ORNITORRINCO

ESTANDO LONGE DO FATO DE ESTAR MEIO QUE PERTO DE TUDO

Estou meio que perto de tudo. Estou na Ásia, estou no dia seguinte. Tenho o francês circulando em mim por amor, estou lendo Allen Ginsberg e achando que ele deu muito de beber a David Foster Wallace, de quem adapto o título deste texto. Estou dormindo quando em casa é dia e, antes de apagar essa luminária de luz branca e de me entregar à cama que revela a umidade de Java, a ilha onde estou – uma sensação de maresia constante em meio à fumaça produzida por 10 milhões de pessoas –, viajo pela América de Ginsberg, pela Downtown Frisco, os neons Johnny Walker, a rádio que dá notícias do Vietnã, o mesmo que vejo aqui nos uniformes bege a la Apocalipse Now.

JAKARTA

Estou perto do avião da Malaysia. Estou no meio de 17 mil ilhas. E elas não são todas. Estou cercada de água e também de motos. São 4 mulheres naquela, duas adultas e duas ainda crianças.

O cenário é cinza. Aqui não é nem velho nem moderno. Uma cidade que não entrega a idade. Mas com um nome que entendo como sendo feminino: Jakarta. Como as cidades invisíveis de Ítalo Calvino.

Estou longe desse fato de estar meio que perto de tudo. Estou também em lugar nenhum – em todo e qualquer tempo. É tudo uma questão de olhar para o calendário e o relógio global do iPhone.

Isso acontece comigo, e com qualquer um, tenho certeza. 
Querer muito encontrar alguma coisa e encontrar. Ou alguma 
pessoa. Encontrei Agnès Varda nessa temporada depois de 
muito querer. Concluí que qualquer pessoa ou coisa no 
mundo é encontrável, basta movimentar-se.

Estou perto e longe de todos ao meu redor. E tem um lugar invisível onde as nossas histórias se cruzam: no Bob Marley e no Che Guevara estampados, no paz e amor universal, no avião perdido que estamos acompanhando. No motivo de se estar aqui. Na condição de natural ou de estrangeiro, na de quem recebe ou na de quem paga. No mar.

O mar, que na França é uma palavra feminina. Ver o mundo, sintetizando, é uma questão de onde você nasce. A mar, em português, teria um pouco do cair de amor, que a gente traduz em paixão. Seria bonito. O planeta, sem gênero na língua inglesa, é entendido também como uma pequena mulher por Chris Marker, cineasta, fotógrafo, escritor, acumulador e um gênio em todas essas funções. Morreu em 2012 aos 90 anos, em Paris, e entre tantas coisas, deixou uma coleção de guias alternativos de viagem com impressões subjetivas para além do turismo: “Petite Planète”.

Tenho Marker em Jakarta comigo, num exemplar sobre a Grécia. Estava numa caixa de livros por um euro num sebo do Sena. Isso acontece comigo, e com qualquer um, tenho certeza. Querer muito encontrar alguma coisa e encontrar. Ou alguma pessoa. Encontrei Agnès Varda nessa temporada depois de muito querer. Concluí que qualquer pessoa ou coisa no mundo é encontrável, basta movimentar-se.

BALI

Estou em Bali. Um avião da Sriwijaya Airlines me trouxe até aqui na madrugada. Bali não é invisível, como as cidades de Calvino, nem cinza como Jakarta. Bali tem cor. Uma ilha, sem dúvida, feminina, como há de ser uma ilha. Aqui, ela tem tato nas mãos de balinesas massagistas. Elas existem, e em série, fora dos panfletos turísticos. Bali é do turista, essa condição que faz de uma cidade toda e qualquer, e de mim, ninguém e mais um.

Desembarquei no hotel e junto com meus companheiros de viagem (somos três, estamos viajando a trabalho) cumpri o fetiche de chegar à um paraíso tropical e receber massagem. É verdade, é possível tirar as malas das costas e mesmo antes de saber qual será seu quarto pelas próximas noites – um quadrado de luz fria e detalhes verdes na decoração, padronizada numa estética de bem-estar-bambu, na simplicidade contemporânea, na releitura boutique do que seria hoje um albergue da juventude, com exceção da trilha sonora eletrônica que toca em volume desagradável nas caixas de som dos corredores, fugindo à proposta spa, e que te faz pensar em Ibiza, sem mesmo nunca ter pisado lá – receber um tratamento que começa com lavagem de pés, chá, escolha da essência do óleo e segue coreografado por orientais vestidas em quimonos sóbrios. Uma hora e meia a 20 dólares com direito a apagar na sequência.

