ORNITORRINCO

SOLIDÃO PREENCHIDA DE AFETO

Uma chave que só você tem. O silêncio quebrado apenas pelos seus barulhos. Nudez sem lugar certo. Bagunça que não atrapalha ninguém. Suas comidas, seus horários, seus objetos. Ninguém pra passar Gelol naquele ponto sacana das costas. Ninguém pra perguntar que cara é essa. Nada pra disfarçar, ninguém com quem esbarrar.

Criada numa família de pais casados, primogênita de dois irmãos, com dezessete primos muito próximos, estar sozinha nunca foi regra. Por isso causou espanto a decisão de inventar uma casa só minha – ainda que aos 26 isso não fosse propriamente uma precocidade. Eu continuava tendo pai e mãe, irmãos, namorado, mas na hora de dormir trancava a porta por onde ninguém entraria sem um convite, e nas manhãs de domingo podia passar horas sem ouvir minha própria voz, até que um telefonema ou música pulando da cabeça pra boca trouxessem a voz pra cena.

No fim e no princípio de tudo a palavra tão temida: solidão. Estar sozinho nunca foi sinônimo de ser solitário, disso eu nunca duvidei. Solidão preenchida de afeto: sempre desejei. No silêncio do meu mundo, aqui de onde escrevo, onde me curto e me cutuco, é que se dá a alquimia de ser pessoa humana. É onde planto o que colherei nas parcerias que cultivo. Me saber amada por gente que aqui não está, torna macia essa terra. A moderna tecnologia, as onipresentes telecomunicações engolem um bocado desse espaço mas não o matam – porque eu escolho que não. Tem livros e cadernos, canetas e tintas, bananas de isopor e bustiês amarelos ao meu redor. Sozinha crio novidades, ecoo sensações. Em conversas em voz alta, em língua estrangeira, ensaio sagazes discussões. Com tinta nos cabelos, cera nas pernas, pinça nos dedos, me seduzo no espelho.

No fim e no princípio de tudo a palavra tão 
temida: solidão. Estar sozinho nunca foi sinônimo 
de ser solitário, disso eu nunca duvidei. Solidão 
preenchida de afeto: sempre desejei.

Esse espaço tão quieto às vezes vira casa de dois. Aí é reaprender barulhos, horários, sabores. A beleza dos silêncios juntos. As falas bobas. A cópia da chave. Gelol sem esforço. O prazer de mãos se esbarrando no corredor. Noites acompanhadas. Palavras de olhos fechados. E quando o número fica ímpar de novo é recoisar tudo outra vez. Chaves, temperos, a cama imensa, o gosto do silêncio, buracos, iluminações.

Saber ser um é uma arte, e eu me esmero no seu aprendizado. Assim quando faço o convite, quando a chave gira na fechadura, é com o sorriso de quem se acha muito boa companhia. Amigos, amores, corpos e conversas vêm enfeitar a vida que caminha atenta sobre duas pernas roliças. Mão nos tropeços, salto nas alegrias é das lindas coisas das parcerias, mas é preciso saber a temperatura do chão da sua própria casa. Na minha quem entra é gente desnecessária, mas muito, muito desejada.

Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.
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*Imagem da capa: Gregory Crewdson

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Informação

Publicado em 01/04/2014 por em Maria Rezende.
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