ORNITORRINCO

SOBRE CONFIAR

Cena em um bar em 2040

Um homem entra. Vê uma mulher sozinha. Ela olha, sorri. Ele sorri de volta. Ele se aproxima.

ROBERTO – Oi, tudo bem, meu nome é Roberto, prazer.
JULIA – Prazer, Julia. CPF e RG, por favor.
ROBERTO – Opa, claro. Pode me dar só o seu RG que já serve.
JULIA (pensando) : Nossa que cara bacana, relax.

Parece surreal, mas o surreal não é assim tão diferente do que já vivemos hoje onde o que impera é que todo mundo pode estar mentindo, vai te decepcionar e não é confiável até que prove o contrário.

Há quem possa argumentar logo de cara que ser desconfiado é uma forma de “se precaver”. Eu digo que esse “se precaver” onera nossa qualidade de se relacionar e além disso esse papo de “confiar desconfiando” é em grande medida uma maneira pessimista de encarar os outros seres humanos e esperar o pior deles.

Em especial quando você tem a experiência de um fim de relacionamento, de qualquer natureza que tenha sido essa relação, ou de se sentir traído por alguma razão, ou alguma situação que destrua suas expectativas positivas sobre o outro, você tende a perder um pouco da sua qualidade de confiar.

Confiar é se expor. É possível que vá se decepcionar. 
Mas é esse exatamente o ponto. Ninguém tem o poder 
de te decepcionar, o próprio verbo ja é reflexivo, você 
se decepciona. E aí vem a opção de se agarrar como um 
carrapato a essa decepção ou seguir em frente e continuar.

Digo qualidade porque penso que nossa vida seria melhor se a gente conseguisse confiar mais fácil e frequentemente uns nos outros, só que de uma forma geral parece que o que permeia e dita nossas relações hoje é a desconfiança.

Terminei um namoro há alguns meses e percebo que em especial nestes momentos é muito comum você se endurecer, perder um pouco da sua capacidade de confiar e acreditar nas pessoas. Fazemos muito pra evitar nos expor aos riscos que possam nos decepcionar, o que inclui não confiar facilmente nas novas pessoas que você conhece. Me policio pra não ir por esse caminho. Mas a gente vive isso tão constante e implicitamente que naturaliza a desconfiança e não só nas relações afetivas.

Você chega em uma festa e não basta dizer seu nome, você tem que dizer de onde veio, o que estuda, trabalha, pra que time torce. Você vai ao banco porque quer mudar sua agência e não basta dizer que mora no Flamengo na rua tal, você tem que apresentar um comprovante de residência. Você conhece uma pessoa, e por mais que olhe ela nos olhos e que seu nome seja Franco, ela vai desconfiar de você. Sem falar em instituições nefastas como cartórios que servem dentre outras coisas pra provar como não confiamos uns nos outros, pra provar que o que eu estou querendo provar é verdade.

Lembro de um tio italiano que observou que no Brasil a política da desconfiança – e de provar que você é você mesmo, por exemplo –, é uma das mais intensas que já viu. Lembro como ele achou engraçado a quantidade de documentos que eu tinha: CPF, CNH, RG, Título de eleitor, Certificado de reservista, etc. Ele me perguntou: Pra que tudo isso? Respondi, Pra provar de várias formas que eu sou eu.

Talvez isso tudo pareça muito natural, mas não deveria ser. Não concordo com a ideia de que só porque algo é feito assim ou assado “desde a Roma antiga”, a gente não deva questionar e tentar mudar. Me incomoda essa naturalização da desconfiança como orientador da nossa forma de viver em sociedade e de nos relacionarmos.

A questão é que o fato de você confiar ou não em um completo estranho ou em alguém que você está conhecendo não aumenta ou diminui a probabilidade dele ser um mau caráter. Se você lida com pessoas mal intencionadas elas continuarão mal intencionadas quer você tome precauções ou não. A preocupação é uma tentativa quase infantil, e repito, pessimista, de tentar se precaver de uma possível decepção. Por que ao invés de esperar o pior das pessoas a gente não confia e espera o melhor delas?

Confiar é se expor. É possível que vá se decepcionar. Mas é esse exatamente o ponto. Ninguém tem o poder de te decepcionar, o próprio verbo ja é reflexivo, você se decepciona. E aí vem a opção de se agarrar como um carrapato a essa decepção ou seguir em frente e continuar a acreditar, a confiar, e não catastrofizar um incidente isolado como se fosse a regra. E aí é que tá: confiar é um salto de fé. Você crê porque crê. Confia porque confia. E ponto.

Confiar assim também não se trata de ingenuidade, é uma decisão. Quem é sensível diz saber se pode ou não confiar pelo olhar, pela vibração da pessoa. Mais importante do que aspectos sutis do ato de confiar é saber que é uma escolha consciente que deveríamos tentar adotar com mais frequência.

Isso de escolher ser alguém que confia, me lembrou uma parábola em que um mestre está com seu discípulo e vê um escorpião se afogando em uma poça. O mestre tenta salvar o escorpião, e o bicho tenta picar o mestre. Isso se repete até que o discípulo, questiona porque ele está sendo burro de ficar tentando ajudar quem está atacando ele. O mestre responde: a minha natureza é de ajudar, a dele de me atacar, não posso mudar minha forma de ser por causa do que ele me dá.

Confiar é diferente de ser bobo ou idiota, porque você aprende sim com a situação anterior. A diferença é que você não fica fechado e com pedras nas mãos já esperando quem vai ser a próxima pessoa a quebrar sua confiança. Você confia porque quer, consciente dos riscos inerentes a se relacionar com o mundo. Sim, é difícil, mas viver em estado de constante suspeita e desconfiança deve ser algumas vezes mais limitador e pior. As razões de não ter acontecido o que se esperava são várias e variadas, vai saber… O que a gente sabe de fato?

Eu sei que a cada vez que a gente se decepciona e confia menos, a gente se endurece. Se endurecer é ter menos recursos pra lidar com o que a vida te traz, e se tem uma coisa que você sim pode confiar é que se você se endurece, a vida pode te dobrar. Se a cada decepção a gente se endurecer e ficar mais desconfiado já prevejo onde vamos parar em 2040.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 20/03/2014 por em Franco Fanti.
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