Casa de massagem em Bali.

As massagens estão anunciadas por todo lugar no centro de Bali, essa mistura de Guarda do Embaú adolescente com o mundo misterioso dos resorts de luxo. É sábado, 10 da noite, estou saindo para jantar com a companheira 1. Na rua, anúncios de comida se confundem com os de pequenos spas e centros de estética. Rapidamente entendemos que ainda é possível, àquela hora do final de semana, fazer uma massagem, mesmo que expressa. Optamos por fazer antes do jantar, estamos mais cansadas do que famintas.

O primeiro salão de beleza – um lugar que pode ser tachado de kitsch, uma espécie de cenário de filme asiático – está com todas as atendentes ocupadas. Uma outra placa está junto à porta de um restaurante e nos faz passar pela piada pronta de perguntar se ainda é possível fazer uma sessão. Recebemos um não escrachado e um cardápio de comidas. Explicamos que precisamos consertar as costas antes de comer e que vamos seguir nossa busca.

Poucos metros à frente, um salão em cores quentes nos recebe, e como de costume, mais através de contato visual, da comunicação gestual e menos pelo pouco inglês que se fala na ilha. Mostramos a que viemos apertando os ombros, o pescoço e a cabeça. E apontamos a opção no menu: 5 dólares e 30 minutos. Vamos nessa. Dessa vez é um homem e uma mulher que nos fazem a coreografia.

Balineses aprendem cedo a fazer massagem. Uma especialidade passada de geração em geração para ajudar na formação do corpo do bebê e no crescimento da criança, nossa tradutora explica. Ela tem certificado de massagista e ouviu ainda criança que tinha talento – uma mão direita pesada e idealmente forte.

Conhecedoras de camadas profundas do corpo humano, e por isso um tanto bruxas, as massagistas daqui são, ainda, um pouco ciganas: nos cercam na praia já pegando nos pés e nos ombros. Na areia, elas têm as mãos mais calejadas.

Restaurante em Jogjakarta

Embarco num voo da Malaysia Airlines e dessa vez os jornais na entrada do avião não estampam o acidente recente, como no primeiro trecho que fiz pela companhia. Chego em Jogjakarta. Jogja quer dizer boa, e karta quer dizer cidade – ensina o taxista. É o colorido mulçumano indonésio que eu ainda não tinha visto. A comida de rua, os mercados debaixo das marquises, as mesas no chão nas barracas de calçada, todas lotadas, oferecendo, em sua maioria, pratos com carne de porco. Passo menos de 48 horas nesta cidade.

SEUL

Acordo em Seul. Paraíso do wi-fi, império da Samsung, capital mundial da cirurgia plástica.

Seul de noite

Seul é o futuro. É o presente. São emoticons ambulantes em meio a uma cultura milenar da disciplina. A piração estética de meninas que desfilam o estilo mangá convivendo com o significado de cool, com o novo Soho, o contemporâneo de roupas bem-passadas de mulheres e homems estampando rostos auto-confiantes e bem sucedidos. O Kpop do sucesso Gangam Style e a música tradicional dos instrumentos desconhecidos do Ocidente. A primavera despontando nos sorvetes das formas e cores mais bizarras e a sedução da cidade que te pega pela boca, na comida pura, de ensinamento budista, originalmente servida aos reis.

Estou na beira do rio que divide a cidade, o sol está se pondo. Penso se é a primeira vez que vejo um pôr-do-sol no Oriente.

DALLAS

Treze horas e estou no Texas, onde faço escala, de volta ao dia 27 de março de 2014 que deixei em Seul. Chego antes do horário que parti. É como ganhar um dia na vida. Ou aceitar que o tempo, da forma como o contabilizamos é algo restrito. Que o tempo, enquanto espaço, é maior. Se é que isso não é uma asneira científica que estou cometendo agora. Estou longe do fato de estar meio que perto de tudo.

Clara Cavour é documentarista.

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*Todas as fotos: Clara Cavour

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Informação

Publicado em 02/04/2014 por em Clara Cavour, Featured.
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