ORNITORRINCO

MAIS PRAZER DO QUE DOR, POR FAVOR – PRELIMINAR

Uma atriz posa pelada para uma revista masculina sem se depilar completamente e isso é notícia. Há os que gostam, há os que têm nojo, mas ninguém está indiferente. Um jogador de futebol é aplaudido e repudiado ao postar uma foto na internet beijando na boca um amigo. Outro jogador é barrado por posar nu numa revista. A cena do beijo gay vai ao ar na novela das nove. Uma ex atriz pornô lança um romance erótico elogiado pela crítica. Um vídeo de humor na internet mostra um ginecologista examinando uma mulher e encontrando em sua boceta a imagem de Jesus. Um político religioso condena o vídeo e sugere que o proíbam. Produtoras e distribuidoras de filmes se recusam a produzir Blu-ray de fitas que exibem cenas de sexo explícito. O casamento gay é um tema amplamente debatido, mas em alguns países há leis que criminalizam a homossexualidade chegando até a pena de morte. O Papa diz que acha que tudo bem ser viado desde que a bicha reze e não dê o cu. Mas quem é ele para julgar?

Todos estes fatos, mais ou menos recentes, falam de preconceitos, interdições, atrações, desejos, tesão e repulsa que navegam no enorme oceano das políticas sobre a sexualidade, nas visões religiosas sobre sexualidade, no vasto campo do erótico e do pornográfico. O que gosto nestas conversas é que elas expõem a necessidade de se falar sobre sexo, sobre tudo aquilo que interditamos e que só é lícito às escondidas ou quando, segundo as marchas pela família, é sancionado pelo casamento. 

Que mal haverá em contemplar seres humanos, de 
qualquer sexo, a se possuírem? Como é importante que 
o erótico e até o pornográfico estejam mais presentes e não 
tão interditos. Mais prazer do que dor é um bem necessário.

Cresci ouvindo a banda Ultraje a Rigor e muitas de suas músicas falam sobre sexo, desde o hino de louvação machista à mulher até o grito libertário de “Sexo”. Sempre gostei da relação entre a cena de sexo censurada na TV e aquilo que passa no jornal. E é eleição, é inflação, corrupção e como tem ladrão, assassino e terrorista e a guerra espacial. Qualquer cena de fuzilamento ou pancadaria entre torcidas organizadas aparece publicamente sem problemas, mas basta um peitinho ou um pau mole pra galera censurar geral. Recorrendo a exemplos mais históricos o quadro “A origem do mundo” de Courbet, de 1866, só foi exposto publicamente em 1995, enquanto o “Tres de Mayo en Madrid” de Goya, de 1814, ou a “Execução de Maximiliano”, de Manet de 1868, eram exibidos desde o século XIX. 

Assassinatos, massacres, violência, sanguinolência não são nenhum problema, mas sexo não rola. Sexo nunca foi algo interdito pra mim, claro que há sempre interdições, mas era possível falar sobre isso em casa, e quando criança eu achava que era assim em todo o lugar. Afinal, quando eu tinha 12 anos minha mãe me perguntou se eu era viado, e que não tinha problema dizer sim porque ela e meu pai me apoiariam totalmente. Foi traumático pra mim. Fiquei um tempo achando que ela queria que eu fosse viado, mas eu não conseguia ter tesão em homens. Talvez eu não tenha resolvido esse trauma até hoje, e não confio em quem diz nunca ter duvidado da sua sexualidade, a dúvida aqui é mais importante que a certeza. Mas a minha história pessoal não importa, o que importa é perceber que somos filhos de uma geração que viveu duas revoluções sexuais, uma nos anos 1960, com o advento da pílula e a libertação da mulher que podia escolher quando engravidar, e outra quando esta mesma geração tinha mais de 50 anos e os homens não teriam mais problemas de impotência com o advento de medicamentos como o Viagra. Os últimos 50 anos foram produtivos para a descriminalização do sexo.

É um pouco óbvio que a poesia erótica não é um privilégio do Ultraje a Rigor, ela acompanha a humanidade desde seus primórdios. Mesmo antes da linguagem escrita, pinturas rupestres de paus e bocetas aparecem por aí. A boceta rupestre mais incrível que eu já vi está no filme “A Caverna dos sonhos perdidos” de Werner Herzog. Ela é pintada numa estalactite e sua forma em V, aproveitando o formato da pedra, tem toda a volúpia de uma mulher pré-histórica.

