ORNITORRINCO

COMO ESCOLHER?

No ônibus, escolhem sentar do teu lado? Ou é você que determina ao lado de quem vai sentar? Você olha no olho e espera que o santo bata? Ou você é distraído e cheio de varizes nas pernas e senta onde dá?

Lembrei da Educação Física. Eu não era boa, mas era cheia de entusiasmo. Eu só era escolhida por porque gritava, curtia uma competição, gostava de atiçar um lance. Mas era doido ficar em pé junto de outras gurias bestas da minha idade, esperando que duas garotas mais bestas ainda decidissem qual seria a formação do time. Como se escolhe alguém?

Entrei no ônibus e até poderia sentar ao lado de muitas opções humanas, com seus cheiros variados e seus ante-braços diferentes que possivelmente me tocariam, em algum dos bueiros mal colocados pelo qual o ônibus passaria e sacolejaria um bocado. Mas tive preguiça de decidir e sentei sozinha. No corredor claro, pois é asim que cariocamente aprendemos a nos livrar de um possível assalto. Deixei a escolha para o próximo. Quem me escolheria para sentar ao lado?

Como se escolhe alguém? Desde o ônibus, desde o 
trabalhinho em dupla, desde amigos? A vida não pode 
ser só feita de afinidades e lugares comuns. Que uni-duni-tê 
mais destinado é escolher alguém. Senta aqui do meu lado. 
Entra aqui na minha vida. 
O ônibus, quase de madrugada, é engraçado. Uns voltando de uma jornada longa e outros super frescos partindo para algum grande acontecimento noturno. O mais curioso é que todos, absolutamente todos, querem amar.

Quando a professora falava que algum trabalho ia ser em dupla, também rolava um frisson. A mediocridade colegial iria ser salva por alguns instantes de troca humana, comunicação improvisada e jovem, um alívio na metodologia tão batida que me foi apresentada (não sei se ainda é, tô afastada desse lugar, quando tiver filhos, vou ter que me inteirar de volta). Era meio lindo o momento do anúncio do trabalho em dupla, você logo olhava para sua melhor amiga ou amigo, nem era preciso dizer nada, rolava uma levantada de sobrancelha e tudo era confirmado ali. Mó barato. Mó sensação boa e quente e de ser querida.

Nunca testei pessoas, nunca fui chefe de nada e fiz testes com as pessoas, para ver quem se encaixava melhor em determinado perfil. Quando eu era atriz, fiz uns testes. Desisti. E hoje em dia só atuo vez ou outra quando me querem mesmo, perdão mundo da publicidade que quer determinado nariz para vender margarina, mas não quero mais que avaliem meu nariz para isso. Uma vez fiz um comercial dos Classificados do Globo onde o assistente de direção era meu amigo – por coindência, pois fiz o teste e passei –, ele me disse que houve uma reunião sobre o meu nariz, se meu nariz passaria credibilidade. Muitas exclamações! Publicidade dá dinheiro pra caralho. Papo d’eu parar de pegar ônibus e tudo, mas não dá pra mim não. Lembro de me formar na CAL (Casa de Arte de Laranjeiras – Rio de Janeiro) e todos iam fazer vídeo na Globo, de cadastro, era normal, daí fui porque era o normal. Lembro de dizer “Boa tarde” para o moço, lembro dele não responder e perguntar “Você vai fazer com o cabelo assim mesmo?”, pois eu não tinha escovado o cabelo. Naquele dia virei uma criança sábia que olha para um rinoceronte no zoológico e conclui: “Esse não é o meu mundo”. Escolhi outras coisas. Lembro dos meus amigos atores fazendo testes e até já trabalhando com algumas produções e eu lá em Alto Paraíso num encontro hippie que me rendeu histórias, poesias, conhecidos, e só isso. Tudo isso.

Sou boa de escolher objetos, sabores. Sou rápida, sigo uma intuição maluca que o universo me concedeu e SIM, ARROZ COM PATO, perfeito, foi. Obviamente sou rodeada de pessoas que demoram a escolher pratos e objetos e filmes e músicas, mas tudo bem, aprendo muito com esses amigos. Sei que eles também devem pescar algo de mim. Será que a escolha vem da ausência? Escolhemos o diferente para a lei das compensações atuar? Se bem que existem uns egoístas que escolhem o semelhante para que nenhuma coluna seja estremecida. Complicado.

Na praia, se estou sozinha, e quero pedir para alguém dar uma olhadinha nas minhas coisas, também preciso escolher. Decidir um ser humano para não deixar que roubem meus mini pertences. Como decidir? Esperar que o santo bata? Escolher aleatoriamente? (Há algo que seja REALMENTE aleatório, tô tendo essa dúvida, Brasil). Percebi que geralmente escolho mulher, talvez porque sou uma, e não haverá uma confusão sexual (ou talvez sim, risos), mas me vejo mais próxima e peço. Às vezes pedem pra mim, me sinto com cara de boa ou cara de responsável, engraçado. E olha que toda vez que vou na casa do meu pai esqueço a chave. E outro dia perdi o cartão. Não sou tão responsável assim. Tenho a perna cheia de roxos. Mas sim, posso olhar todos os seus documentos e iPhone enquanto leio meu livro e você se banha no mar do Rio de Janeiro, vai lá, queridão.

Como se escolhe alguém? Desde o ônibus, desde o trabalhinho em dupla, desde amigos? A vida não pode ser só feita de afinidades e lugares comuns. Não é possível que a chegada de uma pessoa na nossa vida seja randômica. E digo de todas as pessoas, não só grandes amores ou grandes amigos. Que uni-duni-tê mais destinado é escolher alguém. Senta aqui do meu lado. Entra aqui na minha vida. Encosta aqui seu ante-braço no meu cotovelo. Seja do meu time. Toma conta da minha bolsa enquanto eu esqueço que meu celular existe e ouço sereia embaixo d’água. Que sorte escolher. Que sorte não escolher.

O ônibus, quase de madrugada, é engraçado. Uns voltando de uma jornada longa e outros super frescos partindo para algum grande acontecimento noturno. O mais curioso é que todos, absolutamente todos, querem amar.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 26/03/2014 por em Letícia Novaes.
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