Brasil, ensina Sócrates, é um papo que une a todos, saber e poder usar o futebol como espaço de livre troca de ideias é algo que devemos aprender com a Democracia Corinthiana. Em 2010 encontrei Dr. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira num boteco de São Paulo, trocamos uma ideia sobre futebol e democracia. Perguntei pra ele o que mais tinha doído: a derrota pra Itália em 82 ou a derrota das Diretas Já em 84? Ele só conseguiu dizer, olhando pro nada: “eu queria ter ganhado”. Entendi ali porque todo aquele sonho dos anos 80 fica na minha cabeça como apenas um mito distante. No último e mais lotado comício pelas Diretas Já, Sócrates estava praticamente vendido para a Fiorentina, mas subiu ao palanque e gritou: “se a emenda das Diretas for aprovada eu fico no meu país”: aplausos! Mas ele ainda volta e se corrige: “Se a emenda das Diretas for aprovada eu fico no NOSSO país”!!! O Vale do Anhangabaú vem abaixo e foi difícil segurar as lágrimas naquela explosão estilo gol do título aos 43 do segundo tempo. Mas a vida sempre foi um perde e ganha, ante a derrota da emenda com penalty roubado aos 45 do segundo tempo, o Magrão foi mesmo jogar na Itália, o título não veio, Brasília não era o Brasil, era um universo paralelo que cagava para os milhões que gritavam por liberdade nas ruas. Fomos garfados nas diretas e a dor foi maior do que a derrota da seleção de 1982 no amaldiçoado gramado do Sarriá. Foi sem dúvida a maior broxada da história brasileira, como aparece no texto de Arthur Muhlenberg narrado pela Rita Lee no filme.

Gaviões da Fiel com a faixa: Presidente quem escolhe é a gente.

Faixa: “Ganhar ou perder mas sempre com democracia.”

No entanto, o espírito daqueles anos de lutas, dribles, lançamentos pela democracia não foram totalmente calados pela estupidez da zaga adversária. Casagrande é humilde no filme, saindo-se com a bela imagem de que a Democracia Corinthiana apenas bateu um pênalti que havia sido construído pelo time anterior. Um time de ativistas, artistas, políticos, jornalistas que sonhavam com um país livre. Se hoje um eco da ditadura ainda se escuta, na violência do Estado e na estranha narrativa dos principais meios de comunicação, há um grito que vem das arquibancadas, que vem das ruas ansiando por mudanças. #nãovaitercopa? Vai ter Copa. A máquina da grana é por demais avassaladora. Mas e se soubermos como mudar, mais uma vez, o léxico do futebol? Se conseguirmos estampar democracia e não Nike na camisa da seleção brasileira? E se o Neymar entender que ser campeão é um detalhe? Sonho, mito, utopia, pode ser. Mas aquele bando de loucos dos anos 80 sonharam alto e isto me inspira.

Quando me despedi do Magrão, pra sempre, lá naquele boteco de São Paulo, já estávamos bêbados. Sou um rubro-negro apaixonado, mas dei um abraço naquele Corinthiano maluco e falei pra ele aquela frase que costumam repetir para o Zico: “se você não ganhou uma Copa do Mundo, azar da Copa do Mundo”.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 07/04/2014 por em Domingos Guimaraens, Featured.
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