As esculturas pornográficas do templo de Khajuraho na Índia também são incríveis, mas não poderiam aparecer em nenhum canal de TV. Sobre essa censura valem as palavras do poeta Italiano Pietro Aretino, que lá do século XVI já mandava a seguinte letra: 

“Que mal haverá em contemplar um homem a possuir uma mulher? Serão os mesmos animais mais livres que nós? Parece-me que aquela coisa que a Natureza nos dá para perpetuar-nos deveria ser usada à volta do pescoço como berloque e no chapéu como medalha. Foi ela quem vos fez (…) Gerou as mais adoráveis crianças, as mulheres mais belas, os santos mais veneráveis. Não é mister ocultar órgãos que engendraram tantas belas criaturas. Seria antes mister ocultar nossas mãos, que nos dissipam o dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usurários, torturam a alma, ferem e matam.” 

Fecho com o Italiano que, com o livro “Sonetos Luxuriosos”, escandalizou a Itália da época. Infelizmente escandalizaria até hoje porque o pessoal anda mesmo muito careta. Eu ainda iria mais longe e perguntaria que mal haverá em contemplar seres humanos, de qualquer sexo, a se possuírem? Como é importante que o erótico e até o pornográfico estejam mais presentes e não tão interditos. Mais prazer do que dor é um bem necessário.

Prazer e dor estão intimamente conectados, um inclusive podendo alimentar o outro, assim como censura e transgressão são também complementares. O sexo, em todas as sociedades, sempre teve lá seus interditos. O incesto, interdição primordial, funda a sociedade como a conhecemos. Mas acho que a maioria das interdições acontece por razões espúrias, por controle e coerção, mais do que por uma razão social e psicanalítica tão profunda e introjetada em nós – como no caso do incesto. Lembrando que até o incesto tem variantes em suas interdições. 

No livro “O Erotismo” o francês George Bataille estabelece mil conexões entre o erótico e o divino. De tudo que fala no livro o que mais me marcou foi a passagem que, na minha edição, está destacada na contra capa e me fez ter tesão pra comprar o livro: O sentido último do erotismo é a fusão, a supressão do limite. Sendo assim, interdição e transgressão, no campo do erótico (e do divino como entende Bataille), não são opostos, mas complementares. O casamento, em seu sentido clássico, é um destes paradoxos de interdição complementada pela transgressão, ele é uma violação sancionada. Bataille também lembra que o ser humano é o único que aprendeu a usar o sexo apenas como ferramenta de prazer, deixando de lado sua função de perpetuação da espécie. É importante que perpetuar a espécie seja algo muito prazeroso, quanto mais prazeroso mais chance do pessoal praticar.

Já que existe prazer, então que gritemos bem alto a sua existência! O homossexualismo sempre me pareceu, nesse sentido, o grito máximo do prazer. Numa relação entre dois homens, ou duas mulheres, o sexo existe como encontro carnal e espiritual entre dois seres que se amam, pelo menos naquele instante. Em nenhum momento ele pressupõe a procriação. Casais homossexuais podem ter filhos de muitas maneiras, mas elas estão além do sexo. E quando os reacionários falam sobre “normalidade”, evocam sempre as relações entre os bichos mas esquecem de que muitos animais praticam o sexo sem fins de procriação. É o caso das relações homossexuais entre golfinhos; os babuínos que têm uma ativa vida sexual mesmo em períodos não férteis e que trepam de frente, olho no olho, assim como nós. Também existem estranhas relações sexuais entre espécies, como na prática de zoofilia, entre humanos e cachorros, por exemplo, trabalhada no filme “24 horas de sexo explícito” do Zé do Caixão, ou ainda, para excluir os humanos, o vídeo de um macaco usando um sapo para se masturbar. Estas são pequenas mostras que o prazer é um dos pontos fundamentais do sexo, não necessariamente conectado com a procriação, como quer a Igreja Católica e as marchas pela família do Bolssonaro. 

Chico Xavier tem um impressionante depoimento sobre sexo, homossexualidade e espiritismo em um programa de TV dos anos 1960. Diz o Chico que há uma conexão espiritual entre os seres que transcende a barreira física do corpo. Passei a respeitá-lo muito mais depois de vê-lo nesse vídeo tirado de um programa com um nome sensacional: Pinga-Fogo.

Desde seu início, nas pinturas rupestres das cavernas, o erotismo está presente na arte. Não é necessariamente algo sexual, mas um erótico ligado à força motriz do Eros. Essa força que para os gregos antigos cria o mundo e o faz girar. Mas não é bom entrar com tudo de uma vez, essa foi só a preliminar, semana que vem continuo o caminho pelas sacanagens da poesia erótica propriamente lambida.

Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 24/03/2014 por em Domingos Guimaraens.
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