ORNITORRINCO

UMA OUTRA COPA DE 1970

Dia desses, passeando pelo oceano árido da programação de TV, me deparei com um documentário sobre a Copa do Mundo de 1970. Havia um prato de comida fumegante diante de mim, pronto para ser devorado, e um filme sobre essa Copa – naquele colorido pálido e anacrônico que é o colorido mais bonito que as transmissões de futebol já produziram – era, portanto, um excelente acompanhamento para o meu feijão com arroz. De cara achei curioso descobrir que, apesar da direção ser de um mexicano, a produção fosse norte americana, visto que a América de cima é notoriamente avessa ao que chamam de “soccer”, com direito até a narração em inglês. Fui em frente. E alguns estranhos pontos me assaltaram as ideias.

Toda vez que o documentário falava da seleção brasileira, o texto narrado – escrito por dois ingleses – oferecia alguns segundos elogiando o futebol da equipe, para então, a cada gol sofrido, destilar um pequeno ensaio sobre o déficit defensivo da equipe verde e amarela. Félix, nosso goleiro, segundo as entrelinhas do texto, não merecia nem o banco do Madureira. Verdade que a defesa brasileira não era grande coisa, but that’s not the point. Vencemos todas as seis partidas, marcamos 19 gols – sofremos 7 –, goleamos a Itália na final, pelos pés de poetas como Rivelino, Jairzinho, Tostão, Gérson, Carlos Alberto e Pelé, e alguém vem me falar da nossa defesa? Quem daria atenção à eventual unha encravada diante do esplendor da beleza de uma Brigitte Bardot?

Ao menos, na história do futebol não são os americanos 
que mandam – e me provoca um prazer cívico o fato de 
algo tão popular não ser protagonizado pelo American Way, 
não por qualquer afirmação anti-americana, 
mas pelo simples prazer da pluralidade.
No entanto, o que mais me coçou a têmpora foi fato de que, acima de tudo, o filme defendia a tese de que a partida que eternizou e fez da Copa de 1970 a maior de todas não foi, por exemplo, a final, em que sapecamos um incontestável 4 x 1 na Itália, então bicampeã do mundo como nós, nem qualquer outra da seleção que terminou levando pra casa a taça Jules Rimet. Segundo o documentário, o que colocou essa Copa no topo da história foi a semifinal disputada por Itália e Alemanha. Entre uma garfada e outra, me vi diante de um reescrever da história, uma nova versão, uma sucessão de pinceladas em cores inéditas sobre algo até então íntimo e inquestionável. Engasguei no bife.

Não que a tal disputa entre italianos e alemães para ver quem iria à final contra o Brasil não tenha sido emocionante. Foi um dos grandes jogos da história dos mundiais. A Itália abriu o placar aos oito minutos do primeiro tempo, e segurou a pressão alemã – apostando no poderio defensivo que até hoje lhe é peculiar – até os acréscimos finais, quando finalmente a Alemanha conseguiu vencer a barreira azurra e empatar. Foram para a prorrogação, e então o improvável se deu.

Seleção Brasileira de 1970

Com quatro minutos, a Alemanha virou o jogo. Quatro minutos depois, a Itália empatou. Passados outros seis minutos, ainda no primeiro tempo da prorrogação, a Itália passou novamente no placar. Intervalo. No início do segundo tempo, a Alemanha empata, mas, poucos lances após o reinício da partida, Gianni Rivera define o placar e sacramenta a vitória italiana: 4 x 3, com 5 gols marcados na prorrogação.

Assim, meu dilema não se deu pelo justo elogio a esse match, mas por ouvir, dito em inglês – que sempre parece a língua da versão oficial dos fatos – que foi por essa partida que a Copa de 1970 tornou-se tão memorável. Não foi, segundo o tal olhar euroyankee, pela cabeçada indefensável de Pelé que o goleiro inglês Gordon Banks conseguiu impedir, em elasticidade paranormal, nem pela jogada de Tostão e Pelé na pintura que foi o gol de Jairzinho, nessa mesma partida contra os ingleses. Até mesmo último gol da copa, do capitão Carlos Alberto, chutando rente a grama até estufar as redes do estádio Azteca, no México, após bola enfiada com displicência artística por Pelé não mereceu especial distinção. Nada disso importou mais do que a vitória italiana na semifinal. O título propriamente foi descrito com metade da excitação. O fato do filme mal mencionar o drible da vaca sem tocar na bola que Pelé aplicou no goleiro uruguaio fez então sentido, pois o pragmatismo anglo-saxão não eternizaria uma bola que não entrou. 

Muito antes de 1970, Nietzsche já nos explicou que 
só a interpretação é verídica. Toda leitura de um fato 
é uma interpretação pessoal sobre outra interpretação.
E eis o óbvio: não existem fatos, só existem versões. Me lembro a estranha epifania que foi descobrir que o mundo considerava – ainda considera – os irmãos Wright, e não Santos Dumont, os inventores do avião. Não que o fato do mundo dizer que algo é real torne essa veracidade incontestável – quantas não são as mentiras que acreditamos, e quantas não devem ser as verdades que não sabemos que não aconteceram? – mas cresci crendo que era incontestável o título de Pai da Aviação dado a Santos Dumont. Verdade seja dita, os irmãos americanos de fato voaram três anos antes. Porém, o fizeram sem testemunhas, e decolando com seu avião de uma colina – o que está mais para cair do que voar, visto que Santos Dumont saiu do chão e pousou por meios próprios. E convenhamos: numa mesa de bar, um feito desse calibre,realizado sem testemunhas, vale uma salva de gargalhadas. Segundo meus conhecimentos de aviação – que são nulos – a verdade é que os três, e muitos outros, são os pais da criança. O brasileiro é reconhecido pelo mundo como um dos mais importantes inventores para a aviação moderna, mas seu pioneirismo é contestado. E cada um que ache o que quiser. Ao menos, na história do futebol não são os americanos que mandam – e me provoca um deleite cívico o fato de algo tão popular não ser protagonizado pelo American Way, não por qualquer afirmação anti-americana, mas pelo simples prazer da pluralidade. Muito antes de 1970, Nietzsche já nos explicou que só a interpretação é verídica. Toda leitura de um fato é uma interpretação pessoal sobre outra interpretação, e não há o fato em si.

Para mim, a Copa de 1970 é a maior de todas pelo gol que Pelé não fez do meio de campo, pela raça com que vencemos o Uruguai nas semifinais, pelas seis vitórias brasileiras em seis partidas, por termos escolhido atacar inclementemente – Zagalo teria dito que enquanto continuássemos fazendo quase o triplo de gols que sofríamos, não haveria problema – por termos nos tornado os primeiros tri campeões mundiais, pela despedida de Pelé das Copas, e muito mais. A disputa entre Itália e Alemanha foi especial, mas um jogo lá e cá, repleto de gols e decido no final pode acontecer em qualquer Taça Guanabara. Já o futebol daquela Seleção Brasileira, não. Aquilo sim foi raro, poético, histórico. Essa é a minha interpretação.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 28/03/2014 por em Vitor Paiva.
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